A luta de mães e esposas contra a letalidade policial no Brasil

19 de outubro de 2026

O mar, em frente a uma favela em Salvador, no nordeste do Brasil, foi o cenário da última foto de Vilma Alves de Oliveira ao lado de seu filho, João Vitor, assassinado em 2023, aos 20 anos.

“Nenhuma mãe está preparada para perder um filho, ainda mais dessa forma. ‘A vida do meu filho foi arrancada pela polícia, o braço armado do Estado’”, afirma no conjunto Nordeste de Amaralina essa mulher negra de 49 anos, que busca justiça há três anos.

Este bairro de ladeiras íngremes e o cheiro de dendê é um dos epicentros da violência policial no estado da Bahia, onde em 2025 houve 1.570 mortes em operações das forças de segurança contra o crime, o maior número do Brasil, segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública.

Praticamente nenhuma delas foi levada à justiça.

João Vitor, pizzaiolo, tinha saído para tomar uma cerveja com um amigo quando, segundo testemunhas, a polícia chegou atirando.

As imagens das câmeras de segurança sumiram, as testemunhas desistiram de depor por medo e nunca foi realizada a perícia balística, relata Vilma Alves de Oliveira, hoje desempregada.

A insegurança é uma das principais preocupações dos brasileiros diante do segundo turno da eleição presidencial de 25 de outubro, entre o candidato à reeleição, o esquerdista Luiz Inácio Lula da Silva, e seu rival, o conservador Flávio Bolsonaro.

– “Mulheres de criminosos” –

Cerca de 80.000 pessoas vivem no Nordeste de Amaralina, de maioria negra, cujo domínio é disputado por facções criminosas.

“O jovem negro da periferia é um alvo histórico” das operações policiais, afirma.

Mais de 80% das mortes em operações em 2025 no país eram negras, na sua maioria homens entre 15 e 29 anos, segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública.

Nesta favela, a luta contra a letalidade policial é liderada por mulheres, que se apoiam entre si.

Rita Cássia Souza dos Santos, uma empregada doméstica de 59 anos, aguarda há treze anos o julgamento de três policiais acusados de matar seu único filho, Carlos Alberto, em 2013, quando ele tinha 21 anos.

“A polícia tentou manchar o nome dele e vinculá-lo ao narcotráfico para justificar a morte dele”, afirma, denunciando que elas também são atacadas pelos próprios agentes.

“Eles nos insultam, nos ofendem, dizem que somos mulheres de criminosos”, diz.

– Medo da polícia –

“São as mulheres, que cobrem os corpos de seus familiares abatidos, as que se organizam em busca de justiça e mudanças políticas”, afirma Souza.

Seu ativismo contribuiu para que esteja em tramitação na Bahia o projeto de lei Ana Luiza, que prevê assistência médica, econômica e psicológica para as vítimas de operações policiais.

Recebe o nome de uma jovem de 19 anos assassinada durante uma operação em Salvador.

Elisângela Souza Santos, de 37 anos, fala baixo. Seu olhar reflete indignação ao recordar que estava grávida quando policiais invadiram sua casa e mataram seu marido, Marivaldo, de 29 anos.

“Tenho mais medo da polícia do que dos traficantes”, diz.

– “Mal com Lula, pior sem Lula” –

O presidente Lula, cujo Partido dos Trabalhadores governa a Bahia há 20 anos, promete criar um ministério da Segurança Pública e enfraquecer as gangues criminosas atacando sua base econômica.

Flávio Bolsonaro, inspirado no presidente salvadorenho Nayib Bukele, defende uma política de mão firme e a classificação das grandes facções Primeiro Comando da Capital e Comando Vermelho como organizações terroristas.

“Não confio em nenhum político. Mas se Flávio Bolsonaro for eleito presidente, nossa situação vai piorar muito. Já vimos como foi com o pai dele (o ultradireitista Jair Bolsonaro, 2019-2022). Mal com Lula, muito pior sem Lula”, diz Souza Santos.

A Secretaria de Segurança Pública da Bahia informou sobre um plano para implantar 1.300 câmeras corporais para monitorar a atuação policial. Confirmou que não oferece assistência social às vítimas da letalidade dos agentes.

Augusto Almeida

Sou jornalista e apaixonado por entender as histórias por trás dos acontecimentos. No Jornal O Diário, acompanho as principais notícias do Brasil e do mundo, com atenção especial aos temas que ganham destaque, geram debate e ajudam a explicar as mudanças do nosso dia a dia.