A música country do Brasil: o gênero centenário que tem milhões de fãs e que, com as tragédias de dois cantores, enlutou o país

30 de setembro de 2026

Se a bossa nova e o samba são as músicas embaixadoras do Brasil diante do mundo, por dentro, cresce uma expressão já centenária, que conta com milhões de adeptos. Daí a comoção que gera entre os brasileiros a perda de seus artistas mais famosos. Há cinco anos lamentaram a morte, em uma tragédia aérea, de uma de suas vozes mais jovens, Marília Mendonça, que, com apenas 26 anos, tornou‑se um estandarte das vozes femininas de um gênero tradicionalmente masculino. E nesta terça-feira, 22 de setembro, foram encontrados os restos do helicóptero em que viajava Geraldo Antônio de Carvalho (o “Ricky” do duo Rick & Renner), em uma área de mata da região montanhosa da Serra Catarinense, ao sul do Brasil. Faleceram o cantor e o restante dos passageiros e tripulantes.

Quando a notícia foi divulgada, o governador do estado de Tocantins decretou três dias de luto. Rick nasceu em Monte do Carmo, em dezembro de 1966. Trinta anos depois começou a cantar em bares com Ivair dos Reis Gonçalves (Renner) e, somente em 1991, conseguiram gravar seu primeiro álbum. Desde então iniciou uma carreira discográfica de 18 álbuns, dos quais venderam mais de 15 milhões de cópias, e uma vida de palco que lhes permitiu cantar para vários milhões de espectadores, em mais de três décadas. Embora a carreira do duo tenha passado por vários impasse, os retornos aos palcos mostravam que a fórmula permanecia intacta.

“A música sertaneja se despede de um de seus grandes nomes. Rick construiu uma trajetória marcada por grandes canções, composições e momentos que fizeram parte da vida de gerações. Hoje resta a nostalgia, mas também a certeza de que sua voz, sua obra e sua contribuição ao gênero perdurarão para sempre. Nossos pêsames a seus familiares, amigos e seguidores. Descanse em paz, Rick”, postaram de @sertanejooficiall.

O grupo ficou famoso com canções como “Ela é Demais” (do álbum Mil Vezes Cantarei). Além disso, Rick dedicou-se à composição musical e à produção discográfica de outros artistas, Zezé Di Camargo & Luciano, Chitãozinho & Xororó, Leandro & Leonardo.

No dia 6 de novembro de 2021, mais de 100.000 pessoas participaram das exéquias de Marília Mendonça. Um dia antes, o pequeno avião em que viajava para dar um show caiu perto da localidade de Caratinga, no estado brasileiro de Minas Gerais. Quatro pessoas a mais morreram com ela: seu produtor, seu tio, o piloto e o copiloto.

Marília havia dado um passo a mais naquela música centenária que era, é e talvez ainda seja, exclusividade dos brasileiros. Com apenas 26 anos, dava voz a canções que falavam de empoderamento. Embora fosse conhecida como a “rainha do sofrimento” e abordasse a temática mais convencional do gênero, também falava às meninas de sua geração. Inclusive, alguns chegaram a considerar o seu trabalho como uma nova corrente dentro do gênero, chamada “feminejo”.

Alguns a chamam de a “música country” do Brasil, talvez por seus chapéus e jaquetas que alguns de seus intérpretes usam. Sem dúvida, por suas origens em histórias rurais, porque não há relação com o folk norte‑americano. A música sertaneja tem seus próprios códigos, estruturas e nuances, muito referenciados em sua própria região.

Tradicionalmente era interpretada por duplas masculinas, mas é preciso reconhecer duplas mistas (Cascatinha & Inhana) e cantoras solo (Inezita Barroso) já no início de sua trajetória.

Tonico & Tinoco foram os intérpretes mais célebres da música sertaneja de raiz. Desde a publicação de Chico Mineiro em 1946, os irmãos João e José Perez tornaram‑se os grandes referenciais do gênero para todo o país. Realizaram mais de 40.000 apresentações e venderam 150 milhões de cópias de seus discos, sem terem saído do Brasil.

Com o passar dos anos, essa música entrou nos repertórios de artistas muito famosos, de outras vertentes. Roberto Carlos, por exemplo, gravou em 2010 um álbum de colaborações intitulado Emoções Sertanejas.

Devido ao fato de que mais de 75 por cento da música consumida no Brasil é em português, a sertaneja atual sustenta-se no gosto massivo, já que foi atualizada para os tempos atuais. Permite fusões que hoje a conectam, por exemplo, à música urbana (Agroplay, Sertanejo Urbano ou CountryBeat).

Augusto Almeida

Sou jornalista e apaixonado por entender as histórias por trás dos acontecimentos. No Jornal O Diário, acompanho as principais notícias do Brasil e do mundo, com atenção especial aos temas que ganham destaque, geram debate e ajudam a explicar as mudanças do nosso dia a dia.