Flávio Bolsonaro se impôs nas eleições e parte com vantagem sobre Lula no segundo turno

7 de outubro de 2026

SÃO PAULO (Enviado especial).– O candidato do Partido Liberal (PL), Flávio Bolsonaro, surpreendeu neste domingo ao vencer as eleições com 47,11% dos votos, à frente do presidente do Brasil e candidato do Partido dos Trabalhadores (PT), Luiz Inácio Lula da Silva, que obteve 45,07%, em eleições muito disputadas que confirmam um perfil cada vez mais conservador do gigante sul-americano e que serão definidas numa segunda volta no dia 25 de outubro.

Em eleições que decorreram sob a atenta observação de Washington e com a possibilidade de consolidar de vez a guinada ideológica que atravessa a região, mais de 158 milhões de brasileiros estiveram aptos para votar neste domingo.

Com uma abstenção que rondou 21%, em linha com as primeiras voltas de 2018 e 2022, os candidatos agora se concentrarão em convencer quem não votou, assim como o pequeno percentual de eleitores que optaram por acompanhar os demais candidatos presidenciais -cerca de 8%- em urnas fortemente polarizadas e amplamente marcadas pelo desencanto.

Apesar de o candidato do PL ter começado a contagem com um forte impulso que lhe permitiu sonhar com a vitória na primeira volta, o ingresso dos votos do Nordeste, onde Lula é mais forte, acabou por confirmar uma segunda volta. Num cenário altamente volátil, a grande maioria das pesquisas voltou a falhar. Embora todas antecipassem um balotagem, apenas uma agência, a Gerp, havia colocado Bolsonaro em primeiro lugar.

Como em 2022, a balotagem enfrentará o histórico líder de 80 anos da esquerda brasileira, sete vezes candidato à presidência e três vezes presidente, contra Bolsonaro. Desta vez, será contra o senador indicado por seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro, condenado por tentativa de golpe de Estado.

A sorte de Lula parece complicada. Desde o retorno da democracia, nenhum candidato que terminou em segundo na primeira rodada conseguiu reverter na balotagem. Além disso, a maioria dos candidatos presidenciais menores é de tendência conservadora, à exceção de Augusto Cury (Avante), que obteve 2,9%. Atrás ficaram Renan Santos (Missão), com 2,25%, Ronaldo Caiado (PSD), com 2,20%, enquanto o restante teve menos de 0,3% dos votos.

“O resultado às vezes é inesperado; confesso que estava convencido de que venceria na primeira volta”, admitiu Lula em sua primeira reação, ao reconhecer o golpe que recebeu nas urnas e o caminho difícil que percorrerá até o dia 25.

O mandatário tentou, no entanto, mostrar-se competitivo para a balotagem. “Amanhã começaremos uma nova campanha”, afirmou Lula. “Sou muito bom na etapa de eliminação direta. Veremos quem tem o melhor plano”.

“Estou muito contente com o resultado”, declarou, por sua vez, Bolsonaro diante dos jornalistas que o aguardavam em sua residência. “O Brasil quer mudança; essa é a leitura do que aconteceu neste domingo”, acrescentou o candidato.

Se Bolsonaro vencer novamente na balotagem, a América Latina confirmaria uma guinada à direita que, no último ano, contou com triunfos na Colômbia, no Peru e em Honduras, todos com o patrocínio direto ou indireto da Casa Branca de Donald Trump.

Também parte da onda da direita regional, o presidente argentino, Javier Milei, comemorou o desempenho de seu aliado regional. “Parabéns, querido amigo Flávio Bolsonaro, por esta eleição histórica diante do comunista Lula. O continente americano pertence aos cidadãos que desejam viver em liberdade”, escreveu o mandatário no X.

Os Bolsonaro também receberam boas notícias nas outras eleições deste domingo, nas quais também estavam em jogo 27 governadores, as 513 cadeiras da Câmara dos Deputados e 54 dos 81 assentos do Senado.

O PL venceu 10 dos 19 governos estaduais definidos na primeira rodada, contra três do PT. Um dos mais marcantes foi o do ex-juiz Sérgio Moro, que condenou Lula na Lava Jato, no Paraná.

As propostas

A polarização que se viu nas urnas também se reflete na distância entre as propostas dos dois principais candidatos.

Lula propõe um Estado mais ativo, com maior investimento público e ampliação das políticas sociais, de emprego, educação e saúde. Também sugere terminar com a jornada de trabalho 6×1, manter os aumentos reais do salário mínimo e aumentar a carga tributária sobre os setores de maiores renda. Em segurança, propõe maior participação do governo federal, com mais inteligência e coordenação entre as forças e uma estratégia contra o financiamento do crime organizado. Também promete alcançar desmatamento zero até 2030.

