O Norte: viagem inesquecível por caminhos alternativos que convidam a conhecer a história

18 de setembro de 2026

Adentrar o interior da Argentina pelas pequenas estradas provinciais é iniciar uma viagem fascinante no tempo, onde a história e a cultura se entrelaçam com paisagens imponentes. Do conjunto de serras e trilhas de Córdoba aos vales áridos de Salta, existem vilarejos que testemunharam silenciosamente a gesta nacional e compartilham suas memórias com os viajantes que passam.

O itinerário pode começar em Córdoba, muitas vezes pionera na formação da identidade argentina. Nas planícies semiáridas de sua região setentrional, os ecos da época colonial ainda ressoam com certa melancolia. É o caso de Villa del Totoral, que foi construída às margens do Caminho Real, uma posição que lhe permitiu ver passar conquistadores, rebeldes e colonos. Este pitoresco vilarejo é conhecido pelo Circuito das Casonas, um conjunto de 25 construções erguidas entre o século XVIII e o início do XX. Suas fachadas formam, de certa forma, uma bitácora arquitetônica.

Caminhar por suas ruas é, além disso, imaginar os acalorados debates literários e políticos de outrora. Nestas residências passaram longas temporadas alguns próceres das letras, como o poeta chileno e vencedor do Nobel Pablo Neruda. A pequena vila lhe proporcionou a inspiração para escrever célebres poemas de sua maturidade, como a “Ode ao pedreiro tranquilo” e a “Ode às tormentas de Córdoba”. Além disso, o poeta andaluz Rafael Alberti, perseguido na Espanha pelo franquismo, encontrou abrigo e paz nessas terras entre 1939 e 1942, acompanhado de sua esposa María Teresa León. A lembrança dele se mantém de forma sustentável: um vizinho quis erguer um monumento em sua homenagem e Alberti preferiu que simplesmente plantassem uma árvore em sua memória. Trata-se de uma azinheira, que permanece erguida na praça San Martín e compartilha sua sombra entre vizinhos e visitantes.

Na praça central do vilarejo, em frente à igreja Nossa Senhora do Rosario e ao lado do museu dedicado ao pintor local Octavio Pinto (nascido em 1890), encontra-se o encontro mais inesperado deste recanto remoto do país. As esculturas de Neruda, Alberti e o próprio Pinto permanecem sentadas para a eternidade em um banco, mantendo uma conversa silenciosa que os visitantes podem imaginar. A efervescência intelectual da pequena vila também deixou sua marca em uma edificação singular: o Kremlin, a nobre residência de 1845 que pertenceu a Rodolfo Aráoz Alfaro, secretário-geral do Partido Comunista para a América Latina na metade do século passado. Personalidades da ciência e da política de então passaram por sua porta, entre elas Pablo Neruda, é claro. Não muito longe, vale também conhecer a imponente casa da rua La Paz, pertencente a Deodoro Roca, o ideólogo da Reforma Universitária de 1918.

Para quem busca descanso e turismo ativo, os intensos verões da vila oferecem um oásis natural com balneários, trilhas, cachoeiras, o encontro de antigos morteros dos aborígenes comechingones e caminhadas até a imponente cruz de ferro de sete metros no cerro Totoral.

Museu a céu aberto

A menos de 50 quilômetros, sempre em direção ao norte da província e das Salinas Grandes, chega-se a outra página do grande livro da história argentina. Trata-se de Villa Tulumba, agraciada pela ONU Turismo como uma das melhores vilarias turísticas do mundo. Este autêntico “museu a céu aberto” ostenta mais de 400 anos de rica história. Las Cuatro Esquinas é um verdadeiro corredor para o passado.

