Vitória de Lula Gera Turbulência nos Mercados, que temem o descontrole de gastos

3 de novembro de 2026

A histórica reeleição do líder de esquerda Luiz Inácio Lula da Silva no Brasil fez tremer os mercados nesta segunda-feira, que já apostavam na vitória de seu adversário conservador e agora temem que o presidente governe sem disciplina fiscal em seu quarto mandato.

A Bovespa, que esperava a vitória de Flávio Bolsonaro após o seu bom desempenho no primeiro turno, caiu quase 17% na abertura desta segunda-feira.

A forte queda do Ibovespa levou à suspensão das negociações por 30 minutos, algo que não ocorria desde a instabilidade causada pela pandemia em 2020.

Contra todos os prognósticos e prestes a completar 81 anos, Lula se impôs no segundo turno com quase 52% a 48%.

Isso surpreende muito os agentes econômicos que já contavam com um governo Flávio, com uma transição política a partir de hoje.

Além da queda acentuada da bolsa, o preço do dólar disparou cerca de 12% na abertura dos mercados, atingindo 5,60 reais.

Em um contexto de deterioração fiscal, o filho do ex-presidente ultradireitista Jair Bolsonaro defendia um “corte” drástico nos gastos públicos, embora sem detalhar quais setores seriam impactados. Além disso, ele próprio fez promessas de investimentos em políticas sociais.

– O problema fiscal –

O Estado brasileiro gasta mais do que arrecada, a dívida pública supera 80% do PIB e o Banco Central mantém uma das maiores taxas de juros do mundo para conter a inflação.

E o arrefecimento da atividade econômica no horizonte aumenta os desafios.

Na reta final de sua campanha, Lula lançava medidas onerosas, como o aumento do valor das transferências do programa Bolsa Família para as classes populares, o perdão de dívidas para microempreendedores e outros benefícios.

“Lula fez várias promessas de gastos, e isso tem que ser repassado aos preços”, afirma André Perfeito, economista-chefe da financeira Garantia Capital.

“Uma reforma fiscal sólida é o preço que Lula 4.0 deve pagar para recuperar a confiança do mercado”, opina o analista Mariano Machado, da firma de análise de riscos Verisk Maplecroft.

Passada uma primeira fase de volatilidade, nos mercados “um plano crível para conter o gasto marcará o tom para 2027 e os anos seguintes”, acrescenta.

Também será necessário “esperar a transição para saber quais figuras políticas vão integrar o governo, se haverá aliança com o centro” em cargos estratégicos e “quem será o ministro da Economia”, aponta Gabiati.

– Congresso conservador –

A sólida vitória da direita no primeiro turno, na qual os brasileiros renovaram parte do Congresso e aumentaram a bancada conservadora, pode afetar a governabilidade de Lula.

Mas também pode funcionar como freio ao descontrole, apontam analistas.

“A guinada à direita no Congresso permanece mesmo após a vitória de Lula, o que deveria limitar a capacidade do governo de aplicar uma agenda fiscal significativamente mais branda”, sustentam os analistas do Deutsche Bank.

O ruído nos mercados não vem apenas das políticas potenciais aplicadas pelo líder de esquerda.

Outro ponto crucial será “a rapidez com que Bolsonaro aceitará os resultados”, alertou Chris Turner, analista da ING.

O líder conservador disse que pediria a anulação das eleições, após a justiça ter ordenado estender por duas horas o horário de votação devido a problemas com o transporte público em várias cidades e às fortes chuvas que atingiram algumas regiões.

“Uma vez que se assuma o impacto eleitoral imediato (o efeito nos valores de mercado, ndlr) e a impugnação do resultado por parte de Bolsonaro, a grande incógnita para os ativos brasileiros será se Lula pode aproveitar essa restrição do Congresso para estabelecer uma trajetória fiscal crível”, disseram os analistas do Deutsche Bank.

Augusto Almeida

Sou jornalista e apaixonado por entender as histórias por trás dos acontecimentos. No Jornal O Diário, acompanho as principais notícias do Brasil e do mundo, com atenção especial aos temas que ganham destaque, geram debate e ajudam a explicar as mudanças do nosso dia a dia.