A mudança de uma amiga para o exterior a levou a uma viagem ao Rio de Janeiro que ela não imaginava: “O que eu faço aqui, sofrendo longe?”

5 de setembro de 2026

Nascida em Chaco, aos três anos mudou-se para Buenos Aires, o lugar onde pensou que viveria para sempre

Em março de 2022 a melhor amiga de Sharon decidiu que iria morar na Austrália, então, ambas organizaram uma viagem de despedida à Ilha Grande, no Rio de Janeiro, Brasil. Nada muito grandioso: o plano era ir ao Rio, ficar três dias na ilha, depois voltar ao Rio e, a partir daí, retornar à Capital Federal.

Para Sharon era voltar à rotina. Ela nasceu em Chaco, aos três anos foi morar em Buenos Aires e acreditou que ali passaria o resto de sua vida, mas não sabia que o cupido mudaria os planos que ela carregava na cabeça.

Um tempo para aproveitar entre amigas

Em resumo, eram férias curtas, uma escapada daquelas que te fazem adiantar assuntos de trabalho, organizar tarefas e quando chegaram à Ilha Grande, naquela sexta-feira, elas estavam super cansadas, por isso naquela noite fariam apenas uma caminhada de boas-vindas.

No sábado, já com a energia recarregada, garantiram que naquela noite iriam a um bar que, ao que tinham ouvido, era o melhor da ilha, com música reggaeton e muita vibração. “Começava cedo para nós acostumadas à vida na Argentina, em que a pré-festa é bem tarde. Aqui, antes de dez já tinha que estar no barzinho”, explica Sharon.

Aquele dia fizeram um passeio de barco por diferentes lugares da ilha. Ao chegarem, tomaram banho, se prepararam e saíram para jantar. Neste viagem queriam presentear-se com esses momentos de amizade, de conversa e de prazer, sabendo que depois uma grande distância as separaria. O local escolhido para o jantar foi um restaurante de frente para o mar; pediram algo para beber e um ceviche que parecia não querer chegar à mesa.

A Sharon y a Lore, su amiga, la isla las enamoró
A Sharon y a Lore, su amiga, la isla las enamoróGentileza Sharon

O problema é que as meninas tinham tudo calculado: era o único sábado na ilha e, depois do jantar, iriam cedo ao bar onde havia música para dançar. “O ceviche demorou cerca de uma hora e, quando chegou, era basicamente toda cebola com um pedacinho de peixe”, recorda Sharon. Aquele ceviche desejado acabou sendo um prato caro de pura cebola e, por ele, tiveram que esperar uma hora.

Explicaram a situação para a garçonete, que pediu desculpas pelo ocorrido, garantiu que nunca tinha acontecido e, como as garotas estavam apreensivas para ir-se embora, disse: “Espere um pouco que eu trago algo, para que não saiam com a barriga vazia, porque sair assim pode fazer mal”. Mas meia hora depois lhe entregou uma cestinha com um patê. “É o que nos trazem na Argentina como entrada e comemos um pedacinho de pão, bebemos água e vamos embora cansadas e irritadas”, relata Sharon.

O “olá, meninas” com o qual tudo começou

Sharon estava com os pés machucados após tomar a decisão ruim de percorrer o Rio de Janeiro de chinelos. “Lá é tudo praia, não há carros, então é lindo porque você caminha pela praia até o barzinho, direto, mas naquele momento meus pés estavam doendo e foi um pouco terrível”, lembra. Em uma área bem escura, as garotas, apressadas, sabendo que aos sábados haveria fila no bar e não queriam perder a oportunidade de conhecê-lo, aceleraram o passo e mergulharam na escuridão. A meio do caminho ouviram A voz de um homem que as saudou: “Oi, meninas”. Quem falava com elas, e que na hora não sabiam quem era, era Moisés, natural de Bahía del Nordeste, no Brasil, que vivia há cerca de dez anos na Ilha Grande.

“Moisés é negro, bem moreno, e no escuro não se via nada, então ficamos com medo. Além disso, os brasileiros falam bem alto, olhamos para ele com morecência porque viemos de um dia ruim, apressadas e assustadas”, ri Sharon ao lembrar.

Desde que su amiga se fue a vivir a Australia no se volvieron a ver
Desde que a amiga dela foi morar na Austrália, não se viram maisGentileza Sharon

Eles responderam com um “Oi”, Moisés perguntou se elas iriam para a festa, as meninas disseram que sim e ele logo percebeu que não havia muita sintonia nas respostas e continuou andando.

Sharon e a amiga aproveitaram para caminhar atrás dele. A amiga dela sentiu pena, percebeu que tinham sido mal-educadas e, ainda por cima, ficaram assustadas quando ele parecia simpático. “Olha, claramente ele não sabe paquerar; onde você viu que ele vem falar com duas meninas sozinhas no meio da escuridão?”, respondeu Sharon, deixando entrever que Moisés não tinha parecido adequado.