Nesse cruzamento, o tempo parece ter parado por completo e as ruas de pedras, os postes de iluminação da época e as fachadas de adobe das casas permanecem preservadas. A pouca distância, o conjunto religioso é outra passagem nos alcances do tempo: contrasta a monumental Igreja Nossa Senhora do Rosario (erguida em 1882) com as ruínas de uma antiga capela de 1700. Retornando pouco a pouco ao século XXI após essas imersões no passado, a visita a Tulumba pode se estender com uma degustação de confeitos e da gastronomia típica do norte de Córdoba nas pulperias e armazéns de campo, ou com um passeio de bicicleta e uma caminhada até a Virgem do Cerro e às místicas cavernas de Salamanca.

Seguindo para o norte, a apenas 20 quilômetros de San Miguel de Tucumán, está San Isidro de Lules. Esta cidade leva a outro momento e a outro capítulo da história, para um encontro com a Companhia de Jesus. Foi ali que os jesuítas cultivaram pela primeira vez a cana-de-açúcar e onde funcionou a primeira escola pública do país. A maior atração histórica local são as Ruínas de San José de Lules, declaradas Monumento Histórico Nacional e datadas do século XVII. Além dos vestígios do antigo templo, ainda é possível ver partes do claustro missionário.

Após a visita, pode-se realizar uma incursão pela Quebrada de Lules, um estreito vale cercado por serras e vegetação subtropical, ideal para caminhadas, localizado a apenas três quilômetros do centro.

A província vizinha de Santiago del Estero oferece outra etapa nessa viagem da memória, chegando às raízes mais profundas do acervo argentino em Villa Atamisqui, localizada a 121 quilômetros da capital provincial, às margens direita do rio Dulce. O nome é um reflexo poético de sua geografia, derivado do vocábulo quíchua ata (árvore ou terra) e misqui (dulce). É uma das povoações mais antigas do território, com registros anteriores à fundação oficial em 1543, e destaca-se por ser o bastião da língua quíchua santiagueña, um dialeto do quechua, importado por habitantes que acompanharam os primeiros colonos espanhóis nessas terras.

Além de história e linguística, a visita aproxima-se da produção artesanal de lã e algodão, com peças feitas pelas tecelãs atamisquenas. Suas mãos perpetuam gestos milenares, que atravessaram gerações, mas também culturas. Além disso, o povo respira música em cada esquina. É a cuna do famoso Leo Dan e sede da Festa Provincial da Vidala (em fevereiro) e da Festa das Sachaguitarras Atamisqueñas (em julho), um tributo ao lembrado luthier local Elpidio Herrera.

A vila dos Cinco Nomes

Este roteiro, que não figura nos circuitos oficiais, mas sim nos imprevistos cruzamentos de caminhos, poderia tomar muitas outras direções. Mas, neste caso, leva até Salta, terra em que se lembram muitas façanhas épicas. No coração dos Vales Calchaquíes está San Carlos, o vilarejo mais antigo da província, situado na emblemática Ruta Nacional 40, a apenas 20 quilômetros ao norte de Cafayate.

Reconhecido como um dos lugares mágicos de Salta graças à sua fisionomia colonial de telhados de cana e barro, este recanto esconde uma história de bravura sem igual. É a “Vila dos Cinco Nomes”. Entre 1551 e 1641, a tenaz resistência dos aborígenes diaguitas calchaquíes diante da conquista espanhola provocou a destruição total de quatro tentativas de fundação neste local estratégico: El Barco II, Córdoba del Calchaquí, San Clemente de la Nueva Sevilla e Nuestra Señora de la Guadalupe. Somente no século XVII, graças a uma missão jesuíta, foi possível estabelecer um assentamento definitivo.

Como curiosidade de seu período de esplendor, a vila teve tanta relevância política e econômica que chegou a disputar a capitalidade provincial, perdendo para a cidade de Salta por apenas um voto. Hoje, o viajante pode maravilhar-se com a monumental Igreja San Carlos Borromeo (1801, o maior templo católico dos vales) e o Museu Jallpha Calchaquí, para depois caminhar pelo Caminho dos Artesãos, observando técnicas ancestrais de tecelagem e cerâmica, e encerrar o dia degustando vinhos e empanadas diante da praça principal arborizada.

