Mercados em choque após as eleições no Brasil turvam o caminho para crédito mais barato

5 de novembro de 2026

Os responsáveis pelo Banco Central do Brasil iniciam na terça-feira uma reunião de dois dias e a decisão de quarta-feira deverá representar uma primeira prova de como as perspectivas sobre as taxas de juros mudaram após as eleições. O comitê tem cortado as taxas em 25 pontos-base em cada uma das suas últimas cinco reuniões.

Durante os próximos quatro anos do mandato de Lula, convencer os investidores de que ele pode manter as finanças públicas sob controle ao mesmo tempo em que protege os gastos sociais será crucial para reduzir o custo do financiamento. Um fracasso poderia manter o crédito caro por mais tempo, o que dificultaria os esforços para impulsionar o crescimento.

Para Carlos Carranza, gestor de fundos de dívida de mercados emergentes na M&G Investments, a mensagem do banco é mais importante do que se as taxas permanecem ou são reduzidas em 25 pontos-base.

‘Tanto cortarem 25 pontos-base quanto as taxas se manterem, acredito que a mensagem será ainda mais importante do que a própria taxa de juros oficial’, afirmou.

Reduzir as taxas sem reconhecer os riscos derivados da queda do real seria prejudicial, afirmou Carranza, embora não esperasse que os responsáveis políticos o fizessem.

Na semana passada, o real perdeu 8,5% frente ao dólar americano e o índice de ações de referência, a Bovespa, caiu cerca de 18%, já que a vitória de Lula derrubou as apostas a favor do candidato da direita, Flávio Bolsonaro.

Essas apostas haviam impulsionado uma recuperação após Bolsonaro ter liderado, de forma inesperada, o primeiro turno, o que refletia as esperanças de finanças públicas mais austereas.

Os investidores precisam agora avaliar até que ponto Lula está disposto e é capaz de endurecer a política fiscal.

Petar Atanasov, codiretor de pesquisa e estratégia soberana da Gramercy Funds Management, continua vendo margem para ajuste fiscal no mandato de Lula, mas espera que seja mais lento do que os investidores haviam previsto sob o mandato de Bolsonaro.

‘A velocidade e a magnitude do ajuste serão muito diferentes’, afirmou. Acrescentou que um ajuste significativo exigiria frear o crescimento dos gastos obrigatórios e obter apoio no Congresso.

Antonina Tarassiouk, diretora de análise econômica internacional da Reams Asset Management, também prevê uma pausa e aponta que as eleições complicaram as perspectivas de inflação, especialmente se o preço do petróleo permanecer acima de 100 dólares por barril.

RISCO DE INFLAÇÃO

Os preços na maior economia da América Latina subiram 4,62% no ano até meados de outubro. Os pagamentos de juros do Governo atingiram 9% do PIB no ano até setembro, a proporção mais alta desde janeiro de 2016. A dívida das famílias atingiu um recorde de 50,1% da renda anual, enquanto os pagamentos da dívida consumiram um recorde de 29% da renda, conforme mostraram os dados do banco central na semana passada.

Um real mais fraco eleva os custos de importação, o que pode repercutir nos preços ao consumo. Que essa pressão persista dependerá, em parte, das nomeações econômicas de Lula e da política fiscal que seu governo implemente.

Carranza, da M&G, no entanto, considera que a inflação está sob controle e que a incerteza fiscal é o maior obstáculo para reduzir os custos de financiamento. Considera que o crescimento permanecerá resistente, em contraste com as perspectivas mais pessimistas de Tarassiouk para 2027.

‘As revisões para baixo das previsões de crescimento, já fracas para 2027, serão chave para que o BCB reative sua política de flexibilização’, afirmou Tarassiouk.

Liam Peach, economista sênior especializado em mercados emergentes da Capital Economics, estima que a depreciação do real após as eleições poderia somar 0,3 ponto percentual à inflação geral em um prazo de seis meses. Ele espera que os cortes de juros parem, mais do que se revertam.

‘A maior preocupação é o forte aumento dos rendimentos dos títulos, que, se mantidos, ameaçam endurecer as condições de financiamento, agravar os problemas fiscais do Brasil e aprofundar a desaceleração do crescimento do PIB que prevemos para o próximo ano’, afirmou Peach.

(Relatório de Rodrigo Campos em Nova York e Karin Strohecker em Londres; informações adicionais de Marcela Ayres em Brasília; edição de William Schomberg e Aurora Ellis. Editado em espanhol por Natalia Ramos)

Augusto Almeida

Sou jornalista e apaixonado por entender as histórias por trás dos acontecimentos. No Jornal O Diário, acompanho as principais notícias do Brasil e do mundo, com atenção especial aos temas que ganham destaque, geram debate e ajudam a explicar as mudanças do nosso dia a dia.