Da joia espanhola à decadência: como o AVE se tornou o símbolo da crise na Espanha

8 de novembro de 2026

MADRID.– Espanha brilhava para o mundo em 1992. Os Jogos Olímpicos de Barcelona e a Exposição Universal de Sevilha exigiam um projeto de infraestrutura para mostrar ao mundo que tinham deixado o adormecimento do franquismo para adentrar-se na vanguarda europeia. A marca-país esteve sempre associada ao seu nome: Alta Velocidade Espanha (AVE). Era a joia de todos os espanhóis.

A inauguração do trecho Madrid–Sevilha em abril daquele ano era apenas o primeiro passo de um modelo de sucesso que, à medida que se espalhava por todo o país, ratificava que era um orgulho nacional. Representou a entrada na modernidade, que desafiava a má fama da Espanha perante os seus vizinhos europeus.

Quase 35 anos depois daquela inauguração, o AVE se transformou neste ano no símbolo do declínio do Estado. A rede de alta velocidade mais extensa da Europa ficou em xeque nesta semana por um novo acidente: 2026 ficará marcado como seu ano trágico, que já supera os 110 mortos entre os acidentes de Adamuz e Urda.

“O franquismo não estava tão longe em 1992. Por isso, o AVE era um símbolo de entrada na modernidade. Finalmente tínhamos algo de que nos orgulhar diante da França ou da Alemanha. Era uma infraestrutura avançada, tecnológica. O AVE era um dos poucos símbolos em que todos os espanhóis estávamos de acordo”, reflete María Miyar, socióloga, diretora da Funcas, um think tank dedicado à pesquisa social.

A queda do símbolo do orgulho nacional

A bordo do AVE, um executivo folheava as páginas do jornal em 1994. Atrás dele, uma criança desenhava e uma mulher trabalhava em um computador pouco antes de ouvir um anúncio pelo alto-falante: “Informamos que o trem chegará ao destino com seis minutos de atraso”. A mensagem despertava a alegria coletiva. Essa sequência faz parte de uma publicidade da Renfe, a empresa pública de trens, que se tornou viral nos últimos dias. Naquela época, devolviam o dinheiro da passagem quando o atraso era superior a cinco minutos. Mas as coisas mudaram: 38% dos vagões chegam hoje com, no mínimo, cinco minutos de atraso, segundo dados oficiais.

A era dourada do AVE começou com a expansão do serviço, que gradualmente competiu com o avião em um trecho-chave: Madrid–Barcelona. A rede se estendeu até tornar-se a maior da Europa. A última grande inauguração foi a rota que chega até Asturias e Galícia, no norte. E os planos de expansão incluem uma nova ligação até Lisboa para 2030, quando se celebrar o próximo Mundial de Futebol entre ambos os países. Seu sucesso como modelo de negócios permitiu até exportá-lo para outros países, como a icônica rota entre Meca e Medina, na Arábia Saudita.

O sistema tinha um último problema a resolver: seu preço. Subir a um AVE era sinônimo de status, porque custava mais caro do que viajar de avião. Mas isso mudou com uma medida-chave: a liberalização do mercado. Em 2021 chegaram a italiana Iryo e a francesa Ouigo para competir com o serviço público da Renfe. Primeiro, operaram o trecho Madrid–Barcelona e a redução de preços acabou se instalando quando chegaram à rota Madrid–Sevilha.

Os bilhetes caíram entre 40% e 50%, de acordo com dados oficiais. Existem passagens para viajar de Madrid a Córdoba ou Valência que é comum consegui-las por menos de dez euros. A queda de preços disparou a quantidade de passageiros: se em 2019 foram 22 milhões de usuários, esse número cresceu até 44 milhões em 2025, recorde histórico. A concorrência entre operadoras privadas também intensificou, além disso, o uso da rede ferroviária em 42%.

“É verdade que a Espanha não deixou de investir em manutenção ferroviária, mas também é evidente que não tem sido no mesmo ritmo que o crescimento da quantidade de viagens e de passageiros”, sustenta Ana Manso Acosta, consultora política. O governo socialista assegura que foi feito o maior investimento da história em manutenção, mas o acidente mortal em Adamuz foi causado por uma avaria em uma das vias férreas.

“Associamos o AVE à rapidez, ao conforto e à segurança. O normal era pensar: ‘Vou chegar a tempo a Madrid e, nesse meio tempo, posso trabalhar confortavelmente no meu computador’. Foi construído um pacto de confiança com a cidadania que agora se danificou. A sequência de dois choques em tão pouco tempo instala uma percepção de que há um problema estrutural”, argumenta a politóloga Manso Acosta.

A socióloga Miyar é mais dura: “O AVE representa hoje o declínio da Espanha. É a constatação de um retrocesso das infraestruturas. É verdade que se investiu, mas muito mais na criação de infraestrutura do que na manutenção. Para os políticos, é mais rentável colocar o dinheiro em obras novas, que podem ser inauguradas”. É a piada que se conta em todos os bares da Espanha quando perguntam por que constroem tantas rotatórias.

A especialista explica que o crescimento das viagens em alta velocidade desde a entrada de novas empresas vem acompanhado do extraordinário crescimento populacional da Espanha, que passou de 40 para 50 milhões de habitantes nos últimos anos. E também pelo boom do turismo, que registrou 97 milhões de visitantes em 2025, o maior da sua história.

Rubén Díez García, professor de Sociologia da Universidade Complutense, está convencido de que essa nova percepção dos espanhóis sobre o AVE representa a crise de confiança que atravessa a sociedade espanhola, enfrentada por diferentes conflitos políticos e sociais. “A crise do AVE não faz outra coisa senão refletir nosso deterioramento institucional desses anos”, comenta.

“A situação dos trens é um trauma porque nos coloca diante de uma realidade muito diferente daquela que soubemos viver. A degradação das instituições e de nossos símbolos resulta numa perda de confiança que termina por questionar a identidade nacional. Quem somos agora?”, questiona o politólogo, que se especializou em analisar como as sociedades se recuperam após seus grandes traumas.

Tanto ele quanto o restante dos especialistas concordam que, com as eleições de 29 de novembro à vista, uma mudança de governo aparece como a forma mais rápida de virar a página. “Precisamos do relato adequado para voltar a acreditar. Tenho certeza de que o AVE renascerá, mas levará seu tempo”.

Augusto Almeida

Sou jornalista e apaixonado por entender as histórias por trás dos acontecimentos. No Jornal O Diário, acompanho as principais notícias do Brasil e do mundo, com atenção especial aos temas que ganham destaque, geram debate e ajudam a explicar as mudanças do nosso dia a dia.