No sudeste da província, deixando os vales áridos para trás e adentrando a exuberante floresta montana de transição, o passeio termina em San José de Metán. Conhecida como a Cidade da Mel, essa capital departamental ergue-se sobre a Rodovia Nacional 9/34, conciliando o imponente verde das yungas com um profundo e patriótico legado da época da independência. A cerca de 15 quilômetros ao sul da cidade repousa um autêntico altar da pátria, a Posta de Yatasto. Esta antiga fazenda colonial de adobe e telhados de telha do histórico Caminho Real foi declarada Monumento Histórico Nacional e foi onde se encontraram os generais de San Martín e Belgrano, além de ter sido onde o criador da bandeira assumiu o comando do Exército do Norte em 1812.

A riqueza patrimonial de Metán também se manifesta em seu núcleo fundacional através da Igreja São José, célebre por seu design arquitetônico requintado. Em frente à praça central, a devoção popular encontra outro lar, com a Igreja Senhor do Milagre, epicentro das tradições religiosas mais enraizadas da comunidade. Além disso, o “viajante da história” não pode deixar de percorrer o Paseo da Estação, onde uma imponente locomotiva antiga presta homenagem à tão lembrada era de ouro do trem no norte argentino.

Ao contrário de outros cantos salteños, a selva convida a desafiar os 3.370 metros de altitude do Cerro Crestón, para descobrir vistas panorâmicas incomparáveis das Serras Subandinas. Também é possível acampar, pescar ou empreender caminhadas às margens dos trechos próximos do rio Juramento, ou simplesmente passar um dia sereno de lazer nas Juntas de Balderrama, um balneário natural aos pés da serra.

Por fim, a imersão na identidade local metanense não está completa sem uma visita ao Museu do Gaúcho, um espaço dedicado a preservar as tradições criollas, as vestimentas típicas e o papel crucial das milícias gaúchas na defesa da fronteira norte. Esse orgulho de suas próprias raízes atinge seu auge a cada ano durante o Festimiel, um evento cultural que celebra a identidade produtiva da região.

Dados úteis

Villa del Totoral

Museu Octavio Pinto: abre de terça a sexta, das 8h às 12h e das 15h às 19h. Sábados, domingos e feriados, das 10h às 13h e das 16h às 19h. Recomenda-se comer em comedores e armazéns de campo para experimentar pratos de carne assada no forno e pães caseiros.

Villa Tulumba

Incluir no roteiro o Centro de Interpretação do Caminho Real, aberto nos fins de semana das 10h às 14h e das 15h às 19h. Há pouca oferta de hospedagem. Mais opções de preços e oferta em Deán Funes, Jesús María ou Villa del Totoral.

San Isidro de Lules

As Ruínas Jesuíticas de San José de Lules abrem todos os dias das 8h às 13h; a entrada é gratuita. O melhor é montar base em San Miguel de Tucumán para fazer uma escapada de um dia a San Isidro.

Villa Atamisqui

Não deixar de incluir alguma visita a um tear durante a estadia, bem como encontros com artesãs e músicos locais. A Festa das Sachaguitarras Atamisqueñas neste ano ocorre no fim de semana de 19 e 20 de julho.

San Carlos

Incluir o Museu Jallpha Calchaquí e o Caminho dos Artesãos na visita. Provar os vinhos de altitude da região e as empanadas salteñas das cozinheiras locais.

San José de Metán

Posta de Yatasto: abre de terça a sexta, das 9h às 17h, aos sábados das 14h às 18h e aos domingos das 10h às 14h. A entrada é livre e gratuita. Visitas guiadas gerais de terça a sexta às 12h e às 15h.

Augusto Almeida

Sou jornalista e apaixonado por entender as histórias por trás dos acontecimentos. No Jornal O Diário, acompanho as principais notícias do Brasil e do mundo, com atenção especial aos temas que ganham destaque, geram debate e ajudam a explicar as mudanças do nosso dia a dia.