Analista internacional explica a remontada de Lula e dúvidas sobre o voto eletrônico: “Chama a atenção”

28 de outubro de 2026

A vitória de Luiz Inácio Lula da Silva sobre Flávio Bolsonaro deixou um cenário de forte tensão política no Brasil. A virada do líder do Partido dos Trabalhadores (PT), as dificuldades de transporte durante o dia de votação e a decisão judicial de prorrogar o horário de votação ficaram no centro do debate. No LN+, o analista internacional Andrés Repetto analisou os fatores que favoreceram o governo e os argumentos do candidato opositor para contestar o resultado.

“Surpreso, mas não tanto”, afirmou no início de sua intervenção. Para o especialista, o desfecho voltou a colocar em questão as pesquisas e evidenciou a importância de mobilizar os eleitores. Ao mesmo tempo, alertou que a controvérsia sobre a organização das eleições exige distinguir entre os problemas para chegar aos locais de votação, a prorrogação determinada pela Justiça e o funcionamento das urnas eletrônicas.

Embora tenha descrito o resultado como “contundente” e “claro”, Repetto destacou que a aplicação da extensão horária abriu dúvidas que Bolsonaro utilizou para questionar a eleição. Suas observações, porém, não constituíram uma confirmação de fraude.

Repetto – Elecciones en Brasil

A mobilização que favoreceu a virada de Lula

Um dos pontos centrais da análise foi a capacidade do PT de levar mais eleitores às urnas. Repetto recordou que, nos dias que antecederam o pleito, havia apontado que uma participação maior poderia favorecer o presidente brasileiro.

“Se Lula conseguir mobilizar mais gente, isso pode beneficiá-lo, e foi exatamente o que aconteceu”, afirmou. Da sua perspectiva, essa capacidade de convocação foi uma das chaves para entender o desfecho do segundo turno.

A vitória reverteu a ordem da primeira rodada, na qual Flavio Bolsonaro havia ficado à frente de Lula, segundo dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

Repetto também dirigiu críticas aos levantamentos de opinião. “Mais uma vez, as pesquisas falharam”, afirmou, e questionou a influência que podem exercer sobre as expectativas do eleitorado e as decisões das campanhas.

A ausência de ônibus e a prorrogação da votação

A controvérsia descrita pelo analista começou com as dificuldades de deslocamento até os centros eleitorais. Conforme explicou, ao meio-dia o PT solicitou uma intervenção pela falta de coletivos, um problema que poderia afetar especialmente os eleitores das periferias e do norte do país.

Repetto acrescentou que Bolsonaro também havia pedido medidas ligadas às condições climáticas. Nesse contexto, situou a decisão judicial de prolongar o dia de votação por duas horas.

O ponto que considerou mais sensível foi o momento em que a medida foi anunciada. Segundo sua reconstrução, a ordem chegou quando as urnas eletrônicas já tinham sido fechadas, o que gerou incerteza sobre como a extensão poderia ser aplicada.

“Quando dão a ordem para alongar o processo de votação, eles a emitem tarde, a ordem chega tarde”, afirmou. Para o especialista, ali residia um dos principais motivos do conflito: determinar quantas pessoas tiveram dificuldade para se deslocar e quantas, afinal, não puderam votar.

O que Repetto questionou sobre as urnas eletrônicas

Ao se referir ao sistema de votação, Repetto focalizou a coordenação entre a decisão judicial e o fechamento dos dispositivos. “Tendo voto eletrônico, como pode ser que você o estire por duas, três horas?”, questionou durante o debate.

Sua interrogação apontou para a implementação da prorrogação. Mais adiante, diferenciou expressamente esse problema das acusações sobre uma suposta reabertura das urnas.

“O que Bolsonaro diz, de que as urnas teriam se reaberto, é impossível reabrir as urnas eletrônicas”, afirmou. E completou: “Uma coisa é o tema das urnas eletrônicas e outra é o que aconteceu com os microcomputadores e a prorrogação da votação”.

Também recordou que durante a transmissão dos resultados houve projeções precoces. Conforme relatou, uma das redes brasileiras previa a vitória de Lula com cerca de 14% dos votos apurados, com base em cálculos matemáticos.

A rejeição de Bolsonaro e a resposta internacional

Durante o programa, foi divulgada uma declaração de Flávio Bolsonaro na qual ele anunciava que recorreria à Justiça para solicitar a anulação das eleições. O candidato argumentou que não sabia quantos votos poderia ter obtido nos locais em que, segundo a sua argumentação, a extensão não teria sido aplicada.

Repetto comparou essa reação à de Jair Bolsonaro após a eleição anterior, embora marcando uma diferença política: naquela oportunidade, quem contestava o resultado ainda exercia a presidência.

Paralelamente, destacou os sinais de reconhecimento que Lula recebeu de diversos espaços ideológicos. Para o analista, tais manifestações refletiam a força do Brasil e a necessidade de manter relações entre governos além de suas afinidades partidárias.

“Esquerda, direita, o importante é o diálogo e entender que o Brasil é uma potência e que é preciso trabalhar com o Brasil”, concluiu.

Repetto - Elecciones en Brasil

Augusto Almeida

Sou jornalista e apaixonado por entender as histórias por trás dos acontecimentos. No Jornal O Diário, acompanho as principais notícias do Brasil e do mundo, com atenção especial aos temas que ganham destaque, geram debate e ajudam a explicar as mudanças do nosso dia a dia.