Miraildes Maciel Mota, a Formiga, de 48 anos, celebra a evolução do futebol feminino no país de Pelé, onde esse esporte foi vetado por decreto para as mulheres entre 1941 e 1979.
No evento “Esporte Cria”, organizado pelo Comitê Olímpico Brasileiro em São Paulo, a única jogadora a disputar sete Copas do Mundo e sete Olimpíadas pensa que a Seleção tem talento para quitar uma dívida histórica: vencer o campeonato mundial feminino após os históricos cinco títulos masculinos.
O torneio será de 24 de junho a 25 de julho do próximo ano.
Pergunta: O que representa para o Brasil e a América do Sul o Mundial feminino?
Resposta: “Temos uma grande oportunidade de mudar a realidade do futebol feminino sul-americano. Passamos por muitas situações adversas e hoje sabemos que estávamos no caminho certo. Independentemente dos ‘nãos’ que recebemos, de não termos estrutura, sonhamos com o dia em que o futebol feminino brasileiro iria ter sua chance. É uma oportunidade de mudar a vida de inúmeras meninas, não apenas no Brasil, mas em nossos países vizinhos”.
P: Um antes e um depois?
R: “Sim. Existem muitos talentos, mas por falta de oportunidades eles se perdem. É um marco com o qual podemos mudar a mentalidade de muitos que ainda não acreditam no futebol feminino”.
P: Onde está hoje o futebol feminino brasileiro?
R: “Europa e os Estados Unidos estavam à frente pela estrutura e pelo trabalho que fizeram antes. Tivemos no Brasil 40 anos de proibição, o que atrasou nossa evolução. Muitos dizem que somos potência, mas precisamos provar isso. Estamos avançando. O Brasil está se consolidando, aproximando-se dos Estados Unidos, da França, da própria Espanha (atual campeã mundial)”.
– “Lutar contra todos e todas” –
Discreta meio-campista em seus tempos, Formiga aposentou-se em 2022 com o São Paulo. Ao longo de sua carreira, iniciada no início dos anos 1990, jogou na França pelo Paris Saint‑Germain e nos Estados Unidos.
P: Jovens como Kerolin, que acabou de assinar com o FC Barcelona, somaram-se às jogadoras de maior experiência. O Brasil pode ser, enfim, campeão?
R: “Com certeza, mas precisamos lutar contra todos e todas. Ter um mercado em crescimento no futebol feminino permite exportar nossas jogadoras para ganhar experiência, conhecer a filosofia de trabalho de outros países e trazê-la para a Seleção e para quem joga aqui no Brasil”.
P: O que você pensa sobre o trabalho do selecioneiro Arthur Elias?
R: “Que bom que Arthur e seu corpo técnico são competentes e têm hoje uma estrutura para transformar as coisas. Hoje temos um campeonato, uma liga, que dá dimensão a inúmeras jogadoras. Isso ajuda as meninas a acreditar que é possível”.
– Espera por Marta –
Junto à “Rainha” Marta, Formiga quase venceu o título mundial na China de 2007, quando o Brasil perdeu a final para a Alemanha, e conquistou, entre outros títulos, duas medalhas de prata olímpicas.
P: Você disputou sete Copas do Mundo. O que teria dado para jogar em casa?
R: “Lutamos muito por isso. Deixei o futebol antes do sonho se realizar, mas me sinto feliz de que essa nova geração tenha a oportunidade e espero que aproveitem desde o primeiro ao último minuto”.
P: Marta completa 41 anos em fevereiro. Ela ainda chega?
R: “Estou na torcida por ela. Seria sua despedida diante de nossa torcida. Não há razão para que ela não esteja na Copa do Mundo. Mesmo que não fosse titular, é importante”.
P: Como você viveu a crise da FIFA com a proposta de abrir torneios ao capital privado, como o Mundial, e a ameaça — descartada no final — de boicote europeu?
R: “Preocupou que um boicote acabasse prejudicando este Mundial. É preciso repensar as coisas: a Copa do Mundo é do mundo. Não me parece bem entregá-la a outras pessoas; pelo contrário, há que dar espaço a jogadores e jogadoras para trazer cada vez mais melhorias ao futebol”.