Castigada pela insegurança, a maior favela do Rio vota com desespero

9 de outubro de 2026

Cansados da insegurança e da luta para chegar ao fim do mês, os moradores da maior favela do Rio de Janeiro vão às urnas neste domingo sem esperança de que seu voto mude a realidade desta gigantesca comunidade localizada na encosta de uma montanha.

Filas enormes se formaram pelas ruas da Rocinha, uma comunidade com cerca de 100.000 habitantes, para o primeiro turno das eleições entre o presidente de esquerda Luiz Inácio Lula da Silva e o senador de direita Flávio Bolsonaro.

“Os políticos só te procuram em época de eleição. Depois, nem sabem que você existe”, lamenta.

Como muitos moradores da Rocinha, Machado está farto da insegurança provocada pelos grupos armados que dominam a favela, o que desencadeia incursões policiais frequentes e muitas vezes letais em seus becos intrincados.

“Você não está seguro na rua. Nem na sua própria casa você está seguro. Você está em casa e entra uma bala perdida”, comentou.

“A opção que temos”

A insegurança é uma das principais preocupações dos eleitores nestas eleições.

Flávio Bolsonaro tem elogiado as polêmicas políticas de segurança do presidente de El Salvador, Nayib Bukele.

Promete restabelecer o controle estatal sobre as áreas dominadas por grupos criminosos como o Comando Vermelho e o Primeiro Comando da Capital (PCC).

Ele pretende classificá-los como organizações terroristas, depois que o governo do presidente dos EUA, Donald Trump, o fez meses atrás.

Lula também prometeu “recuperar o território” e “asfixiar” a logística das bandas armadas, que sobreviveram a inúmeras ofensivas policiais e mudanças de governo.

Para De Melo, de 27 anos, Lula é um mal menor: “Não é que seja a melhor opção, mas é a que temos”.

O pai de Flávio Bolsonaro, o ex-presidente Jair Bolsonaro -preso por uma tentativa de golpe de Estado-, incentivou durante seu mandato a intervenção policial nos bairros do Brasil assolados pela criminalidade.

“Como pessoa negra, não confio na polícia”, disse De Melo. “Quando entram, invadem as casas e agredem as pessoas”.

A polícia do Brasil matou em média 17 pessoas por dia entre 2019 e 2025, de acordo com números oficiais.

“Deixa a desejar”

Lula é admirado por muitos graças aos programas sociais que tiraram da pobreza milhões de brasileiros em seus dois primeiros mandatos na década de 2000.

Mas a paciência está se esgotando.

Por sua vez, João Batista, um trabalhador do setor tecnológico que votou em Flávio Bolsonaro, disse estar farto dos “preços horríveis” de itens básicos.

“A esquerda já não dá mais”, acrescentou Batista.

Lula apresentou uma série de medidas populares nas últimas semanas da campanha eleitoral, como aumentar os auxílios sociais e proibir as apostas esportivas online, que levaram muitas pessoas à ludopatia e ao endividamento.

“Acho que ele fez muito pela população, mas também deixa a desejar, porque muitas das coisas que prometeu nas eleições passadas não foram cumpridas”, disse Raissa Gonçalves, de 21 anos.

Augusto Almeida

Sou jornalista e apaixonado por entender as histórias por trás dos acontecimentos. No Jornal O Diário, acompanho as principais notícias do Brasil e do mundo, com atenção especial aos temas que ganham destaque, geram debate e ajudam a explicar as mudanças do nosso dia a dia.