Lula x Flávio Bolsonaro: Brasil vota nas eleições mais imprevisíveis, entre a polarização e o desencanto

11 de outubro de 2026

SÃO PABLO.– Em um clima de tranquilidade, mais de 158 milhões de brasileiros aptos a votar se aproximavam neste domingo das urnas em eleições que se anteviam muito acirradas entre o atual mandatário e o candidato do Partido dos Trabalhadores (PT), Luiz Inácio Lula da Silva, que busca seu quarto mandato presidencial – o segundo consecutivo –, e o candidato do Partido Liberal (PL) e filho do ex-presidente condenado Jair Bolsonaro, Flávio Bolsonaro.

Segundo a última pesquisa Datafolha publicada horas antes das eleições no sábado, o presidente mantinha uma leve dianteira com 45% das intenções de voto sobre o senador, que reunia 42%. Com margem menor, a sondagem Quaest publicada minutos depois, mostrava Lula com 46% frente a Flávio Bolsonaro, com 45%. Nenhum dos dois cenários, no entanto, antecipa vitória em primeiro turno, pois nenhum dos candidatos superaria 50% dos votos válidos. O segundo turno está marcado para 25 de outubro.

Os demais candidatos, por sua vez, aparecem bem mais atrás dos dois principais contendentes. Segundo a pesquisa Datafolha, Ronaldo Caiado (PSD) apresenta 4% das intenções de voto, enquanto Renan Santos (Missão) e Augusto Cury (Avante) chegam a 3% cada um. Romeu Zema (Novo), por sua vez, não chega a 1%.

Para além dos números, em eleições acompanhadas de perto por Washington e com a possibilidade de aprofundar o giro à direita na região, ambas as pesquisas retratam um eleitorado profundamente polarizado e preveem uma definição apertada em um dos pleitos mais imprevisíveis desde o retorno da democracia.

“O Brasil precisa de mudança, o Brasil não pode suportar tanto sofrimento”, disse Flávio Bolsonaro à imprensa quando votou pouco depois da abertura das urnas.

Assim votou Flavio Bolsonaro

“Nossas pesquisas internas mostram que já superamos o primeiro turno há muito tempo”, disse Bolsonaro após votar no Rio de Janeiro, seu estado natal, acompanhado pela mãe, Rogéria Bolsonaro, candidata a deputada.

Uma hora depois votou Lula em uma escola de São Bernardo do Campo, nos arredores de São Paulo. “O que está em jogo é o futuro do Brasil”, afirmou o mandatario, cercado por outros candidatos de seu campo.

Assim votou Lula da Silva
Assim votou Lula da Silva

Além de presidente, os brasileiros também escolherão 27 governadores estaduais, 513 deputados e 54 dos 81 senadores, além de representantes estaduais.

As urnas fecharão às 17h e a partir desse momento começa a contagem das urnas eletrônicas.

Preocupações e desencanto

“A segurança é muito complicada aqui, em São Paulo e em todo o Brasil, mas votei no Lula porque é o único que defende os direitos do povo. Eu sou advogada, e ninguém melhor do que ele para defender os servidores públicos”, disse a LA NACION Letícia, de 56 anos, à saída da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo Mackenzie, no bairro de Higienópolis.

Como Letícia, 31% dos brasileiros apontam a violência como sua principal preocupação para estas eleições, segundo uma pesquisa da Quaest do mês passado.

No entanto, o Brasil não se tornou necessariamente mais violento neste último mandato de Lula. Segundo o último relatório do Atlas da Violência, publicado neste ano, o país registrou 42.590 homicídios em 2024, com uma taxa de 20,1 por 100.000 habitantes, o nível mais baixo da série iniciada em 2014.

No entanto, segundo explicou à LA NACION o perito criminalista e especialista em segurança pública José Ricardo Bandeira, a melhoria dos indicadores de violência letal convive com outro fenômeno que explica a preocupação dos brasileiros.

Segundo o especialista, o problema está no avanço de grupos criminosos como o Primeiro Comando da Capital (PCC), originário de São Paulo, e o Comando Vermelho (CV), originado no Rio de Janeiro, que “ampliaram sua presença territorial e suas conexões internacionais e, sobretudo, sua capacidade econômica”.

