Alguns eleitores brasileiros se sentem enganados pela revolução das fintechs

24 de setembro de 2026

“Nem mesmo pediram provas de que eu teria renda para pagá-lo”, afirmou essa funcionária brasileira de 30 anos.

Agora, quase todo o seu salário é destinado a pagar os 1500 dólares que ela deve no cartão de crédito, Queiros é uma das milhões de brasileiros presas em meio a um boom de empréstimos digitais que ampliou o acesso ao crédito, ao mesmo tempo em que expôs famílias vulneráveis a alguns dos custos de endividamento mais altos do mundo.

Segundo a Confederação Nacional do Comércio, 82% das famílias brasileiras — um número recorde — estão endividadas, e um terço encontra-se em atraso. Apesar de um mercado de trabalho sólido e de uma inflação em queda, os eleitores frustrados dizem que a situação econômica é uma de suas principais preocupações na frente das eleições gerais de outubro.

Em um relatório de julho, como parte de sua consulta anual com o Brasil, o Fundo Monetário Internacional destacou que grande parte do aumento da dívida das famílias brasileiras devia-se às faturas de cartão de crédito e aos empréstimos pessoais sem garantia, com as fintechs e os bancos digitais na vanguarda do boom de crédito.

“Essas instituições têm se dirigido cada vez mais a clientes de baixa renda”, disse Lauro Emílio González Farias, professor da Fundação Getulio Vargas de São Paulo, especializado em inclusão financeira. “Nós temos um modelo de crédito abusivo”.

A Nubank declarou em comunicado que não podia se pronunciar sobre o caso de Queiros devido às normas de privacidade, e acrescentou que as decisões de crédito levam em conta fatores como a dívida existente e a parcela da renda do cliente destinada ao pagamento.

O presidente de esquerda Luiz Inácio Lula da Silva e seu principal rival de direita na corrida presidencial deste ano, o senador Flávio Bolsonaro, propuseram medidas para frear a dívida das famílias, entre elas normas mais rígidas sobre as ofertas de crédito, embora ainda não esteja claro em que medida os empréstimos das fintechs seriam afetados.

“Hoje em dia você pode entrar em praticamente qualquer loja de varejo, incluindo lojas online, e já te oferecem um cartão de crédito na hora”, afirmou José Luiz Rodrigues, presidente da Abfintechs, uma associação do setor.

As instituições de crédito deveriam estar sujeitas a uma maior responsabilidade e utilizar tecnologia mais avançada para avaliar a capacidade de pagamento dos tomadores antes de conceder crédito, acrescentou. “Os reguladores precisam elevar o padrão”.

Os brasileiros tinham, em média, 6,7 relacionamentos bancários no fim de 2024, um dos níveis mais altos no mundo, segundo dados do Banco Central do Brasil.

CONSEQUÊNCIAS NÃO DESEJADAS

Há três anos, Queiros ainda tinha um empréstimo estudantil, mas nenhuma dívida de cartão de crédito quando a Nubank começou a aumentar o seu limite. Agora ela deve cinco vezes a sua renda mensal e foi obrigada a se mudar para morar com a mãe.

Queiros acumulou dívidas rapidamente, em parte porque o Brasil tem uma das taxas de juros mais altas do mundo em cartões de crédito, em torno de 440% para as linhas de crédito rotativo — os saldos que são prorrogados quando os consumidores não pagam o valor total da fatura — em contraste com aproximadamente 21% nos Estados Unidos.

Economistas há muito tempo atribuem essas taxas de juros extraordinariamente altas no Brasil às baixas taxas de recuperação de crédito, à limitada concorrência que tem predominado no setor bancário do país e a outros fatores.

Quando uma série de mudanças regulatórias na última década abriu as portas para o auge das fintech, os responsáveis políticos esperavam que o aumento da concorrência contribuísse para reduzir as taxas de juros oferecidas aos consumidores.

