O episódio ocorrido em um voo da Flydubai que partiu de Dubai com destino a Israel e terminou com um pouso de emergência na Arábia Saudita abriu questões sobre os mecanismos de proteção da cabine de comando. No LN+, o piloto Carlos Rinzelli explicou como essas medidas funcionam e apontou que a peculiaridade do caso foi que o conflito teria se originado dentro do espaço que os sistemas buscam proteger.
Conforme ele indicou, as barreiras de segurança foram reforçadas após os ataques às Torres Gêmeas para impedir que uma pessoa situada na cabine de passageiros pudesse acessar os comandos. “O que nunca se pensou é que o problema iria estar na cabine de comando”, afirmou ao analisar as informações disponíveis sobre o voo.
O especialista também detalhou o significado dos sinais que são transmitidos a terra e destacou a diferença entre dois códigos: o 7700, que indica uma emergência, e o 7500, que avisa sobre uma interferência ilícita.
A porta blindada e as chaves de acesso
Em sua participação no LN+, Rinzelli explicou que a separação entre os passageiros e quem comanda a aeronave constitui uma das principais barreiras de proteção. Para isso, a cabine de comando possui uma porta blindada e um sistema de acesso restrito.
“Você tem uma porta blindada com um código de segurança que é conhecido por duas pessoas: o comandante e a chefe de cabine”, descreveu. Segundo sua explicação, esse mecanismo permite administrar o ingresso e evitar que uma pessoa estranha acesse aos controles.
A dificuldade, mostrou, aparece quando a ameaça está do outro lado dessa barreira. “A aviação tem se preparado para impedir que a interferência ilícita, aquele passageiro que possa querer causar um problema em um voo, passe da cabine de passageiros para a cabine de comando”, afirmou.
Em sua reconstrução do episódio, Rinzelli considerou que os gritos vindos da cabine poderiam ter motivado a entrada da chefe de cabine.
“Os tripulantes da cabine devem ter ouvido esse barulheira, que também não é normal, e aí entraram e se depararam com esse cenário”, afirmou. Para o piloto, a intervenção teria permitido frear o conflito e recuperar o controle da situação.
O que significa o código 7500
Rinzelli dedicou parte de sua explicação ao transponder, o instrumento que permite transmitir informações aos controladores de tráfego aéreo sem necessidade de comunicação por voz.
Segundo relatou, durante o episódio, inicialmente teria sido acionado o código 7700, que informa que a aeronave atravessa uma emergência. Em seguida, o sinal teria mudado para o 7500, correspondente a uma interferência ilícita.
Como exemplo, mencionou que um comandante pode avisar sobre um passageiro que provoca um incidente, informar que se desviará para outro aeroporto e solicitar a presença da polícia aeronáutica ao pousar. Nesse cenário, os controladores recebem tanto o sinal quanto uma explicação.
Por outro lado, conforme indicou, se se ativa o 7500 e não houver comunicação por voz, o controle interpreta que poderia tratar-se de um sequestro e que os pilotos não podem falar. Rinzelli associou essa leitura à saída de aeronaves militares de interceptação durante o episódio.
O especialista esclareceu que os códigos são destinados aos que trabalham em terra e não constituem um aviso aos passageiros. Também apontou que sua ativação requer operar um instrumento, por meio de teclas ou de um botão giratório, e que não são acionados por uma ordem de voz.
A palavra acordada antes de decolar
Além das chaves de acesso, Rinzelli contou que, na prática, ele concorda uma palavra com a chefe de cabine durante a reunião pré-voo. Sua função é alertar sobre uma ameaça sem explicitar diante de quem possa estar pressionando.
“Eu passo para a chefe de cabine o código de abertura da porta e, além disso, combinamos uma palavra secreta entre os dois”, relatou. Aclarou que essa palavra muda e que permite alertar o comandante sobre um problema do lado da cabine de passageiros.
Para Rinzelli, essa tarefa faz parte da responsabilidade de quem está ao comando: “Você, como piloto, além de voar o avião, precisa administrar as emoções”.