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A importância da carroça e junta de bois para os agricultores familiares em Herval

17/06/2020 - 13h10min

Santa Maria do Herval – Os aposentados Alcelmo Hoff, de 65 anos, e de dona Maria Marlene Hoff, de 62 anos moram na localidade de Padre Eterno Ilges, ou no “Ilges Perich”. Eles, que se conhecerem nos bailes do interior estão casados há 45 anos e, em praticamente todo esse tempo vivem da roça.

Ele até já chegou a trabalhar na Prefeitura durante um período em que a agricultura ia mal. Ela, da mesma forma, trabalhou em um fábrica de calçados na qual começou aos 33 anos até os 49 e, depois que se aposentou, voltou para a agricultura.

Hoje eles produzem somente para a sua subsistência, plantando milho, feijão, batata e aipim. “Um pouquinho de tudo. Muito não adianta, pois não conseguimos vender nada. É somente para consumo próprio. Aí volta e meia a gente carneia um gado, e dessa forma, não precisamos comprar carne”, explica seu Alcelmo, brincando que “agricultor que é agricultor não pode comprar carne”.

Gado

Eles têm seis cabeças de gado, além de um porco. “Temos uma vaca e tiramos o leite somente para o nosso consumo e para os terneiros, que tem apenas dois meses. Um terneiro é cria da vaca, já o outro compramos para acompanhar, pois a vaca tem bastante leite, então, podemos colocar dois para mamar. Dessa forma o leite não se perde.”, disse dona Maria.

Ajuda importante

Mas para o dia a dia deles uma ajuda é muito importante: a da junta de bois Mineiro -ambos têm o mesmo nome -, e a velha carroça. “Esses bois são o meu trator, nunca me deixaram na mão. Já tive sete juntas assim” diz Alcelmo, enquanto se agacha entre os dois animais para colocar o cabeçalho da carroça na canga.

Questionado se não tem medo de ficar no meio dos bois, que são consideravelmente maiores e mais fortes do que ele, Alcelmo destaca que não, e completa: “não adianta ter boi arisco. É que nem mulher arisca: fogem. Mulher mansa vale a pena, mas arisca, não adianta”, brincou, no que imediatamente Maria responde que “sou mansa”, e os dois caem na gargalhada.

Fúnebre

Assim que pronto, dona Maria sobe na carroça e eles vão em direção à lavoura para colher aipim. Alcelmo segue na frente guiando os bois. Enquanto anda lembra que, antigamente, uma junta de bois e carroça era utilizada como carro fúnebre, levando caixões. “Meu pai, que tem 91 anos, conta que levava muitos”, disse.

“…muita gente não entende, e não valoriza”

Alcelmo destaca que a junta de bois e a carroça possui muito valor para o agricultor. “Nós começamos na roça porque na época não tinha outra saída. Não tinha indústrias, e por isso seguimos assim. Também não existia maquinário acessível, então, a única alternativa era produzir com os bois. Hoje, também não temos condições de comprar tratores caros, não podemos nos endividar à essa altura e, ao mesmo tempo, temos que trabalhar”, destacou ele, afirmando que tudo o que tem, conquistaram através da lida árdua da roça. “Isso é o agricultor que muita gente não entende, e não valoriza”, destaca.

“Pena que a gente fica velho tão cedo, né?”

Apesar do trabalho não ser fácil e das mãos estarem calejadas pelas atividades pesadas, o casal ainda tem muita disposição, garantindo que não pretendem parar tão cedo. Dona Maria já deixou claro que, agora, não pretende mais trabalhar em outra coisa. Seu Alcelmo lamenta, inclusive, o fato de o tempo estar passando tão depressa.

“Pena que a gente fica velho tão cedo, né? É bonito trabalhar e, quando a idade vem chegando a gente vai tendo que parar aos poucos”, lamenta. “Mas gosto de continuar trabalhando. Se parar, vamos começar a ficar doentes”, aponta ele.

Preocupação com a juventude

Alcelmo mostra que o trabalho árduo vale a pena e traz resultados dignos. Destaca ainda que é importante estudar, mas, mostra-se preocupado com a juventude. “Hoje ninguém ajuda e não querem saber da roça. Todos querem estudar, mas não adianta, onde todos que estudam vão trabalhar?”, fala Alcelmo.

Diz ainda que, agora, no período de crise, muitas demissões podem acontecer e “se eles tiverem que começar a ir para a roça, não vão saber o que fazer”, afirma, falando que, antigamente, ele e a esposa iam juntos fazer lenha. “Antes do sol nascer, eu já tinha feito 200 quilos de casca de acácia”, destacou.