Patagônia Selvagem: Em Busca de Pumas na Estepe Inóspita de Santa Cruz

4 de outubro de 2026

Entrar na Patagônia no inverno é um grande desafio, ainda mais se o objetivo da viagem é avistar pumas na estepe. Para alcançar o encontro, é preciso superar quatro grandes obstáculos: a paciência, o extenso território, o poder de camuflagem e a personalidade solitária do felino.

A viagem começa na cidade Perito Moreno, no departamento de Lago Buenos Aires, Santa Cruz. A vila fica no cruzamento da rodovia nacional 40 com a rodovia provincial 43 e recebe esse nome desde 1952, em homenagem ao explorador Francisco Pascasio Moreno. Aqui vive Facundo Nahuel Epul (30), guia especialista em safáris. Nativo destas terras, ele conhece a região como a palma da sua mão e será o responsável por rastrear o felino mais imponente da Patagônia.

Durante o inverno em Perito Moreno, as calçadas estão cobertas de neve, há gelo no asfalto e o frio se faz sentir nas mãos e na respiração. Logo cedo, ainda escuro, o guia nos busca no hotel para iniciar a busca. Durante três dias vamos seguir pela RN 40, no sentido sul, para adentrar zonas vizinhas a campos privados e no Parque Patagônia Argentina, com o objetivo de avistar pumas e boa parte da fauna da província.

Além de pumas, é possível ver guanacos, raposas vermelhas e cinzas, piches patagônicos e zorrino, entre outrosGonzalo Gaviña

Ao deixar a vila, já no veículo, bem aquecidos, Facundo apresenta os riscos e as altas probabilidades de avistar pumas em uma estepe coberta de branco. Também revisa o equipamento que utiliza para o rastreio: telefone via satélite, equipamento Starlink com wifi, rádio VHF, binóculos, correntes para a neve, kit de primeiros socorros e, é claro, o almoço de cada dia.

Dias atrás, a região enfrentou uma grande tempestade que transformou a paisagem em uma cena antártica: onde quer que você olhe há neve. As plantas e os fios são o único contraste visível. No caminho, visualizamos o emblema da região, a Meseta do Lago Buenos Aires, uma grande planície basáltica que se eleva acima de 1000 metros e se estende para o oeste e o sul do lago homônimo.

Seu entorno abriga uma grande biodiversidade dentro do Parque Nacional Patagônia. Enquanto contemplamos a formação, o guia explica: “O relevo ao redor da localidade de Perito Moreno é dominado por mesetas escalonadas, depressões e vales fluviais da estepe patagônica.”

A área é atravessada por cursos d’água como o rio Fénix Grande e depressões esculpidas pela ação de antigas massas de gelo de antigos glaciares”.

Quanto à fauna, além do puma, podemos encontrar guanacos, raposa vermelha e raposa cinza, piche patagônico, zorro, gato do capim, peludo e chinchilón alaranjado. Entre as 120 espécies de aves registradas destacam-se: macá tobiano,-condor andino, choique (nandu péqueno), pato dos riachos, cauquenes e flamingos. Em relação à flora, no inverno santacruceño, as flores desaparecem pelo frio extremo e pela neve, mas é possível ver arbustos perenes e plantas lenhosas que mantêm a estrutura e a cor verde-escura frente à paisagem branca.

Técnicas de rastreamento

O puma é um dos felinos mais esquivos do mundo. Encontrá-lo requer paciência, conhecimento do território e boas técnicas de rastreamento. O guia, ciente disso, segue os sinais que podem nos levar ao sucesso da observação. Logo após a partida, paramos à beira da estrada para observar a primeira pista: a inquietação da fauna local. Se os guanacos e choiques estiverem alterados, olham fixamente para um lado específico ou fogem em manada sem motivo aparente.

Seguindo os passos de Facundo, identificamos a segunda pista: pegadas na neve. A pegada do puma é arredondada, com a almofada em formato de pentágono e sem marcas de unhas, pois ele as retrai. A pata dianteira é maior que a traseira. Enquanto reconstituímos a cena, detectamos a terceira pista, o vôo de aves necrófagas. A presença constante de aves como caranchos ou cóndores descendo para o mesmo ponto na estepe costuma indicar um posto de vigia ou uma presa recente do puma.