Ao chegar ao bar, a fila era longa, mas Moisés passou ao lado, aproximou-se do segurança, cumprimentou-o e entrou. Sharon, determinada a não perder a oportunidade, entrou atrás dele, mas foi contida. Ela explicou que ficavam ao lado, mas não importou. Pareceu-lhes que seria perder tempo; para quando conseguissem entrar, a festa já teria terminado. Então seguiram direto para a boate ao lado, onde ainda não havia gente, e lá ficaram tranquilas tomando algo.

La primera vez que Sharon se cruzó a Moisés fue en una playa oscura y le dio miedo
A primeira vez que Sharon se cruzou com Moisés foi numa praia escura e ela sentiu medoGentileza Sharon

À uma da madrugada, ao fechar o bar, a galera começou a entrar na boate. A amiga de Sharon reconheceu Moisés imediatamente. Quando passou perto delas, Sharon, que se sentia culpada após o que a amiga lhe apontou, disse: “Olha, me desculpa, te vimos no caminho, mas estávamos vindo de uma sequência de coisas e não se via nada e falamos com você mal”.

Moisés aproveitou para começar a conversar e, como bom brasileiro, dançou a noite inteira com elas, acompanhou com cuidado as caipirinhas e os celulares. Terminou quase de madrugada e Moisés, que trabalhava como marinheiro em um barco que leva turistas para passeios, tinha que começar a trabalhar em poucas horas.

Ofereceu acompanhá-las à pousada, mas como as meninas ficavam no mesmo lugar onde estava o bar, as convidou para López Méndez, a praia mais bonita da ilha. “Isso não podem recusar, amanhã vou para López; venham que eu convoco vocês, eu as levo no barco em que trabalho”, propôs.

López Méndez, a ilha que as conquistou mais que o Rio

As garotas dormiram um pouco, tomaram banho, tomaram o café da manhã. Sharon tinha ido ao Brasil e não tinha levado biquíni, então escreveu para Moisés para avisar que não poderia ir à famosa praia porque precisava ir às compras. Mas Moisés, que sabia que ali não havia um shopping de verdade, entendeu aquilo como uma rejeição.

À tarde, Sharon lhe mandou uma mensagem para que ele não pensasse que elas não tinham a intenção de ir à praia e, além disso, lembraram que Moisés não fazia fila para entrar no bar.

Moisés as procurou, entraram no bar, puderam conhecê-lo, se divertiram e depois voltaram ao bar próximo, onde ainda não havia muita gente. Moisés as convidou para o dia seguinte para um passeio de barco: dar a volta completa pela ilha pelo mar aberto.

Moisés trabalhava como marinheiro em um barco e levou Sharon e a sua amiga para conhecer a ilha que as encantou
Moisés trabalhava como marinheiro em um barco e levou Sharon e a sua amiga para conhecer a ilha que as encantouGentileza Sharon

Terminaram o dia com jantar em um restaurante e acesso ao bar desejado. No dia seguinte as meninas tinham que ir a Rio, mas decidiram estender por dois dias a estadia na ilha, mesmo que isso significasse perder traslados e hotel no Rio.

Foram dias de passeios pela praia, e no último, Moisés levou as malas delas, tarefa nada fácil ao carregar duas malas grandes cheias de roupas pela areia. Moisés disse: “Até a vista, baby”, e elas se despediram chorando, “não queríamos ir embora, a ilha é muito bonita, tudo no Brasil nos conquista”, garante Sharon.

Se mandaron mensajes por instagram, luego videollamadas y para cuando se dieron cuenta estaban involucrados en una relación a distancia
Se mandaram mensagens por instagram, depois videochamadas e, quando perceberam, estavam envolvidos num relacionamento a distânciaGentileza Sharon

Ao retornar a Buenos Aires, Moisés seguiu conversando com Sharon pelo Instagram, ela respondia e não houve um único dia sem falar.

As mensagens deram origem a videochamadas. Moisés, em seu trabalho como marinheiro, aproveitava cada momento de sinal para ligar e à noite, ao retornar do trabalho, também. Chegou um momento em que Sharon pensou: “E agora, estou no forno aqui, o que vai acontecer?”. Sua amiga, apaixonada pela ilha, decidiu adiar sua viagem para a Austrália para o fim do ano e elas voltaram a ir juntas três vezes mais naquele mesmo ano.

“O que eu faço aqui? Sofrendo longe, chega, eu também vou”

Em cada visita ficavam um mês e meio ou dois. E Sharon passava o tempo com Moisés. “Sem querer começamos a ter um relacionamento à distância. Alugávamos uma casa juntos e ficamos por lá”, explica.

Elas tinham o próprio negócio e podiam trabalhar online, o que lhes dava liberdade para ir e voltar quando quisessem.

