MIAMI.— Depois de vários dias fora da vista do público, o senador brasileiro Flavio Bolsonaro reapareceu neste domingo na Flórida, onde participou de um culto religioso evangélico junto com a esposa, o irmão Eduardo e outros membros da sua família. Seu retorno à cena ocorreu enquanto avançam no Brasil as investigações sobre a operação que lhe permitiu deixar o país após a sua derrota eleitoral, uma trama que agora tem como novo protagonista um ex-agente do Mossad, o serviço de inteligência israelense.
Conforme revelou o programa , da emissora brasileira TV Globo, Menachem Booky Halevy, um ex-integrante dos serviços de inteligência de Israel, está sendo investigado por sua presumível participação na operação. O israelense teria viajado em uma das camionetas que cruzaram a fronteira entre o Brasil e a Argentina poucos minutos antes do veículo no qual supostamente o senador e a família teriam se deslocado.
Halevy não seria um personagem alheio aos círculos do poder israelenses. De acordo com o relatório, aparece em fotografias ao lado do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu e havia visitado o Brasil outras três vezes neste ano. Sua última entrada no país foi registrada em 19 de outubro, poucos dias antes da operação.
O ex-agente viajava em uma das duas camionetas da empresa brasileira Dallas Turismo que participaram da travessia fronteiriça. No mesmo veículo ia Roberto Jorge Alexandre, um advogado que integrou a defesa do ex-presidente Jair Bolsonaro. O motorista, Neri Luiz Dala Corte, declarou ter sido contratado para transportar dois homens até o aeroporto de Puerto Iguazú e negou ter visto integrantes da família Bolsonaro.
Os registros migratórios argentinos também revelaram movimentos chamativos. Segundo as informações divulgadas pela TV Globo, Flavio Bolsonaro teria ficado registrado três vezes na mesma camioneta: primeiro, às 22h37, com seu passaporte italiano; três minutos depois, com a carteira de motorista, e, por fim, às 23h11, com o passaporte brasileiro. As duas entradas realizadas com documentos brasileiros foram canceladas, restando válida apenas a registrada com o passaporte italiano.
A saída do Brasil também teria envolvido uma logística aérea diferenciada para o senador e sua família. Flavio teria abordado um avião Cessna Citation Excel ligado ao advogado Willer Tomaz, próximo ao líder brasileiro. A esposa dele, Fernanda, e suas duas filhas teriam partido de Brasília em outra aeronave com destino a Cascavel, no oeste do estado do Paraná. Às 20h02, as três subiram a uma camioneta da Dallas Turismo que cruzaria a fronteira horas depois.
Tomaz, que está sendo investigado pelo Supremo Tribunal Federal em dois casos de suposto lavado de dinheiro relacionados a apostas online e transferências do ex-banqueiro Daniel Vorcaro para o filme Dark Horse, negou à TV Globo que a viagem tenha ocorrido em um avião ligado a ele.
A investigação sobre a saída do senador veio à tona depois de Flavio deixar o Brasil na última quarta-feira, após a derrota nas eleições para Luiz Inácio Lula da Silva, e em meio a medidas judiciais que, segundo ele, integram uma perseguição contra sua família. O magistrado Alexandre de Moraes havia ordenado que ele entregasse seus passaportes.
Segundo informaram o The New York Times e o The Wall Street Journal, a viagem para os Estados Unidos teria sido organizada com a intervenção de Jason Miller, assessor do presidente Donald Trump, que teria fretado uma aeronave para transportar o senador. Trump, por sua parte, disse no sábado que Flavio poderia permanecer nos Estados Unidos “todo o tempo que quisesse”, embora tenha descartado que tivesse planos de se encontrar com ele. Também voltou a questionar o resultado das eleições brasileiras e classificou a eleição de “uma vergonha”.
Primeira aparição
A primeira aparição pública de Flavio desde a sua chegada aos Estados Unidos ocorreu em uma igreja evangélica da comunidade Celeiro, na Flórida. O senador posou ao lado de sua esposa, seu irmão Eduardo e sua cunhada Heloísa, além dos pastores José Maurício Fernandes, conhecido como Paizão, e Alice Fernandes, apelidada de Mãezona.
Durante o culto, o pastor dirigiu-se ao senador com uma mensagem sobre sua derrota eleitoral, embora sem mencioná-la explicitamente. “Você não vence nem perde, porque com Jesus não se perde. E se você perde, continua vencendo”, disse ele.
Paralelamente, Flavio voltou a confrontar o grupo Globo, ao qual acusou de tentar destruir sua reputação e de preparar um relatório sobre sua saída do país sem lhe dar direito de réplica. Em uma mensagem publicada no X, afirmou ter aceitado uma entrevista com Fantástico com a condição de que fosse transmitida na íntegra e sem temas proibidos, mas a emissora decidiu não seguir adiante.
O senador também denunciou uma suposta perseguição judiciária e questionou as medidas adotadas pela Justiça brasileira contra ele e sua família. “Não saio do Brasil, saio pelo Brasil”, escreveu, numa frase na qual buscou apresentar sua partida como uma decisão política e não como uma retirada diante das investigações.