Caminho de Santiago: Diário de Viagem pelo Caminho Português da Costa

5 de setembro de 2026

A partir do Porto, uma viagem de quase 280 quilômetros que exige pelo menos doze dias e liga o norte de Portugal à Galícia, entre castelos e fortalezas medievais, aldeias de pescadores, moinhos, praias e faróis

“Bom caminho”, incentivam tanto os moradores quanto os turistas e os caminhantes com suas mochilas. Seja por motivos religiosos, espirituais ou turísticos, cada vez mais viajantes de todo o mundo escolhem um dos muitos itinerários do Caminho de Santiago. A história remonta a mais de mil anos, quando o túmulo do apóstolo Santiago Maior foi encontrado em Santiago de Compostela. Os peregrinos começaram a visitá-lo já nos séculos IX e X, mas sobretudo no século XII, quando a Catedral foi erguida sobre o sepulcro.

Antigas fortificações no trajeto para Praia do ÂncoraGabriela Vigo

OCaminho Português pela Costa vem sendo cada vez mais escolhido por quem prefere trilhas com brisa do mar e pores do sol inesquecíveis, castelos e fortalezas medievais, aldeias de pescadores, moinhos, faróis e capelas de pedra. E também por quem está ávido para saborear a rica gastronomia local. Este percurso, que oferece paisagens maravilhosas e desníveis baixos, se estende por cerca de 280 quilômetros da costa portuguesa e do interior da Galícia. Por isso é um desafio, e o ideal é realizá-lo em etapas, saindo bem cedo pela manhã. Assim, após o descanso reparador – não convém caminhar nas horas mais quentes do verão –, é possível aproveitar as praias e provar as comidas e vinhos típicos de cada lugar ao anoitecer.

A proposta é chegar a Santiago de Compostela em pelo menos doze dias de caminhada. Para isso, os conselhos mais importantes são carregar apenas uma mochila leve com o essencial para a jornada (o correio transporta a bagagem mediante uma taxa) e descansar em bons alojamentos (reservados de forma particular ou com agências especializadas).

Parta da cidade portuguesa do Porto, junto a um monolito na Catedral, caminhando sempre pela costa e para o norte. Como saber por onde passa o Caminho de Santiago, especialmente se quisermos abrir mão das instruções do celular para ouvir apenas as ondas e as gaivotas? É preciso seguir as conchas e as setas amarelas marcadas com cerâmica ou tinta em paredes, pisos, postes de luz, monólitos e até nas fachadas de algumas casas.

À medida que se deixa a cidade para trás, a costa se abre na imensa praia de Matosinhos. Assim que termina o passeio pela orla, segue-se por passarelas de madeira, atravessando vilas de pescadores como Labruge, Vila Cã e Vila do Conde, até chegar à primeira parada, Póvoa de Varzim (31,6 quilômetros). Após visitar a fortaleza e a igreja barroca, pode-se jantar diante do mar.

No dia seguinte, o caminho continua pela praia, com seus antigos moinhos, e depois pelo Parque Natural do Litoral Norte, com trilhas de terra entre dunas onde se preservam espécies protegidas (lontras, martins-pescadores e sapos-espuelas). Após passar pelas vilas de Apúlia e Fão, e pelo rio Cávado, o descanso fica em Esposende (20,2 quilômetros), com sua fortaleza de pedra medieval, suas belíssimas praias e hotéis à beira-mar.

Peregrinaje con la brisa marina en Matosinhos, en el norte de Portugal
Peregrinação com a brisa marinha em Matosinhos, no norte de PortugalAna Fernández – Getty Images

A terceira jornada começa pela ampla orla, continua por passarelas entre dunas e, por fim, segue por um caminho de pedras por um monte com árvores que protegem do sol e do calor com sua sombra. Atravessando um riacho com uma cachoeira refrescante, vilas com igrejas e casas decoradas com mosaicos coloridos e a Ponte Eiffel sobre o rio Lima, chega-se a Viana do Castelo (25,10 km). Nesta bela cidade, orgulham-se do Castelo de Santiago da Barra e do Santuário do Sagrado Coração de Jesus, que se destaca no alto do monte de Santa Luzia, acessível por funicular.

No dia seguinte, o caminho segue junto à praia com suas fortificações e moinhos, sem deixar de encantar pela sua beleza. Em seguida, uma trilha de pedrinhas atravessa a Mata Nacional de Camarido, uma floresta nativa com borboletas, aves e ninhos de aves protegidas. Vila Praia do Âncora (18,3 km) avista-se ao longe por suas amplas praias.

En lancha a España

No quinto dia, caminha-se pela costa portuguesa pela última vez até chegar ao pequeno porto de Caminha. A balsa para atravessar o rio Miño para a Espanha está encalhada há tempos, por isso é preciso escolher alguns dos táxis aquáticos que levam cerca de 10 minutos para chegar à costa oposta.

Já na Galícia, sem necessidade de passar por qualquer controle migratório, atravessa-se um flanco do monte de Santa Tegra, aproveitando a sombra dos pinheiros e o solo fresco, coberto por folhas úmidas. Ali há relíquias arqueológicas de povos que habitaram a região há dois mil anos, uma ermida e um museu arqueológico. Em seguida chega-se a A Guarda (12,1 km) com seu porto, sua torre do Relógio e suas casas coloridas.