Mas essas esperanças não se materializaram, segundo especialistas e uma pessoa familiarizada com o pensamento dos reguladores na época.

As empresas fintech que entraram no setor competiram menos em termos de taxas de juros do que na concessão de crédito a consumidores que haviam encontrado dificuldades para obtê-lo, muitas vezes por meio de uma experiência digital simplificada.

Essa mudança coincidiu com a rápida digitalização dos serviços financeiros durante a pandemia de COVID-19 e com a expansão do Pix, o sistema de pagamentos instantâneos do Brasil, o que levou dezenas de milhões de brasileiros a abrirem contas bancárias pela primeira vez.

Agora, mais da metade dos 96 milhões de titulares de cartões de crédito do país possuem dívidas, e os pagamentos consomem em média 54% de sua renda.

“Muitas das pessoas que obtiveram acesso ao crédito não estavam necessariamente preparadas para gerenciá-lo”, afirmou uma pessoa familiarizada com a posição do banco central que não estava autorizada a falar publicamente.

Se somarmos a isso os esforços agressivos dos novos credores para ganhar espaço no mercado e uma taxa de juros de referência que atualmente está em 14%, “é a tempestade perfeita”, acrescentou essa pessoa.

Embora algumas fintechs ofereçam taxas de juros mais baixas em empréstimos sem garantia do que os bancos tradicionais, as taxas dos principais credores digitais que atendem tomadores de maior risco continuam entre as mais altas do mercado, atingindo 103,37% no Nubank, 178,69% no Mercado Crédito e 213,69% no PicPay, conforme dados do Banco Central no fim de agosto.

Em seus comunicados, Mercado Crédito —que faz parte da divisão fintech da MercadoLibre— e PicPay negaram contribuir para o super-endividamento e afirmaram que os limites de crédito de seus clientes aumentam com base no comportamento de pagamento. A Nubank acrescentou que seus resultados do segundo trimestre demonstram seu enfoque disciplinado na concessão de empréstimos.

Os empréstimos das fintechs também estão agravando a pressão da dívida das famílias na Argentina vizinha.

OS PAGAMENTOS PIORAM

A rápida expansão dos credores digitais no Brasil coincidiu com um forte deterioração das taxas de adimplência entre alguns de seus clientes.

Um estudo da Equifax BoaVista, empresa de análise de dados, revelou que a proporção de tomadores inadimplentes de cartões de crédito de neobancos aumentou para 20,31% em 2025, frente a 7,71% registrado em 2021. Em bancos tradicionais, esse número caiu de 14,57% para 13,6%.

“O principal fator por trás do aumento da inadimplência foi justamente o perfil desses tomadores, que são mais arriscados que os clientes dos bancos tradicionais”, afirmou Marcos Coque, diretor de análise da Equifax BoaVista.

O Banco Central do Brasil está estudando medidas para enfrentar a crise, e Lula relançou no começo deste ano um programa apoiado pelo Governo que permite aos consumidores refinanciarem suas dívidas a taxas mais favoráveis. No entanto, essa medida não conseguiu frear o aumento da inadimplência.

Mas para consumidores como Queiros, as medidas do Governo oferecem pouco alívio imediato.

Apesar de ter aceitado trabalhos extras e de continuar confiando que superará sua crise financeira, ela se sente envergonhada com a sua situação atual. “Minha mãe me ajuda como se eu fosse uma criança”, afirmou Queiros.

(Relatório de Victoria Pacheco e Igor Sodre em São Paulo e de Marcela Ayres em Brasília; edição de Paul Simao; Editado em Espanhol por Ricardo Figueroa)

Augusto Almeida

Sou jornalista e apaixonado por entender as histórias por trás dos acontecimentos. No Jornal O Diário, acompanho as principais notícias do Brasil e do mundo, com atenção especial aos temas que ganham destaque, geram debate e ajudam a explicar as mudanças do nosso dia a dia.