La inmensidad de la estapa santacruceña vestida de blanco
La inmensidad de la estapa santacruceña vestida de blancoGonzalo Gaviña

Junto a ela, encontra-se a quinta e mais contundente pista: restos de presas. Encontrar guanacos ou lebres parcialmente devorados e cobertos com terra, neve ou vegetação indica que o predador está por perto ou voltará para a sua alimentação. Além de todas as pistas, o puma não se mostra, mas sabemos que está por perto.

Ao retornar ao veículo, com os pés molhados pela neve que chega aos joelhos, o guia, fundador da Safari Patagônia Argentina, comenta enquanto inicia a marcha: “Outra pista clara é a migração dos guanacos, já que no inverno descem das regiões altas para os vales e canyons em busca de alimento. O puma segue suas presas principais para essas áreas mais baixas”. A expectativa permanece intacta, então seguimos pela RN 40.

Vestir ropa de camuflaje favorece los avistamientos
Vestir roupas de camuflagem favorece os avistamentosGonzalo Gaviña

O encontro

O processo de avistar fauna selvagem exige paciência, constância e disciplina. Com essas premissas avançamos para uma nova seção do roteiro, O Cânion Caracoles. Por um tempo deixamos a Rota 40 e seguimos pela RP 101, que está coberta de neve e leva até a famosa Caverna das Mãos. Já na área do cânion, posicionamo-nos sobre o cantil de uma parede para tomar posição e realizar a varredura com binóculos.

No céu, os cóndores anunciam o possível encontro; dentro do cânion, três flamingos descansam na pouca água salobra. De repente, o guia detecta a presença de um puma e seu filhote. É muito importante manter o silêncio e controlar a alegria. Por fim, os encontramos com a lente repousando dentro de uma pequena caverna.

Ao aproximar com o zoom da câmera, podemos ver como eles nos observam. Facundo aproveita para nos ensinar. Em relação ao tamanho e peso, os machos adultos pesam entre 55/80 kg e as fêmeas entre 30/60 kg. Ao contrário dos grandes felinos do gênero Panthera, o puma não ruge; ele se comunica por meio de ronrons, rosnados, assobios e chilidos. Possui uma grande capacidade de salto, atingindo até 5 m na vertical e mais de 10 m na horizontal.

Es un animal solitario, muy territorial y de hábitos nocturnos
É um animal solitário, muito territorial e com hábitos principalmente crepusculares e noturnosGonzalo Gaviña

É um animal solitário, muito territorial e com hábitos principalmente crepusculares e noturnos. É um carnívoro estrito e oportunista. “Na região patagônica e andina, alimenta-se principalmente de guanacos, além de choiques, lebres e outros mamíferos menores ou rebanho, dependendo da região. Seu papel na Patagônia é vital, pois atua como um predador de topo essencial para regular as populações de herbívoros e manter o equilíbrio dos ecossistemas”, acrescenta.

Além de alcançar o objetivo e passar uma tarde junto aos dois felinos, o mais bonito e divertido foi o processo de busca. Eles nos mostraram a beleza da paisagem invernal e a fauna que acompanha esse cenário áspero, inóspito, selvagem e romântico.

Guanacos, el alimento preferido de los pumas
Guanacos, o alimento preferido dos pumasGonzalo Gaviña

Perito Moreno não é apenas uma base para avistar pumas, mas também uma porta turística de entrada para várias atrações da região. Entre elas está a vila de Los Antiguos, Capital Nacional da Cereja. Graças a um microclima único no vale, é o centro de uma grande produção de frutas finas, especialmente cerejas e morangos.

A poucos quilômetros, em território chileno, encontram-se as Catedrais de Mármore, formações minerais de carbonato de cálcio esculpidas pela água na margem do lago General Carrera.

O sul conecta-se ao Parque Provincial Cueva de las Manos e Cañadón del Río Pinturas, onde há circuitos de trekking com vistas panorâmicas das paredes rochosas e da estepe. Também se encontra a Caverna das Mãos, um sítio arqueológico com pinturas rupestres de mais de 9.000 anos.

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Augusto Almeida

Sou jornalista e apaixonado por entender as histórias por trás dos acontecimentos. No Jornal O Diário, acompanho as principais notícias do Brasil e do mundo, com atenção especial aos temas que ganham destaque, geram debate e ajudam a explicar as mudanças do nosso dia a dia.