As hipóteses por trás do acidente de asa-delta em que morreu um argentino no Rio de Janeiro

6 de novembro de 2026

RIO DE JANEIRO.- Um acidente de asa delta em São Conrado, na zona sul da cidade, provocou a morte de duas pessoas: o instrutor de voo Luiz Eduardo Rodrigues dos Santos, de 45 anos, e o turista argentino Adrián Guillermo Arismendi, de 26 anos. Ambos foram resgatados pelos bombeiros, que foram acionados às 11h23 da manhã, e encaminhados ao Hospital Municipal Miguel Couto, mas não sobreviveram aos ferimentos.

A direção da unidade declarou em um comunicado: “Apesar de todos os esforços da equipe médica, infelizmente as vítimas não sobreviveram e faleceram”. Os bombeiros informaram que ambos já apresentavam parada cardiorrespiratória durante o resgate.

Luiz Eduardo era instrutor no Club de Voo Livre de São Conrado (CSCVL), que também emitiu um comunicado sobre o acidente. A instituição expressou sua tristeza pelo que considerou uma “tragédia” e ofereceu suas condolências às famílias e amigos das vítimas.

“O Clube está disposto a colaborar com as autoridades responsáveis [pelas investigações], fornecendo as informações e o apoio necessários para esclarecer os fatos. Enfatizamos a importância de lidar com as informações sobre o incidente com responsabilidade, respeitando o trabalho das autoridades envolvidas na investigação e, sobretudo, a privacidade e o período de luto das famílias”, lê-se também no comunicado.

Piloto por um ano

Em seu depoimento à Polícia Civil, Bruno Menescal, vice-presidente do CSCVL, informou que Luiz Eduardo voava há dez anos, mas havia obtido sua licença de instrutor há um ano.

O argentino, nascido na cidade de Puerto Deseado, chegou ao Rio no domingo, dia anterior ao acidente, acompanhado de alguns amigos.

Colisão com a parede

Em seu depoimento à Polícia Civil, Menescal relatou que os pilotos lhe detalharam que a asa delta realizou uma curva em baixa altitude. Em seguida, o aparelho planou e colidiu com a rampa da pista de aterrissagem da praia de São Conrado. Essa rampa fica junto a um muro onde, segundo os banhistas, a asa delta se chocou.

O clube recuperou duas câmeras que poderiam ter gravado o acidente. Segundo Bruno, as primeiras provas apontam para negligência por parte de Luiz Eduardo, já que as condições meteorológicas estavam perfeitas.

“As imagens esclarecerão as coisas, mas é possível que ele tenha cometido um erro ao tentar um giro mais brusco em baixa altitude. Uma asa que se aproximava do solo a 60 km/h não atingiu o objetivo e se chocou contra o muro com força. Se tivesse atingido a areia, talvez não teríamos tido essa consequência. Mas desconhecemos se ele pôde ter sofrido uma indisposição súbita”, declarou, ressaltando que o Clube exige um alto nível de voo de seus instrutores.

“Se surpreendermos um piloto realizando manobras temerárias, ele é advertido e pode ser suspenso. Isto é aviação. Não vamos pegar um piloto, o comandante de um avião, decolando e fazendo piruetas”, disse.

Entre os colegas instrutores de Luiz Eduardo, comenta-se que um incidente na rampa da Pedra Bonita, pouco depois da decolagem, pode ter contribuído para o acidente. Segundo eles, a manobra de giro fechado poderia ter sido realizada para evitar uma colisão com outra asa delta.

Luiz Eduardo começou no parapente como “resgatista”, um assistente responsável pela montagem e desmontagem de asas delta e pelo transporte de pilotos e passageiros entre Pedra da Gávea e São Conrado. Em média, o assistente recebe um salário de R$ 30 por voo.

O comunicado da Anac

A ANAC (Agência Nacional de Aviação Civil do Brasil) proíbe a comercialização de voos panorâmicos em asa delta. No entanto, permite voos de instrução em tandem, pelos quais os turistas pagam por volta de mil reais no local. Da rampa da Pedra Bonita, localizada no Parque Nacional da Tijuca, são realizados 60.000 decolagens por ano.

Em um comunicado, a ANAC lamentou o acidente, mas ressaltou que a asa delta “é uma atividade aerodeportiva e é realizada sob o risco de quem participa”. Segundo o comunicado, a normativa também estipula que os voos devem ser realizados exclusivamente em condições de visibilidade sem restrições, durante o dia e com referência visual permanente ao solo.

Segundo a ANAC, a agência pode solicitar informações, documentos e provas para demonstrar a legalidade da operação. “Quando é detectada a violação das normas, a Agência pode adotar as medidas administrativas e sanções previstas na normativa, incluindo medidas para interromper as operações que representem risco à segurança”, mas não especificou se adotará alguma medida no Rio.

No comunicado, a agência esclarece que voos sobre áreas densamente povoadas ou com alta concentração de pessoas, assentamentos rurais e áreas restritas ou proibidas estão proibidos. “Os decolagens e aterrissagens devem ocorrer em locais cujo uso tenha sido autorizado pelo proprietário ou pela pessoa responsável. A atividade é proibida para menores de 18 anos. As operações também devem ocorrer em espaços aéreos autorizados pelo Departamento de Controle do Espaço Aéreo (Decea), respeitando os limites estabelecidos para cada local”.

O governo municipal, por sua vez, declarou que não é de sua competência supervisionar os voos.

Augusto Almeida

Sou jornalista e apaixonado por entender as histórias por trás dos acontecimentos. No Jornal O Diário, acompanho as principais notícias do Brasil e do mundo, com atenção especial aos temas que ganham destaque, geram debate e ajudam a explicar as mudanças do nosso dia a dia.