Esperamos quinze dias para percorrer de carro o sul da Espanha. Uma viagem em equipe, daquelas em que grande parte do encanto está na própria estrada. Somos seis, uma família com idades e ritmos distintos, mas com o mesmo objetivo: seguir a linha de costa que une vilarejos brancos, praias atlânticas e cidades mediterrâneas até chegar ao ponto em que a Europa parece se inclinar para encarar a África.
A partir de Madrid, tomamos um dos primeiros trens AVE com destino a Sevilla. A viagem dura pouco mais de duas horas e meia e é uma transição suave entre a cidade e a aventura. Pela janela desfilam campos, vilarejos e paisagens cada vez mais andaluzas.
Ao chegar à estação Santa Justa, alugamos o carro que nos acompanharia durante grande parte do percurso. Uma viagem de carro é conviver durante dias em um estúdio com rodas. Há mochilas abertas, carregadores emaranhados, garrafas de água, areia em cada canto e mapas que se consultam, ainda que o GPS já tenha decidido o caminho. Há trocas de motorista, adolescentes que ficam dormidos assim que o motor pega e longas conversas que nascem sem muito motivo. Também há desentendimentos mínimos, silêncios compartilhados e aquela sensação difícil de explicar que aparece quando a paisagem começa a correr atrás da janela.
Antes de seguir rumo à costa, dediquemos algumas horas a Sevilha. A Catedral, o Real Alcázar e a Praça de Espanha resumem séculos de história e refletem uma das características mais fascinantes da Andaluzia: a convivência de influências cristãs, romanas e árabes que ainda moldam a arquitetura, a gastronomia e a identidade da região.
Ao cair da tarde, seguimos os cerca de 150 quilômetros que nos separam de Vejer de la Frontera. A rota atravessa campos verdes, grandes extensões de moinhos eólicos e suaves ondulações até que aparece, sobre uma colina, um dos grandes símbolos do sul espanhol: os pueblos blancos.
Vejer parece emergir da paisagem. Suas fachadas caiadas refletem a luz do pôr do sol, enquanto becos estreitos e escadinhas se enrolam em torno do centro histórico. Como ocorre em muitos vilarejos andaluzes, chegar de carro exige um pouco de paciência. As ruas são estreitas, as ladeiras são íngremes e estacionar pode virar um desafio.
Durante três noites, Vejer será nossa base para explorar a província de Cádiz. A primeira surpresa foi descobrir a amplitude das praias desta região. Acostumados a imaginar a costa europeia como uma sequência de pequenas enseadas e praias urbanas, aqui surge outro cenário. Quilômetros de areia dourada, horizontes abertos e uma sensação permanente de espaço.
El Palmar é nossa primeira parada. Uma praia extensa onde o Atlântico marca o caráter da paisagem. Seguimos para Barbate, uma localidade profundamente ligada ao mar. Cada restaurante, cada quiosque de praia, cada refeição nos diz que a pesca continua sendo parte essencial da vida cotidiana da região.
No dia seguinte visitamos a praia de Bolonia. Lá ergue-se uma enorme duna de areia branca que avança lentamente empurrada pelo vento. Subi-la requer algum esforço, especialmente sob o sol de julho, mas a recompensa chega lá em cima. Do alto, observa-se uma combinação perfeita de mar, bosque e areia que parece se estender até o infinito.
Enquanto descemos pela ladeira, correndo sobre a areia quente como se o grupo inteiro voltasse a ter dez anos, entendemos por que tantos viajantes consideram este recanto um dos cenários litorâneos mais impactantes da Andaluzia. Mais tarde seguimos rumo a Zahara de los Atunes.
Existem vilarejos que parecem feitos para ficar mais tempo do que o previsto. Zahara é um deles. Nascida ligada às antigas almadrabas e à pesca do atum-ruivo, mas hoje combina excelentes restaurantes, praias amplas e uma atmosfera descontraída que convida a desacelerar o ritmo.
Cádiz, o próximo destino, é uma das cidades mais antigas da Europa, cercada pelo oceano. Uma rambla se estende ao longo da cidade para que turistas, ciclistas e pedestres percorram sem virar as costas para o mar. Sua arquitetura tradicional pode ser apreciada no centro histórico.
O Estreito de Gibraltar
Continuamos nossa aventura pela estrada e chegamos ao ponto onde o Atlântico e o Mediterrâneo se encontram. O Estreito de Gibraltar é um dos passos mais transitados do mundo. O trecho mais estreito do estreito fica em Tarifa, e é para lá que nos dirigimos. Apenas 14 km de água separam-nos de Marrocos. Em dias claros, a costa marroquina aparece nítida no horizonte, lembrando que dois continentes convivem aqui frente a frente.
