Quem ganhou o debate entre Lula e Bolsonaro e a estratégia insólita que viralizou

22 de outubro de 2026

SÃO PAULO.– Gestos calculados, insultos, acusações de corrupção e referências a Donald Trump e Javier Milei marcaram o primeiro debate televisivo entre Luiz Inácio Lula da Silva e Flávio Bolsonaro, uma semana antes do segundo turno presidencial no Brasil. Mas por trás dos embates entre o presidente de esquerda e o senador de ultradireita, uma das principais estratégias da noite ficou fora dos discursos: transformar cada reação, careta e provocação em um vídeo viral para as redes sociais.

Flávio Bolsonaro, de 45 anos, havia ensaiado durante toda a semana com sua estrategista de marketing, Duda Lima, e outros integrantes de sua equipe, uma tática destinada a gerar imagens de confronto com Lula, de 80 anos. A ideia era posicionar-se atrás do mandatário enquanto falava à câmera, fazer gestos de desaprovação e manter uma expressão impassível para produzir cenas que depois pudessem ser editadas e circularem nas plataformas digitais.

La chicana de Lula a Flávio Bolsonaro por el voto de los presos

Nessa linha, a estratégia teve sucesso: após o debate, multiplicaram-se os memes do senador “perseguindo” seu rival durante o duelo e até imagens geradas com inteligência artificial mostravam vários personagens em pé atrás de Lula.

A tática ficou particularmente visível quando Lula falou sobre saúde. Depois que Flávio defendeu que o Sistema Único de Saúde (SUS) tivesse os mesmos padrões de atendimento que o Hospital Albert Einstein e mencionou o empresário Claudio Lottenberg como possível ministro da área, o presidente insinuou que a proposta de seu oponente poderia levar à privatização do sistema público. Embora já tivesse encerrado sua intervenção, o senador permaneceu atrás de Lula e moveu o dedo indicador em sinal de discordância.

Lula: "¿Sabían que Bolsonaro va a privatizar la salud?"
Lula: “Vocês sabiam que Bolsonaro vai privatizar a saúde?”

Segundo integrantes da equipe do candidato do Partido Liberal (PL), a intenção era desviar parte da atenção dos argumentos do presidente e concentrá-la nas reações de seu adversário.

Do outro lado, segundo veículos locais, a primeira-dama brasileira, Janja da Silva, recebeu um chamado de atenção da produção do debate para que fizesse silêncio e não interruptasse Bolsonaro.

O senador eleito e ex-procurador da operação Lava Jato, o caso de corrupção pelo qual Lula esteve preso, Deltan Dallagnol, denunciou a situação com um vídeo que gravou nos bastidores. “As regras eram claras: o público não podia se manifestar durante o debate. Mesmo assim, Janja lançou provocações contra Flávio Bolsonaro, simulou espirros e proferiu palavras enquanto ele intervinha”, escreveu junto às imagens.

Um duelo de gestos e insultos

A encenação também teve momentos de tensão fora dos intercâmbios previstos. Em um deles, Lula afastou-se de seu rival para marcar distância com um “miliciano”, em alusão aos supostos vínculos de Flávio com grupos parapoliciales que controlam favelas do Rio de Janeiro. O senador respondeu que era melhor mantê-lo longe porque sua carteira poderia ser roubada e mostrou uma palavra escrita na palma da mão: “Corrupto”.

Bolsonaro: "No traje billetera, para que no puedas robármela"
Bolsonaro: “Não trouxe carteira, para que você não possa roubá-la”

Lula, que busca um quarto mandato não consecutivo, também não poupou adjetivos. Chamou seu adversário de “palhaço”, “mentiroso contumaz” e “malandro”, enquanto Flávio o alertou de que “o Brasil vai te aposentar”.

O senador também se referiu à primeira-dama Rosangela da Silva, conhecida como Janja, para questionar seus gastos, e acusou o governo de usar benefícios sociais com fins eleitorais.

Bolsonaro y Lula intercambian duros golpes por escándalos familiares y Flávio asegura que Brasil va a ‘jubilar’ a Da Silva
Bolsonaro y Lula intercambian duros golpes por escándalos familiares e Flávio afirma que o Brasil vai ‘jubilar’ a Da Silva

As acusações de corrupção ocuparam boa parte do encontro. Lula pediu explicações a Flávio sobre as gestões de Daniel Vorcaro, proprietário do Banco Master, para financiar um filme sobre seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro. O senador contra-atacou com referências às suspeitas que envolvem Fabio Luís Lula da Silva, conhecido como Lulinha, filho do presidente, e a sua relação com a empresária Roberta Luchsinger, mencionada em investigações sobre supostas irregularidades no Instituto Nacional de Seguridade Social (INSS).