No dia seguinte, o trajeto contorna a costa por caminhos ondulados e passa por Santa María de Oia, sede do único mosteiro espanhol com vista para o mar e belíssimas construções em pedra. A etapa termina em Baiona (30,7 km), que encanta com suas praias e seu porto – onde é possível visitar uma réplica exata da caravela La Pinta –, a Casa da Navegação, a Fortaleza do Monte Boi e a longa avenida costeira onde as ondas batem e o pôr do sol se põe sobre o oceano após as 22h no verão.

El día en Vigo vale la pena aprovecharlo para recorrer el casco histórico
O dia em Vigo vale a pena para percorrer o centro históricoGabriela Vigo

No sétimo dia de caminhada, a brisa marinha dá lugar ao interior da Galícia. Depois de atravessar o rio Miñor pela ponte românica A Ramallosa, construída com pedras no século XIII, o traçado oficial passa por Nigrán, com lindas casas com torres.

O cenário muda completamente ao chegar a Vigo (27,10 km), a maior e mais populosa cidade da Galícia, com seus edifícios altos e suas originais escadas rolantes cobertas pelos passeios, para facilitar os desníveis. As opções são percorrer o porto e o centro histórico, ou pegar uma balsa até as Ilhas Cíes, um paraíso natural com águas cristalinas. Lá encontra-se a Praia de Rodas, eleita a mais bonita do mundo pelo diário britânico The Guardian, ideal para se recompor dos quilômetros já percorridos.

No oitavo dia, cruza-se a cidade pelas calçadas largas, com setas amarelas marcadas nos estabelecimentos. Nos arredores inicia-se uma subida exigente até a Senda da Traída das Augas, uma barragem para o abastecimento de água, mas a recompensa são vistas deslumbrantes da ría de Vigo e o aroma de eucalipto. Ao descer o caminho, chega-se a Redondela (16 km), famosa por seus dois grandes viadutos ferroviários, pela enseada e pela ilha de San Simón, e por suas cabines literárias, onde se pode deixar um livro já lido e pegar outro novo.

El Convento Santo Domingo en Pontevedra
O Convento Santo Domingo em PontevedraGabriela Vigo

Ponto de encontro

Ao deixar Redondela –ou Arcade, às vezes escolhida no seu lugar–, no nono dia, conflui o Caminho Português pela Costa –ao qual se somam muitos caminhantes em Vigo– com o Caminho Português Central –que começa em Lisboa, mas muitos começam em Tui–. Ao longo do trajeto, bem sinalizado com monolitos por caminhos de terra entre bosques e campos semeados, atravessa-se a histórica ponte romana de Pontesampaio, recordada por ter sido lá que os corajosos vizinhos derrotaram o exército napoleônico.

O destino da etapa é em Pontevedra, outra cidade grande cujo centro histórico permanece bem preservado. Lá é possível aproveitar o Santuário da Virgen Peregrina, a Basílica de Santa María la Mayor, as Ruínas do Convento Santo Domingo, o Mercado Municipal de Abastos e a Praza da Leña.

No dia seguinte, a trilha percorre bosques de pinheiros e vinhedos que oferecem beleza e sombra, pois literalmente passa por debaixo das parreiras, com seus frutos ainda verdes. Ao chegar a Caldas de Reis (21,10 km), a recuperação ideal acontece no antigo Hotel Balneário Acuña, mais conhecido como ‘Balneário dos Peregrinos’, que dispõe de piscinas com águas termais, conhecidas desde a época romana. Quem se hospedar em outros albergues pode passar a tarde lá mediante uma tarifa acessível.

Las construcciones antiguas salpican el paisaje cerca de Pontevedra
Las construcciones antiguas salpican el paisaje cerca de PontevedraAna Fernández – Getty Images

O décimo primeiro dia transcorre em trilhas sombreadas entre bosques, vinhedos e campos com jumentos e cavalos. A última parada é em Padrón (18,6 km), famosa pelos pimentões – vale prová-los, nem todos são picantes – e porque ali nasceu o escritor Camilo José Cela. Um dos passeios mais emocionantes é a visita à casa onde viveu e morreu a escritora Rosalía de Castro, onde não apenas se exibem seus móveis originais, mas também seus livros, entre eles o célebre Cantares gallegos, de 1863, considerado o primeiro conjunto de poemas escritos em galego e a obra fundadora da literatura nessa língua.

No derradeiro dia, durante uma caminhada de 24,3 quilômetros, com muita emoção se sobe pelas estreitas ruazinhas de vilarejos de pedra em direção a Santiago de Compostela para descobrir, ao longe, as torres da Catedral. Construída em estilo românico entre 1075 e 1211 sobre dois templos anteriores, foi reformada conforme as modas renascentistas e barrocas nos séculos XVI, XVII e XVIII (no último, construiu-se a fachada atual sobre a praça). Por certo, o primeiro passo é percorrer a basílica em planta de cruz latina, maravilhar-se com a sua nave central de 22 metros de altura, com as belas capelas (a Catedral Mayor e outras 16), os púlpitos de bronze, os dois órgãos, o coro esculpido em madeira e as pinturas nos tetos abobadados, e visitar o túmulo do apóstolo.

