Na mente de muitos brasileiros, ambos os candidatos estão associados à corrupção. Bolsonaro está sob investigação por corrupção, lavagem de dinheiro e evasão fiscal, enquanto Lula passou 19 meses na prisão por acusações de corrupção e lavagem de dinheiro que posteriormente foram anuladas.
Para aqueles que apoiam firmemente qualquer um dos dois candidatos, esses vínculos presumidos farão pouco para abalar seu entusiasmo. Mas especialistas indicam que uma percepção generalizada de corrupção pode aumentar a abstenção e o sentimento contra o governo, o que poderia favorecer Bolsonaro, que recebeu 2,2 milhões de votos a mais do que Lula no primeiro turno.
A seguir, uma visão de como a corrupção poderia afetar o segundo turno das eleições presidenciais no Brasil.
O Brasil está muito polarizado
Durante o primeiro turno, muitos foram às urnas usando bonés e camisetas vermelhas — sinal de apoio ao partido de Lula — ou com o amarelo e verde da bandeira brasileira adotados pelo movimento de Bolsonaro, o que refletia a polarização que tomou conta do país.
Os simpatizantes de Bolsonaro e Lula desconfiam profundamente do outro lado e veem seus adversários como uma ameaça. Segundo especialistas, esses eleitores têm menos probabilidade de priorizar as acusações de corrupção.
“Nós temos uma grande capacidade de filtrar a informação que vai contra as nossas crenças”, afirmou Nara Pavão, professora de ciência política na Universidade Federal de Pernambuco. “As pessoas não querem descobrir a verdade sobre seus candidatos, querem derrotar o oponente”.
Camila Tobji de Aquino, uma estudante de pedagogia e psicologia de 19 anos, considera que a corrupção é um tema transversal aos partidos e um problema importante no Brasil. Mas sua principal preocupação é o que ela vê como a ameaça que Flávio Bolsonaro representa para a democracia.
“Se eu fosse votar apenas em um candidato que não estivesse ligado a nenhuma corrupção, votaria em branco”, comentou. “Mas essa não é a eleição que o Brasil encara. Para mim, é uma questão de poder votar na próxima eleição.”
A abstenção está aumentando
Um escândalo de grande alcance envolvendo políticos e juízes do Supremo Tribunal Federal dominou as manchetes antes da eleição presidencial, colocando a corrupção no centro do debate público.
O juiz Alexandre de Moraes, que presidiu o processo judicial que levou o ex-presidente Jair Bolsonaro à prisão por sua tentativa de golpe, é suspeito de manter vínculos com o ex-chefe do falido Banco Master, assim como Flávio Bolsonaro. Ambos negaram ter cometido irregularidades.
Para muitos brasileiros, o escândalo do Banco Master desperta lembranças da Operação Lava Jato, a maior investigação de corrupção e lavagem de dinheiro na história do Brasil, que prendeu dezenas de políticos depois de ter começado em 2014.
Escândalos de corrupção repetidos podem impulsionar a abstenção e afetar eleitores indecisos, afirmou Laura Chelidonopoulos, que estudou corrupção e é candidata a doutora em ciência política na Universidade de Pittsburgh. “As pessoas se desencantam com a política”, disse. “Têm menos motivação para realmente escolher entre um desses dois lados”.
Mais de 33 milhões de pessoas, ou 21% do eleitorado, não votaram no dia 4 de outubro, a taxa de abstenção mais alta em uma primeira volta desde 1998. A abstenção no primeiro turno tem aumentado gradualmente desde 2006, segundo dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) do Brasil.
Um desejo de mudança
José Tainan, um ajudante de cozinha de 36 anos do conjunto de favelas da Penha, no Rio de Janeiro, disse que lhe custa lembrar quando foi a última vez que votou em uma eleição, mas acredita que provavelmente foi por Lula lá pelos anos 2000.
Mencionou a corrupção como a principal razão pela qual deixou de votar.
“Não há boas opções. Nenhum dos dois me convém. Prefiro justificar por que não votei”, afirmou.
O voto é obrigatório para cidadãos entre 18 e 70 anos. Quem não vota sem uma razão válida enfrenta uma pequena multa.
Matusalem Aguiar, um motorista de táxi de 54 anos do município empobrecido de Belford Roxo, no Rio, disse que preferiria que apenas candidatos com antecedentes limpos pudessem entrar na política. Mesmo assim, ele vai ignorar as investigações de corrupção que envolvem Bolsonaro e votará nele de qualquer forma.
“É preciso uma mudança”, afirmou Aguiar, enquanto esperava seu próximo passageiro no centro do Rio. “Algumas pessoas têm muito poder e não estão gerenciando o país da maneira correta”.