Quando a deputada eleita Ana Elisa Santos nasceu, Luiz Inácio Lula da Silva já era presidente do Brasil. Duas décadas depois, essa jovem aconselha o presidente sobre como usar as redes sociais para conseguir um quarto mandato não consecutivo.
Com 21 anos, a jovem recebeu meio milhão de votos em sua estreia eleitoral, um prêmio de consolação para a esquerda nas eleições de 4 de outubro.
Lula foi superado pelo candidato conservador Flávio Bolsonaro no primeiro turno das eleições presidenciais e uma maré direitista tomou o Congresso.
Dois dias depois, Ana Elisa, como é conhecida, foi convidada a Brasília para aconselhar o presidente em vista da segunda volta, marcada para 25 de outubro.
Ela o fez ao lado de outros jovens eleitos que, como ela, se formaram nas redes.
O presidente, de 80 anos, não tem celular e ironicamente chama seus usuários de a “geração do dedo”. Mas após a orientação desses jovens, ele se autoproclamou “rei do selfie”.
“Nossas ideias foram muito bem recebidas. Queremos ajudá-lo a vencer o segundo turno”, afirma a jovem, que tem mais de cinco milhões de seguidores no Instagram.
– Política no quarto –
Nascida em uma família negra da periferia de Divinópolis, a jovem é filha de uma professora da escola pública.
Ela cursa Direito e afirma que, graças às políticas sociais de Lula, ela e a família tiveram acesso à educação superior.
Com o cabelo crespo trançado e camisetas com slogans feministas de sua própria marca “Vista Política”, Ana Elisa ficou conhecida ao fazer vídeos críticos ao bolsonarismo.
Há dois anos, “comecei a fazer política no quarto da minha mãe com um celular”, contou no Instagram durante a campanha.
E não deixa de lado temas mais leves, como sua paixão pela série norte-americana Grey’s Anatomy.
Em fevereiro, Ana Elisa sairá da casa onde mora com a mãe, a avó e o irmão mais novo para se estabelecer em Brasília.
Em um parlamento dominado pela direita, ela promete defender transporte público gratuito e auxílios de moradia para estudantes universitários.
– Redes vs Rua –
Junto com Ana Elisa chegarão ao parlamento vários jovens conservadores surgidos nas redes sociais, como Lucas Pavanato (28 anos), que obteve três milhões de votos.
A jovem reconhece que a esquerda está “rezagada” no terreno digital.
Os conservadores “entenderam muito antes que a esquerda que já não existe separação entre redes sociais e a rua”, explicou Ana Elisa em um vídeo compartilhado em quase 16.000 vezes no Instagram.
“Do outro lado eles chamam de força política, aqui vocês chamam de influencer. É por isso que estamos perdendo o debate”, afirmou.
Mas também denuncia uma suposta “interferência” das plataformas de redes sociais dos EUA.
A Justiça Eleitoral deu nesta segunda-feira à Meta, proprietária do Instagram, Facebook e WhatsApp, 24 horas para demonstrar que trata as campanhas de Lula e Flávio Bolsonaro da mesma forma.
O Partido dos Trabalhadores de Lula havia denunciado a Meta por limitar a divulgação de conteúdos do candidato em suas plataformas.
A empresa reconheceu erros, mas afirmou que se tratou de “incidentes técnicos”.
Enquanto isso, a jovem deputada insiste em seu discurso: “Apesar de tudo isso, precisamos nos esforçar” para reverter na eleição.
Uma pesquisa do instituto Datafolha divulgada na semana passada colocou Lula em empate técnico com Bolsonaro, com 49% das intenções de voto contra 51%. Uma semana antes, havia registrado uma diferença de quatro pontos percentuais.