Há cidades em que a paisagem funciona como pano de fundo e outras em que a geografia determina diretamente a forma de transitá-las. Rio de Janeiro pertence, sem dúvida, ao segundo grupo. O Oceano Atlântico, os morros cobertos pela Mata Atlântica e uma malha urbana que se abre entre a rocha e a água fazem com que o entorno acompanhe praticamente cada movimento. Aqui, a natureza não aparece apenas quando se chega à praia: ela se infiltra entre os prédios, condiciona avenidas e reaparece a partir dos mirantes.
Copacabana, Ipanema e Leblon constituem alguns dos cartões-postais mais difundidos do Rio. Mas reduzir o destino a esses quilômetros de areia seria ficar apenas com a imagem mais conhecida dele. Do interior emergem bairros históricos, museus e parques; no alto, o Cristo Redentor e o Pão de Açúcar permitem entender uma geografia que, vista de baixo, parece quase impossível; e na zona portuária, espaços recuperados ao longo dos últimos anos revelam uma face mais contemporânea da cidade.
Essa presença argentina também se percebe na hotelaria carioca. Elizandra Demczyszyn, diretora de Vendas e Marketing do Sheraton Grand Rio Hotel & Resort, aponta que o fluxo é impulsionado principalmente por “a conectividade aérea entre os dois países, o apelo das praias cariocas e a busca por experiências de lazer” e que aumenta especialmente “durante a temporada alta, os fins de semana prolongados e as férias escolares”.
A “Cidade Maravilhosa” vista de cima
Existem dois pontos que concentram algumas das vistas mais reconhecíveis do Rio. O Cristo Redentor e o Pão de Açúcar são, provavelmente, as imagens mais repetidas da cidade, mas a experiência de subir até eles permite dimensionar uma paisagem que as fotografias dificilmente conseguem capturar.
O primeiro fica no topo do Corcovado, dentro do Parque Nacional da Tijuca. De lá, a figura do Cristo domina uma panorâmica que abrange a lagoa Rodrigo de Freitas, as praias, os morros e a Baía de Guanabara. A 700 metros acima do nível do mar, o mirante oferece uma das perspectivas mais amplas do Rio e permite reconhecer, de um mesmo ponto, boa parte de seus lugares emblemáticos.
Há um mês começaram as obras para substituir as escadas mecânicas do Cristo, que vão até maio de 2027, mas as visitas continuam ocorrendo normalmente. A diferença é que, no último trecho do percurso, ao chegar à área do monumento, é necessário subir uma escada de 80 degraus (trecho que era possível evitar graças às escadas mecânicas). Além disso, reduz o aforo diário de visitantes em 50%, por isso é conveniente reservar com antecedência. Acesso de trem, US$26.
No Pão de Açúcar a perspectiva muda. A subida é feita nos conhecidos bondinhos, os teleféricos que chegam primeiro ao Morro da Urca e depois seguem até o Pão de Açúcar, a 396 metros acima do nível do mar. Lá de cima surgem Botafogo, Copacabana e a Baía de Guanabara.

Os dois passeios compartilham algo mais do que as vistas: eles ajudam a compreender por que a natureza não funciona no Rio como um atrativo separado da cidade. Ela está integrada a ela e, em muitos casos, determina diretamente a sua forma.
Uma nova cara sobre o porto
Para encontrar outro cenário, é preciso mover-se para o centro e a zona portuária. Ali surge o Boulevard Olímpico, um dos setores que passou por uma importante transformação urbana no contexto dos Jogos Olímpicos de 2016.
Pelo passeio, encontra-se uma cidade distinta da orla de Copacabana, Ipanema ou Leblon. A renovação recuperou espaços da frente portuária para o trânsito de pedestres e acrescentou museus, intervenções artísticas e espaços públicos.
Na Praça Mauá está um dos edifícios que melhor simbolizam essa mudança: o Museu do Amanhã, inaugurado em 2015 e projetado pelo arquiteto espanhol Santiago Calatrava. Sua estrutura branca se projeta em direção à baía e contrasta com grande parte da arquitetura histórica que a envolve.
Puertas adentro, a proposta também olha em outra direção. Em vez de se concentrar exclusivamente no passado, coloca questões sobre o futuro do planeta, a ciência, a sustentabilidade, as mudanças climáticas e as consequências das decisões humanas. Se, a partir do Corcovado e do Pão de Açúcar, se observa uma geografia formada ao longo de milhões de anos, no porto surge uma cidade que continua a modificá‑se a si mesma.
Sabores que fogem do tradicional
A gastronomia propõe outra maneira de conhecer o Rio e permite descobrir uma característica própria das grandes cidades turísticas: a convivência de sabores locais com cozinhas vindas de diferentes partes do mundo.
Um exemplo aparece em Xian, um rooftop do centro do Rio cuja carta se move entre a cozinha asiática e japonesa. O restaurante incorpora sushi e preparações de inspiração oriental em um espaço elevado, onde a paisagem se torna uma peça-chave da experiência.

Em Leblon, a tradição muda completamente em L’Étoile, restaurante francês do Sheraton Grand Rio, localizado na Avenida Niemeyer, entre o Atlântico e os morros e com acesso direto à praia. Sua proposta está vinculada desde 2014 ao chef Jean Paul Bondoux. Com mais de seis décadas dedicadas à gastronomia, Bondoux construiu uma cozinha em que a tradição francesa convive com a simplicidade, a sofisticação e o protagonismo da matéria-prima.

A Itália também encontra espaço nessa diversidade. Bene, restaurante italiano do mesmo estabelecimento, propõe um cardápio com referências reconhecíveis da cozinha italiana, especialmente massas, mas também inclui peixes, mariscos e combinações mais contemporâneas.

A Ásia, a França e a Itália funcionam assim como três exemplos de uma cena gastronômica que permite ampliar a experiência do Rio além da culinária que tradicionalmente se associa ao Brasil.
Uma cidade que não cabe em uma única postal
Além de suas grandes atrações, o Rio também se revela em experiências menos monumentais: sentar-se para comer, caminhar junto ao mar, explorar ou descobrir quanto a identidade da cidade pode mudar ao atravessar um bairro para outro.
Talvez ali esteja a explicação de por que, mais de um século depois de começar a popularizar-se o apelido, o Rio continua a honrar o seu nome de “Cidade Maravilhosa”. Não apenas pelas imagens que o tornaram reconhecível em todo o mundo, mas por tudo o que convive por trás delas: história, cultura, gastronomia, natureza e uma cidade que continua se transformando.
As paisagens de Rio são conhecidas bem antes de chegar. Tudo o mais se descobre ao percorrê‑lo.