A 1 hora de Capital Federal: vila que preserva armazéns rurais e comida caseira

12 de setembro de 2026

La Paz Chica, próximo a Roque Pérez, é o lugar perfeito para saborear pratos regionais, churrasco, massas e picadas em um ambiente onde o tempo parece passar mais devagar. E neste fim de semana, a proposta ganha um atrativo extra: a poucos quilômetros, Carlos Beguerie celebrará seu 114º aniversário com uma grande festa popular.

Um cão magro fareja as panturrilhas de quem se aproxima da fachada intacta do Cine Club Colón em La Paz Chica, a 135 km de Capital Federal. As paredes, pintadas de branco, ostentam o cartaz que resiste desde 1934. Lá dentro, como num túnel do tempo, as antigas poltronas diante de uma tela de ontem observam o mesmo curta-metragem que gira e gira o ciclo de sua melancolia.

A história do curta conta como um vizinho de bicicleta, Pepe Guidobono, entre outros, mas principalmente ele, lutando contra moinhos de vento, com força de vontade e perseguindo o sonho de ver o cinema de sua infância funcionando, conseguiu desmontar o chiqueiro em que se transformara desde os anos 80, retirando uma camada de terra e detritos de 30 cm de espessura e restaurando sua bela fachada bordô, para devolver à vida esta cinemateca que hoje funciona como salão de atos, escola secundária para adultos ou encontros de catequese. Que hoje serve para resistir.

Isso aconteceu em 2013, quando Roque Pérez completou 100 anos. A ausência de reboco em alguns setores ficou como evidência do estado anterior. As celebrações incluíram a restauração da antiga estação de trem para transformá-la no Prédio do Bicentenário, o cinema no vilarejo rural, e outras construções históricas como a casa-museu-rancho onde nasceu Juan Domingo Perón. Também é possível visitar o Centro de Interpretação Histórica e a Reserva Ecológica de Fauna e Flora Laguna de Ratto.

Nada parece desmentir que estamos dentro de um filme dos anos 40. O cortinado do Cine Club Colón, a bilheteria, as poltronas com o estofamento roído. Encomendado para ser construído por Jerónimo Coltrinari, imigrante italiano e trabalhador rural em 1933, o construtor Romólo Mazagliari e um ajudante conseguiram erguer suas paredes de tijolo assentadas em cal em um ano para transformá-lo num grande centro de atração do paraje, com cantina e salão para eventos sociais.

“Trata-se do único cinema rural em funcionamento da província de Buenos Aires. Abre aos sábados, domingos e feriados. Lá são servidos um lanche ou café da manhã bem simples, e o vermute artesanal Coltri que prepara um vizinho, César Coltrinari, descendente de Jerónimo”, conta Candela Barreneche, diretora de turismo de Roque Pérez.

Na tela gigante são exibidos curtas rurais, quase sempre o mesmo que conta a história da recuperação do cinema e, muito de vez em quando, algum filme para toda a família.

Sobre uma vitrine encontram-se os troféus do clube de futebol “La Victoria” da cancha de grama que fica ao lado do salão. Da época de glória, nos anos 50.

Este edifício recorda o tempo dos armazéns de campo, quando os donos sabiam que vinha gente pela poeira que levantavam seus cavalos. Na La Paz Chica há vários, tantos que até têm sua festa, todas as primeiras semanas de janeiro, chamada A Noite dos Armazéns, quando se pode visitá-los todos juntos em uma tarde. Mas é melhor escolher um e viver a experiência a fundo de comer em tempos lentos pratos regionais, churrasco, massas, picadas e um longo etcétera, para se hospedar depois em um hotel, estalagem com spa ou uma cabana próxima, assim não se quebra o encanto do tempo parado ao voltar para casa. Povoações próximas como Carlos Berguerie ou a cidade de Roque Pérez completam o quadro de atrativos para ficar o fim de semana inteiro, tão perto mas tão longe de Buenos Aires.

“Há mais de 300 vagas entre o hotel Mayoral, a estância Los Álamos (com restaurante recém-inaugurado que abre de segunda a segunda com reservas) e a estância La Dulce no paraje de La Gloria, entre outros locais”, diz Barreneche.

Beguerie, em festa

Entre velhas estações ferroviárias, ruas tranquilas e a magia que os povos bonaerenses que preservam intacta a sua identidade, Carlos Beguerie se prepara para celebrar seus 114 anos. No próximo 9 de agosto, quem chegar à localidade poderá desfrutar de um dia que reunirá tradição, gastronomia, música ao vivo, artesãos e o desfile cívico-escolar, em uma festa que convida a descobrir a história e a calor humano desta localidade.