Tarifa é uma cidade vibrante, jovem e com muita energia litorânea. É impossível ignorar o papel que o vento desempenha neste trecho da jornada. As velas de kitesurf e windsurf coloram o mar enquanto atletas de todo o mundo aproveitam condições consideradas entre as melhores do planeta.
Anunciamos a aventura do outro lado do estreito. Pegamos o ferry com destino a Tânger. A frequência é alta na temporada e o bilhete pode ser obtido na hora. É uma viagem de aproximadamente uma hora. A transformação começa assim que embarcamos: mudam os idiomas, as vestimentas e os sons. É surpreendente constatar que uma travessia tão breve possa conduzir a uma realidade cultural tão distinta.
Tânger nos recebe com mercados, muralhas e uma energia impossível de confundir com a de qualquer cidade europeia. Percorremos seus principais pontos de interesse utilizando um dos tradicionais ônibus turísticos que permitem subir e descer livremente durante o percurso.
Visitamos as Cavernas de Hércules, observamos o Atlântico bater nas rochas e encerramos o dia numa praia onde os camelos caminham junto ao mar.
Essa noite dormimos em uma casa tradicional marroquina alugada pela internet. Telhados baixos, portas estreitas e quartos distribuídos em vários níveis compõem uma moradia completamente diferente de tudo o que havíamos conhecido durante a viagem.
A gastronomia nos brinda com uma anedota inesperada: provamos tubarão pela primeira vez. Mas talvez a lembrança mais intensa de Tânger seja mudar de idioma, de códigos culturais e de referências visuais em tão poucas horas e compreender melhor a influência que a África teve historicamente sobre o sul da Espanha.
De volta à Andaluzia, retomamos a rota rumo ao Mediterrâneo. Nossa próxima acomodação foi Estepona, uma opção mais tranquila e acessível que Marbella para se estabelecer por vários dias e explorar a Costa do Sol.
A primeira visita foi Marbella, que tem muito para ver para além de sua imagem associada ao luxo e às celebridades. Seu centro histórico mantém o encanto andaluz, enquanto espaços como a Ponte Romana mostram o lado mais sofisticado da cidade.
Málaga, por sua vez, combina praias urbanas, museus, boa gastronomia e uma vida de rua intensa. A cidade natal de Picasso vive um processo de renovação constante sem perder sua identidade mediterrânea.
Finalmente, chegamos a Nerja. Também conhecida como o Balcón de Europa, esta cidade se projeta sobre o mar como a proa de um barco. De lá a vista parece abranger tudo: falésias, montanhas e o Mediterrâneo se estendendo até o horizonte. É um daqueles lugares que justificam por si sós um desvio na rota.
Depois de quase mil quilômetros de viagem, chega o momento de trocar o asfalto pela água. Devolvemos o carro em Sevilla. Talvez o maior encanto das viagens rodoviárias seja aquilo que aparece entre um ponto e outro, os descobrimentos, os desvios e as histórias compartilhadas.
Há quem acredite que o passado nômade da humanidade faz eco em nós quando partimos, desperta um instinto de exploração e uma tendência genética a buscar novos horizontes. Afinal, a felicidade tem uma estranha costume: muitas vezes surge enquanto estamos em movimento.
Terminar no mar
Para encerrar, voamos para Ibiza para viver uma experiência completamente distinta: quatro dias a bordo de um catamarã para oito pessoas.
Iván, nosso capitão designado, nos espera no porto finalizando os detalhes da embarcação. Enquanto terminava de prepará-la, dedicamo-nos a comprar os alimentos que nos acompanharão durante os dias seguintes. A partir daquele momento ele se tornou muito mais do que um capitão. Foi nosso guia para acessar algumas das enseadas mais remotas e espetaculares de Ibiza e Formentera.
Dormir sobre o mar modifica a percepção do tempo. O dia transcorre entre navegações curtas, esportes aquáticos, nadar até a praia mais próxima, visitar calas e águas transparentes impossíveis de alcançar por terra.
Algumas noites, o movimento do barco pode ser desafiador para quem é propenso ao enjoo. Mas despertar rodeado de mar compensa qualquer desconforto.
Ibiza visto do mar afasta-se bastante dos estereótipos ligados à vida noturna.
Uma das visitas imperdíveis ao desembarcar é percorrer e desfrutar de vistas únicas a partir de Dalt Vila, que significa Cidade Alta, o espetacular casco antigo de Ibiza, declarado patrimônio da humanidade pela UNESCO em 1999.
Formentera, outro dos destinos visitados a partir do mar, possui praias de areia branca e águas cristalinas, que costumam aparecer nas classificações das melhores da Europa. Visitamos Beso Beach, uma das mais famosas da ilha. Percorremos as ruas de uma vila de traço mediterrâneo, arquitetura de linhas simples e paredes brancas. Uma beleza com identidade própria.