Augusto Cury, candidato à presidência do Brasil: as portas estão fechadas tanto para Lula quanto para Flávio Bolsonaro

30 de setembro de 2026

BRASÍLIA.– Com mais de 40 milhões de livros vendidos no Brasil e traduzido para dezenas de idiomas, o médico psiquiatra Augusto Cury tornou-se a figura disruptiva que busca trilhar espaço numa corrida eleitoral que permanece firme em seu choque binário.

Lançada ao cenário pelo partido Avante, sua candidatura teve um crescimento vertiginoso após o primeiro debate televisivo que o fez alcançar dois dígitos nas pesquisas, embora as últimas sondagens indiquem um esfriamento: a Quaest o posiciona hoje em torno de 6%, consolidado em um único terceiro lugar, porém longe do presidente Lula da Silva e do senador Flávio Bolsonaro.

Cury atribui esse freio não ao desgaste de suas propostas, mas a um “ataque à democracia” orquestrado por meio do recorte do alcance de suas redes sociais, manobra que denunciou à Justiça Eleitoral. Convencido de que personifica a única via de escape à polarização, o candidato antecipa que permanecerá neutro se ambos os líderes aceitarem ir a um segundo turno.

Entretanto, numa disputa que promete definirse voto a voto, esse caudal de eleitores moderados e desiludidos que o acompanha hoje ameaça atuar como árbitro decisivo para dirimir a presidência do gigante sul-americano.

“Nunca encontrei um ambiente tão tóxico quanto a política. Roda em torno da psicose e da esquizofrenia”, diagnostica em uma entrevista exclusiva à LA NACIÓN.

Com tom pausado, porém cortante, propõe uma reforma constitucional para instaurar o semipresidencialismo, impor limites rígidos aos juízes do STF no meio do escândalo do caso Banco Master e promete reconstruir de imediato os laços bilaterais com o governo de Javier Milei.

–Há poucos meses sua candidatura era quase testimonial, chegou a marcar dois dígitos e hoje disputa o terceiro lugar sozinho. Entendeu algo que o restante dos candidatos não soube interpretar?

–Falo com convicção sobre a pacificação. Nos enganaram ao dizer que estávamos em dois barcos: a direita e a esquerda. Há apenas um barco, que se chama sociedade brasileira. Mais de 90% das urgências não têm cor ideológica. Que uma mulher seja assassinada a cada cinco ou seis horas por sua parceira ou familiar não é bandeira de esquerda ou de direita, é uma diretriz elementar de humanidade. Que tenhamos 6,7 milhões de jovens que não estudam nem trabalham, ou professores esgotados pela intoxicação digital dos alunos, também não pertence a nenhum partido. Esse radicalismo sufoca o Brasil, sufoca a Argentina e boa parte do mundo. Muitas pessoas não sabiam que eu era concorrente porque os algoritmos mal entregam conteúdo a 2% de seus próprios seguidores. Quando participei do debate, o país descobriu que não amo o poder e que, para mim, o pior é a omissão dos bons.

–Você denunciou um freio deliberado ao seu crescimento nas pesquisas. Suspeita de uma conspiração?

–Passei de 2% para mais de 11% ou 12% em duas semanas após o debate. Fui a pessoa que mais ganhou seguidores no mundo no fim de agosto. Mas depois o algoritmo reduziu drasticamente a entrega. Apresentamos uma ação ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e ao Ministério Público, exigindo uma auditoria independente. Não sei se foi culpa dos adversários ou das grandes plataformas, mas não existe mais livre-arbítrio nas redes: induzem o usuário a polarizar porque a agressividade coloca o cérebro em estado de alerta e isso eleva as métricas. É algo obscuro, por trás dos bastidores, que alimenta a crispação.

–Se o Brasil fosse o seu paciente, qual seria o diagnóstico e qual tratamento indicaria?

–Seu partido, Avante, tem presença parlamentar mínima. No Brasil, o Centrão costuma exigir cargos e controlar orçamentos milionários em troca de governabilidade. Como pretende governar sem ser refém disso?

–O Congresso tem peso determinante; de fato, já vivemos num parlamentarismo informal, ainda que não esteja na Constituição. Mas vou usar o Centrão, não serei usado por eles. Recentemente me encontrei com grandes empresários que elogiaram meu projeto, mas insinuaram sugerir nomes de ministros. Bati a mesa: disse que não aceitaria nem um real e que jamais transformaria a presidência num vitrine de negócios nem de ministérios. Sou pacífico, mas não passivo, e sei liderar com resultados.

–O STF enfrenta severas contestações, amplificadas agora pelo escândalo do Banco Master, com mensagens cruzadas entre magistrados, a cúpula judicial e o banqueiro Daniel Vorcaro. Como recuperar a credibilidade institucional?

–Os juízes do STF, assim como os militares, devem ser os alicerces da república: essenciais, porém discretos, intervindo apenas quando a democracia corre perigo. Hoje o STF sofre de um desequilíbrio e de uma espetacularização nociva. É preciso investigar a fundo a promiscuidade com o Banco Master e Vorcaro, caia quem cair. Se cometeram crimes, devem ser condenados. Proporei acabar com os mandatos vitalícios e fixar mandatos de oito anos sem reeleição para os membros da Corte.

–Em relação aos condenados pelo ataque às sedes dos três poderes em 8 de janeiro de 2023, avaliaria conceder uma anistia a Jair Bolsonaro?

–Não vou definir isso na campanha para especular eleitoralmente, seria demagogia e aprofundaria o ódio. Na minha primeira semana convocarei juristas de alto nível para estudar os casos em detalhe. O que afirmo é que houve condenações com desproporções cruéis. Uma pessoa que escreveu uma frase em uma estátua não pode receber penas maiores que as de um homicida ou de um estuprador.

–Em agosto, após a visita de Javier Milei ao Brasil, a chancelaria de Lula rebaixou a relação bilateral ao nível de encarregados de negócios. Qual será a sua posição com a Argentina?

–Lula cometeu um erro dramático. A Argentina é mais que um país irmão; é um parceiro estratégico indispensável. No primeiro dia eu enviaria novamente nosso embaixador a Buenos Aires e construiria com Milei a melhor relação possível. É verdade que Milei, às vezes, exagera as tintas. Pode vir a apoiar Flávio Bolsonaro, mas desqualificar as instituições locais gera atritos desnecessários. Ainda assim, Milei é um homem culto, formado pela Escola Austriaca, e de minha parte terá o máximo respeito.

–De confirmarse um balotaje entre Lula e Flávio, para onde você se inclinaria?

–Confiamos em chegar à segunda volta. As portas para Lula estão completamente fechadas. O modelo econômico dele está esgotado e mantém os pobres na pobreza por meio de uma espécie de síndrome de Stockholm coletiva. E com Flávio as coisas também se encerraram definitivamente: as suspeitas em torno do Banco Master e do financiamento de projetos cinematográficos evidenciam uma promiscuidade inaceitável. Não vejo qualquer possibilidade de apoiar Flávio. Nenhum dos dois sabe o que é arriscar capital ou fundar uma empresa. Se eu perder, não perco eu. O país perde a oportunidade de ter uma voz de pacificação.

Augusto Almeida

Sou jornalista e apaixonado por entender as histórias por trás dos acontecimentos. No Jornal O Diário, acompanho as principais notícias do Brasil e do mundo, com atenção especial aos temas que ganham destaque, geram debate e ajudam a explicar as mudanças do nosso dia a dia.