Sempre concurrida, a praça do Obradoiro em frente à catedral de Santiago
Sempre movimentada, a praça do Obradoiro em frente à catedral de SantiagoShutterstock

Vale a pena ficar vários dias na cidade para explorar o centro histórico, que foi declarado Patrimônio Mundial pela UNESCO. Seu coração está na Praça do Obradoiro e na Catedral com seus museus, hospedados nos magníficos edifícios que foram sendo acoplados desde o século XII.

Somente visitando os museus (a entrada tem desconto para peregrinos) é possível acessar o recém-restaurado Portail da Glória (em granito policromado na entrada ocidental, criado pelo Mestre Mateus para concluir as obras encomendadas pelo rei Fernando II na Catedral em 1168), a Cripta da Glória e o Palácio Gelmírez (sé) de episcopal medieval com sala de armas, salão de cerimônias e cozinha).

Dados úteis

A viagem organizada por agência, com acomodação, assistência e traslado de bagagem, custa em torno de 1450 euros. Existem várias empresas que transportam carry-ons ou mochilas entre destinos, como El Camino com Correos e Top Santiago.

Pode-se optar por albergues para peregrinos ou hotéis tradicionais, com tarifas a partir de 100 euros para duas pessoas.

Certificado da Compostela

Bem perto da Catedral de Santiago, na Oficina do Peregrino, onde –após se registrar e obter uma senha digital– verificam que a Credencial do Peregrino tenha pelo menos dois carimbos por dia (vale tudo: igrejas, hotéis, albergues, praias e até bares) de uma rota que deve ter mais de 100 quilômetros para quem chega a pé ou 200 quilômetros para quem o faz de bicicleta.

Se atendidos todos os requisitos, recebe-se a Compostela, um documento em latim que premia e lembra uma viagem tão sonhada quanto aproveitada. Além disso, pode-se obter um Certificado de Distância, que atesta a quantidade de quilômetros caminhados em rotas oficialmente reconhecidas.

Alguns dados

Seja por motivos religiosos, espirituais ou turísticos, cada vez mais viajantes de todo o mundo percorrem um dos muitos itinerários do Caminho de Santiago. A história remonta a mais de mil anos, quando o túmulo do apóstolo Santiago Maior –considerado o grande evangelista da Espanha– foi descoberto em Santiago de Compostela.

Os peregrinos começaram a visitá-la já nos séculos IX e X, mas sobretudo no século XII, quando a Catedral foi erguida sobre o sepulcro.

Na primeira metade do ano já haviam 272.402 pessoas, enquanto no ano passado haviam sido 530.774; em 2024, 499.164 e em 2023, 446.083.

O Caminho Francês permanece sempre como o mais escolhido; nesses meses foi percorrido por quase metade de todos os peregrinos: 118.069 pessoas (43,35% do total, 2% a menos que no ano passado).

Em contrapartida, a tendência que cresce a cada ano é o Caminho Português pela Costa, que continua em terceiro lugar, mas com números cada vez mais próximos do Caminho Português Central. No que vai de 2026, já transitaram por suas trilhas e passarelas 53.155 pessoas, representando 19,51% do total, o que significa um aumento de 22% em relação ao ano anterior. O Caminho Português foi concluído por 55.267 pessoas, 20,21% do total, com um incremento de 13% frente a 2025.

Os outros percursos mais escolhidos foram: Caminho Inglês, por 14.840 pessoas; Caminho Primitivo, 11.461; Caminho do Norte, 9.040; Via da Prata, 4.480; Caminho do Inverno, 1.629; Muxía-Finisterre, 1.072.

Outros caminhos menos escolhidos foram Muros-Noia, Caminho do Barbanza, Caminho de Geira-Arrieros, Caminho do Mar, Caminho de San Salvador, Caminho Esquecido e Miñoto Ribeiro.

Os pontos de partida preferidos foram Sarria, Espanha (115 quilômetros até Santiago de Compostela), 78.149 caminhantes; Oporto, Portugal (260–280 km), 42.777; Tui, Espanha (115 km), 19.967; Saint-Jean-Pied-de-Port, França (780–800 km), 15.408, e Ferrol, Espanha (113 km), 14.307.

Quanto às nacionalidades dos peregrinos, a maioria são espanhóis (92.524), seguidos por norte-americanos (26.824), portugueses (13.674), alemães (13.469), britânicos (8.205), mexicanos (6.818) e irlandeses (5.168). Além disso, já fizeram o caminho 4.427 brasileiros, 3.593 argentinos e 3.286 colombianos.

Augusto Almeida

Sou jornalista e apaixonado por entender as histórias por trás dos acontecimentos. No Jornal O Diário, acompanho as principais notícias do Brasil e do mundo, com atenção especial aos temas que ganham destaque, geram debate e ajudam a explicar as mudanças do nosso dia a dia.