À violência, segundo a mesma pesquisa Quaest, seguem entre as preocupações dos brasileiros a economia, citada por 16% dos entrevistados, e a saúde e a corrupção, ambas com 14%, temas que também surgem entre os eleitores neste domingo.

“É preciso reduzir os impostos no Brasil. Este país tem carga tributária demais para os negócios e com este governo isso não vai mudar, por isso votei no Bolsonaro”, disse a LA NACION Manuel, de 37 anos.

“Sou médica de um hospital público, e quero continuar sendo, por isso votei no Lula. O maior problema do Brasil é a corrupção, e o Lula não é o melhor para resolver isso, mas é melhor que o outro candidato em todas as áreas, especialmente na saúde”, disse à LA NACION Alice, uma jovem de 27 anos ao sair do mesmo centro de votação.

Seu testemunho reflete uma lógica que atravessa boa parte do eleitorado brasileiro, na qual a decisão de em quem votar não passa tanto pela adesão incondicional a um candidato como pelo rechazo ao seu principal adversário. Em uma disputa dominada por duas figuras que concentram boa parte das preferências e dos rejeitos, o voto negativo também se tornou um fator determinante.

Segundo uma pesquisa Datafolha publicada em setembro, tanto Lula quanto Flávio Bolsonaro são rejeitados por 46% dos entrevistados. Ou seja, quase metade do país não votaria no candidato oposto sob nenhuma circunstância.

“Votei no Bolsonaro para que saiam o Lula e todos esses bandidos do governo, e para que resolvam o STF”, disse à LA NACION Mariana, uma mulher de cerca de 60 anos, referindo-se ao Supremo Tribunal Federal, a instância judicial máxima do país, mergulhado em uma crise profunda.

As disputas judiciais que cercaram a contenda eleitoral, somadas aos confrontos entre os próprios magistrados do STF, alimentaram as críticas da oposição sobre uma suposta ingerência da Justiça na política.

Quais são as propostas de cada candidato?

A polarização que se observa nas ruas também se reflete na distância entre as propostas dos dois principais candidatos.

Lula propõe ampliar as políticas sociais, o investimento público e os programas de emprego, educação e saúde, com a redução das desigualdades como um dos eixos de seu programa. No âmbito trabalhista, propõe acabar com a jornada 6×1 – seis dias de trabalho por um de descanso – e estabelecer uma semana de 40 horas sem redução salarial, além de manter os aumentos reais do salário mínimo.

Na segurança, busca ampliar a participação do governo federal através da criação de um Ministério da Segurança Pública e uma estratégia centrada em inteligência, coordenação entre as forças e combate ao financiamento do crime organizado. No campo ambiental, promete alcançar a deflorestação zero até 2030. Para financiar seu programa, propõe uma maior progressividade tributária e uma carga mais elevada sobre os setores de maiores rendimentos e os capitais no exterior.

Flávio Bolsonaro, por outro lado, propõe reduzir o tamanho do Estado e os gastos públicos. Inspirado no presidente da Argentina, Javier Milei, promete um “corte” que implicaria a eliminação de pelo menos dez ministérios, menos cargos e uma agenda de redução de impostos. Sob o slogan “Mais Brasil e menos Brasília”, também defende descentralizar o poder e reformar o sistema tributário para reduzir a dívida pública.

A segurança ocupa o primeiro lugar no programa do candidato do PL. Sob o lema “Brasil sem medo”, propõe declarar o Primeiro Comando da Capital (PCC), o Comando Vermelho (CV), e outras organizações criminosas como grupos narcoterroristas, assim como fizeram seu aliado, o presidente norte-americano, Donald Trump, e o restante de países latino-americanos que se identificam com o magnata, incluindo a Argentina. Além disso, Flávio pretende bloquear os ativos dos grupos criminosos e reforçar as operações para recuperar territórios sob seu controle.

Também propõe reduzir a idade de responsabilidade penal de 18 para 16 anos para determinados crimes e construir cinco novos centros penitenciários federais de segurança máxima inspirados no modelo de El Salvador.