Sharon y Moisés junto a los papás de Sharon. Su mamá es argentina y su papá coreano
Sharon e Moisés com os pais de Sharon. A mãe é argentina e o pai é coreanoGentileza Sharon

Chegou o fim do ano, a data da viagem para a Austrália se aproximava, o Mundial estava para começar e Sharon queria vivê-lo com a família. Despediram-se sem saber o que iria acontecer depois, pois havia uma realidade: Sharon nunca havia viajado sozinha, não se via fora da Argentina e sempre teve uma relação muito próxima com a família.

Ela arrumou a mala sabendo que era possível ficar mais tempo além do carnaval, mas não contou isso aos pais.

Ao chegar à Ilha Grande, não quis voltar e ficou por lá. Em algum momento ficou entediada e conseguiu trabalho vendendo passeios em uma agência de um amigo de Moisés; ela já conhecia toda a ilha.

Uma videochamada, o pai e uma pergunta: “Queres vir?”

Certa vez fez uma videochamada com os pais e viu o pai bem magro e triste. Percebeu que ele tinha ido embora dizendo que voltaria, mas ficou para morar na ilha sem nem se despedir.

Disse a Moisés que precisava voltar à Argentina para ver o pai. Ele perguntou: “Você vai sozinha?”, ela retrucou: “Não sei, quer vir?”, ele concordou. Sharon pensou: “Uau, agora como vou levá-lo para casa? meu pai e minha mãe são o máximo, mas meu pai é coreano e minha mãe é argentina. A família do lado do meu pai é bem fechada, nunca alguém tinha ficado com um brasileiro e a tradição é ficar com um coreano.” Meu pai quebrou a tradição familiar ao estar com minha mãe argentina, explica Sharon.

Este año Moisés y Sharon pudieron viajar a Bariloche a conhecer a neve
Este ano Moisés e Sharon puderam viajar a Bariloche para conhecer a neveGentileza Sharon

Eles avisaram aos pais que voltariam; a mãe, desconfiada, perguntou se iria sozinha e Sharon respondeu que não sabia. Em cinco minutos, sua mãe ligou de novo e disse: “Já avisei ao teu pai que virás acompanhada”.

Moisés nunca tinha saído do Brasil e chegou ao inverno do nosso país. A mãe de Sharon recebeu-o no aeroporto com pantufas e uma jaqueta para se aquecer

“Quando chegamos fomos recebidos por eles e foi lindo. Eles nos receberam muito bem, meus pais são o máximo”, garante Sharon. Logo, ele foi aceito como mais um da família.

“Vocês também precisam ter o seu barco”

Começaram a trabalhar por temporadas: no inverno, com o negócio de roupas da Sharon, no verão com a alta temporada da ilha.

Foram dois anos indo e voltando sem parar, até que, numa visita ao Brasil dos pais, o pai disse: “Ei, vocês também precisam ter o barco de vocês, como os demais, e trabalhar juntos”. Esse foi o impulso para começar.

A Sharon surgiu a ideia de atrair turistas fazendo vídeos nas redes sociais; Moisés não estava muito seguro, mas os vídeos deram frutos e começaram a chegar mensagens: grupos de 5, 4 ou 6 pessoas e, sem perceber, desde 2024 enchem o barquinho para todos os passeios.

El padre de Sharon les dio el impulso que les faltaba para crear su propia agencia de paseos en barco
O pai de Sharon deu-lhes o impulso que faltava para criar a própria agência de passeios de barcoGentileza Sharon

“As pessoas nos indicaram bastante, boca a boca, com bons comentários. Eu vendo online, recebo passageiros que nos escrevem no @ilhagrande.paravos, Moisés os leva no barco e eu gero conteúdo. Deus nos abençoou muito e o projeto só cresce”, garante Sharon e acrescenta: “Nós dois continuamos fazendo o trabalho que já fazíamos, mas para nós, nunca imaginamos ter um relacionamento, nem uma vida entre Argentina e Brasil”.

Sharon sente falta dos pais, “eu quero levá-los comigo” e Moisés quer ficar mais na Argentina. Os dois amam os dois países, nunca nos discriminaram nem lá nem cá, e desde que voltei com minha amiga em fevereiro de 2023, nunca mais nos separamos.

E, embora os dois pensem de forma diferente sobre casamento: “Ele diz que brasileiro não casa, que primeiro tem filhos; e eu lembro que, no relacionamento, o único brasileiro sou eu. Eu gostaria. Vamos ver o que acontece. Estamos super bem, muito agradecidos”, finaliza com um sorriso Sharon, relembrando que por mais que façam planos, a vida tem surpresas. Como esta que a trouxe ao amor.

Augusto Almeida

Sou jornalista e apaixonado por entender as histórias por trás dos acontecimentos. No Jornal O Diário, acompanho as principais notícias do Brasil e do mundo, com atenção especial aos temas que ganham destaque, geram debate e ajudam a explicar as mudanças do nosso dia a dia.