Flávio Bolsonaro, por sua vez, propõe reduzir o tamanho do Estado, os gastos públicos e os impostos, inspirado no governo de Javier Milei. Seu programa prevê eliminar pelo menos dez ministérios e descentralizar o poder, enquanto na segurança propõe declarar o Primeiro Comando da Capital (PCC), o Comando Vermelho (CV) e outras organizações criminosas como grupos narcoterroristas, fortalecendo as operações para recuperar territórios controlados pelo crime.

O candidato do PL também propõe reduzir de 18 para 16 anos a idade de responsabilidade penal para determinados crimes e construir cinco prisões federais de máxima segurança no modelo de El Salvador. Sua candidatura também está atravessada pela situação de seu pai. Flávio defende o indulto de Jair Bolsonaro e propõe limitar as atribuições do Supremo Tribunal Federal (STF), com o qual mantém um enfrentamento desde o início da campanha.

As propostas dos candidatos respondem às principais preocupações dos eleitores. Em uma pesquisa da Quaest do mês passado, a violência foi mencionada por 31% dos entrevistados como a principal preocupação dos brasileiros. Em seguida, a economia, com 16%, e a saúde e a corrupção, ambos com 14%.

Os perfis dos eleitores

As diferenças regionais continuam sendo uma das principais chaves da divisão política do Brasil. O Nordeste mantém uma base eleitoral forte para Lula, enquanto o Sul continua sendo um dos principais redutos do bolsonarismo. Mas a lacuna também atravessa a renda, a educação e a religião.

Enquanto Lula tem vantagem entre os setores de menor renda e os católicos, Flávio se impõe entre os setores de maior renda e educação e atinge 50% entre os evangélicos.

A transformação econômica também modificou o mapa político. O antigo cinturão industrial do ABC paulista, onde Lula construiu sua trajetória como líder sindical, deixou de ser um reduto automático do PT. Parte dos antigos trabalhadores industriais voltou-se para posições mais conservadoras, enquanto as novas gerações mostram maior distância do partido e uma maior inclinação para uma agenda de menor intervenção estatal.

O papel dos Estados Unidos

A eleição brasileira também se tornou um capítulo da disputa pela influência do presidente norte-americano, Donald Trump, na América Latina. A relação com Washington atravessou a campanha, desde tarifas impostas pela Casa Branca e sanções contra funcionários brasileiros até o apoio de Trump a Jair Bolsonaro e seu estreitamento com seu filho Flávio.

Na quinta-feira, Trump classificou as eleições como “muito importantes” para os Estados Unidos e no dia seguinte disse que acompanharia o processo de perto. A tensão voltou a ficar evidente nesta semana, quando Washington fechou temporariamente sua embaixada em Brasília e seus consulados devido a uma suposta ameaça de bomba que posteriormente não foi confirmada.

A campanha de Lula pediu investigar o episódio como uma possível interferência externa e apontou o secretário de Estado, Marco Rubio. O governo brasileiro também pediu investigar se o Departamento de Estado destinou um milhão de dólares a organizações que enfrentam o STF.

Lula buscou aproveitar a pressão de Washington para levantar uma questão de soberania. “O Brasil não cabe no pátio de ninguém”, disse à Assembleia Geral da ONU na semana passada.

Do outro lado, a relação entre o bolsonarismo e Trump se estreitou durante a campanha. O presidente americano recebeu Flávio na Casa Branca em maio e o senador chegou a descrever o Brasil como “o campo de batalha” pelo futuro do hemisfério.

No entanto, uma eventual vitória de Flávio não implicaria necessariamente um alinhamento automático com Washington. A China é o principal parceiro comercial do Brasil e seu peso econômico constitui um contrapeso relevante frente a qualquer mudança abrupta na política externa brasileira.

O resultado, além disso, terá impacto além das fronteiras brasileiras. Nos últimos dois anos, a direita avançou em boa parte da América Latina, com novas forças e governos conservadores em Chile, Bolívia, Colômbia e Peru, enquanto Equador e A Argentina reforçaram essa tendência.

Uma eventual vitória de Flávio Bolsonaro consolidaria essa guinada regional para a direita e provavelmente transformaria o Brasil, por seu peso político e econômico, em um de seus principais motores.

Augusto Almeida

Sou jornalista e apaixonado por entender as histórias por trás dos acontecimentos. No Jornal O Diário, acompanho as principais notícias do Brasil e do mundo, com atenção especial aos temas que ganham destaque, geram debate e ajudam a explicar as mudanças do nosso dia a dia.