Flávio buscou acorralar Lula com uma pergunta sobre a segurança pública e o voto dos presos. “Com você, a criminalidade disparou no Brasil. Além disso, você pode explicar por que 73% dos presos votaram em você?”, lançou o candidato do Partido Liberal (PL). Lula respondeu com ironia e transferiu o desafio para a família Bolsonaro: “Quero que votem 100%, inclusive seu pai. Ele te conhece e sabe que eu sou melhor do que você”, disse, antes de dirigir-se diretamente ao ex-presidente Jair Bolsonaro, que está preso por tentativa de golpe de Estado, para pedir seu voto.

Outro momento que a equipe de Flávio identificou como potencialmente favorável foi uma referência de Lula aos moradores do Rio de Janeiro, a quem chamou de “sem-vergonhas”. Pouco depois, começaram a circular vídeos com esse trecho, na expectativa de que o episódio prejudicasse o presidente em um estado eleitoralmente relevante.

La motosierra de Milei

A política internacional também invadiu o confronto. Lula acusou a família Bolsonaro de estar subordinada aos interesses norte-americanos e questionou a proximidade do senador com Trump. Flávio, por sua vez, negou ter pedido ao presidente norte-americano que tomasse medidas contra o Brasil e censurou Lula por suas relações com governos que classificou como “ditaduras”, entre eles o da Irã.

No terreno econômico, o senador enfatizou o custo de vida e a insegurança, ao mesmo tempo em que alegou que o governante gastou de forma desmedida para obter a reeleição.

Lula respondeu com uma referência ao presidente argentino: perguntou se seu rival teria pegado emprestado a motosserra de Milei para reduzir os gastos públicos e cuestionou as consequências sociais do ajuste na Argentina. Enquanto Bolsonaro evitou responder diretamente sobre a motosserra, Lula posteriormente postou um vídeo nas redes sociais lembrando as menções de seu oponente ao “modelo argentino”.

Lula comparó a un posible gobierno de Bolsonaro con la gestión de Milei en Argentina
Lula comparou a um possível governo de Bolsonaro com a gestão de Milei na Argentina

O clima de confronto estendeu-se às tribunas, onde simpatizantes e assessores de ambos os candidatos trocaram gritos e reproches. Flávio foi vaiado quando interrompeu Lula fora de sua vez, em um debate em que abundaram acusações pessoais e houve escassez de propostas concretas.

Ao final da transmissão, viu-se o candidato de direita dançando e festejando, como se tivesse vencido o debate.

Flavio Bolsonaro entrou dançando no debate presidencial no Brasil
Flávio Bolsonaro entrou dançando no debate presidencial no Brasil

Quem ganhou?

Segundo uma pesquisa realizada pela consultoria Quaest durante o debate, os entrevistados valorizaram Flávio Bolsonaro como vencedor por uma vitória apertada sobre Lula.

Em uma escala de zero a cem, o senador atingiu 82 pontos, frente aos 79 pontos do presidente, segundo a pesquisa citada pelo jornal O Globo. O estudo qualitativo foi conduzido com 30 grupos de eleitores que incluíram votantes de Lula, de Bolsonaro e indecisos.

“Flávio foi percebido como mais seguro, direto e claro, especialmente em questões de segurança pública e tecnologia. Lula teve um desempenho percebido melhor em saúde e pandemia; no entanto, alguns participantes consideraram que suas respostas foram confusas, estavam saturadas de números e eram difíceis de acompanhar”, aponta o relatório. “Ao mesmo tempo, a segurança demonstrada por Flávio não dissipou as críticas de que ele deixou perguntas sem resposta e evitou abordar temas em que parecia menos preparado”, acrescenta.

Segundo a análise da Quaest, “o debate não parece ter gerado uma mudança significativa na percepção”, em uma corrida eleitoral para o segundo turno de 25 de outubro que se antecipa acirrada.

Flávio Bolsonaro tinha surpreendido no primeiro turno de 4 de outubro, quando obteve cerca de 47% dos votos contra 45% de Lula. As pesquisas publicadas antes do debate mostravam o senador com uma vantagem estreita, mas dentro da margem de erro.

Augusto Almeida

Sou jornalista e apaixonado por entender as histórias por trás dos acontecimentos. No Jornal O Diário, acompanho as principais notícias do Brasil e do mundo, com atenção especial aos temas que ganham destaque, geram debate e ajudam a explicar as mudanças do nosso dia a dia.