De antiga tradição ferroviária e crioula, o povo festeja com uma feira de artesãos, uma imensa cantina e propostas gastronômicas, além de diversos shows musicais.

O lugar mostra uma forte identidade artística entre suas poucas quadras, armazéns de campo e murais. Suspendido no tempo, tem pouco mais de 450 habitantes. O dia convida a adentrar nos cantos mais carinhosos do povo, como o antigo tanque do Prédio da Estação, transformado com delicadeza e memória no museu La Perla do Provincial.

Logo ali, uma trilha lindeira a verde guia até a horta comunitária, um espaço onde a terra, o trabalho compartilhado e os ciclos naturais continuam marcando o ritmo. Mas talvez um dos maiores deleites oferecidos seja sentar-se à mesa em um de seus armazéns de campo. Em cada um deles, o tempo cozinha em fogo baixo e os sabores contam histórias: empanadas deliciosas, massas caseiras, churrasco com aroma de lenha ou costelas à cavalo que combinam tradição e sabor.

A apenas alguns quilômetros da cidade-sede, este local desdobra sua proposta como um segredo bem guardado. Fundado ao passo do trem, guarda intacta a essência dos povos que nascem do esforço compartilhado e do amor pela sua terra. As ruas de terra, as casas baixas e a estação centenária compõem uma postal parada no tempo.

Conhecido como La Perla do Provincial, a criatividade e o espírito colaborativo devolveram-lhe o brilho perdido: muitas de suas moradias centenárias foram recuperadas com esmero, tornando-se acomodações rurais com a sua marca, onde o rústico convive com o artístico. A técnica do trencadís, inspirada no modernismo catalão, se desdobra em murais coloridos que celebram a flora, a fauna e as tradições locais, transformando paredes em relatos visuais.

O povo soube abraçar a transformação sem abrir mão de sua raiz. Assim demonstram suas praças intervenidas com arte popular, as luminárias pintadas com aves autóctonas, os jogos artesanais e um mural em homenagem às Ilhas Malvinas. Tudo pode ser percorrido a pé, sem pressa, deixando que o ambiente fale.

La Paz Chica

Os caminhos de terra de La Paz Chica conectam os armazéns, o cinema e a escola rural de poucos alunos. Um rancho com o nome do paraje atende todos os dias bem no meio do nada. Porque, durante a semana, é exatamente isso que este cantinho parece ser, a agonia envolta pelo abraço do horizonte infinito.

Há outros armazéns como La Paz, que abriu em 1859 e cujo título foi dado por Juan Manuel de Rosas, com relíquias inestimáveis, que abre de vez em quando. O Gramiyal, La Perla, La Querencia e La Estafeta Postal são outros armazéns que abrem nos fins de semana.

Dizem os que contam que até Juan Moreira freqüentava La Paz, que permaneceu aberto enquanto viveu Chola, que já não está, e cada tanto abre pela mão de seus descendentes. Na parte de trás pode-se ver uma construção inteiramente de adobe, com teto de palha e canas amarradas com tiras de couro.

Os armazéns de campo resistem estoicamente ao passar do tempo. Nos fins de semana vestem-se de festa, por se quisesse, e todos possuem seu encanto particular misturado com aquele ar bucólico do antigo que, se morrer, morre de pé.

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Informações úteis

Como chegar. De Buenos Aires até Roque Pérez são 135 km pela Rodovia Ricchieri, Rodovia Ezeiza-Cañuelas e a estrada n.205. Ao passar Roque Pérez, no km 135,5, dobra-se à direita pelo antigo caminho de terra que une os parajes, cerca de 7 km bem sinalizados.

Paraje La Paz Chica. Cine Club Colón: aberto aos sábados, domingos e feriados.

Roque Pérez: Casa Natal de Juan Domingo Perón: abre de quarta a domingo, das 10 às 13 e das 14 às 17. A entrada é gratuita. Pte. Perón 231.

Augusto Almeida

Sou jornalista e apaixonado por entender as histórias por trás dos acontecimentos. No Jornal O Diário, acompanho as principais notícias do Brasil e do mundo, com atenção especial aos temas que ganham destaque, geram debate e ajudam a explicar as mudanças do nosso dia a dia.