A candidatura de Flávio também é marcada pela situação jurídica de seu pai. O senador defende o perdão de Jair Bolsonaro e de outros condenados pela trama golpista e pelos ataques de 8 de janeiro de 2023. Também propõe limitar as atribuições do Supremo Tribunal Federal (STF), em linha com suas críticas à Corte.

Os perfis dos eleitores

As diferenças regionais são uma das chaves principais para explicar a divisão política do Brasil. O Nordeste, onde Lula mantém uma forte base eleitoral, contrasta com o Sul, um dos pilares do bolsonarismo.

A divisão também atravessa renda, nível educacional e religião. Lula mantém vantagem entre os setores de menor renda. Entre quem ganha até dois salários mínimos ele obtém 47%, frente aos 27% de Flávio. O senador, por sua vez, tem melhores resultados entre os setores de maior renda e educação. Entre os evangélicos ele atinge 50% das preferências, frente a 22% de Lula, que mantém a vantagem entre os católicos.

“A divisão entre um Nordeste lulista e um Sul bolsonarista continua, mas tem a ver com a disponibilidade de renda e o grau de instrução”, explicou à LA NACION Alberto Pfeifer, coordenador do Grupo de Análise de Estratégia Internacional e Geopolítica (DSI) da Universidade de São Paulo (USP).

A transformação econômica também modificou o mapa político. O antigo cinturão industrial do ABC paulista, onde Lula construiu sua trajetória como líder sindical, deixou de ser um reduto automático do PT. “O antigo cinturão industrial do ABC é hoje composto por ex-sindicalistas aposentados que querem preservar o pequeno patrimônio que possuem: pessoas que se tornaram conservadoras por conveniência, não por convicção; e uma juventude que, assim como na Argentina, quer mais liberdade e menos Estado”, afirmou Pfeifer.

O papel dos Estados Unidos

A eleição brasileira também se tornou um capítulo da disputa pela influência de Trump na América Latina. A relação com Washington atravessou a campanha, desde as tarifas impostas pela Casa Branca a produtos brasileiros e as sanções contra funcionários do país até o apoio político do presidente norte-americano a Jair Bolsonaro e seu estreitamento com seu filho Flávio.

Na quinta-feira, Trump qualificou as eleições brasileiras como “muito importantes” para os Estados Unidos e no dia seguinte disse que acompanharia o processo de perto. A tensão voltou a ficar evidente nesta semana, quando Washington fechou na sexta-feira sua embaixada em Brasília e seus consulados por uma suposta ameaça de bomba que foi investigada pela Polícia Federal sem que houvesse elementos que comprovassem o risco.

A campanha de Lula pediu investigar o episódio como uma possível interferência externa e apontou o secretário de Estado, Marco Rubio. O governo brasileiro também havia pedido investigar se o Departamento de Estado destinou um milhão de dólares a organizações contrárias ao STF.

Lula buscou tirar proveito da pressão de Washington e enquadrá-la como uma questão de soberania. “O Brasil não cabe no quintal de ninguém”, disse diante da Assembleia Geral da ONU na semana passada.

Do outro lado, a ligação entre bolsonarismo e Trump se estreitou durante a campanha. O presidente americano recebeu Flávio na Casa Branca em maio e o senador chegou a definir o Brasil como “o campo de batalha onde o futuro do hemisfério” será disputado. Flávio, no entanto, negou que sua campanha tenha recebido financiamento de uma rede de doadores ligada ao vice-presidente JD Vance.

No entanto, um eventual governo de Flavio não implicaria, necessariamente, alinhamento absoluto com Washington. A China é o principal parceiro comercial do Brasil e seu peso econômico constitui um contrapeso relevante frente a qualquer guinada brusca da política externa brasileira.

Augusto Almeida

Sou jornalista e apaixonado por entender as histórias por trás dos acontecimentos. No Jornal O Diário, acompanho as principais notícias do Brasil e do mundo, com atenção especial aos temas que ganham destaque, geram debate e ajudam a explicar as mudanças do nosso dia a dia.