Quando Alison dos Santos, nesta quinta-feira, pulverizou em Zurique o recorde mundial dos 400 metros com barreiras (45,80), ganhou notoriedade no atletismo ainda antes de completar vinte anos e o público pensava que ele era mais velho. O motivo: cicatrizes muito visíveis na cabeça.
Muitos o confundiram no início com um caso de alopecia precoce e por isso a sua juventude surpreendia muita gente, até que se soube a sua história: com apenas dez meses de vida, um acidente doméstico com óleo fervente o manteve meses hospitalizado.
Nascido em São Joaquim da Barra, a pouco mais de 300 quilômetros de São Paulo, Alison dos Santos cresceu com os pais, Sueli e Gerson, mas passava também muito tempo na casa da avó Geli, onde ocorreu o episódio que mudou a vida dele.
A avó Geli estava a ferver óleo para fritar peixe e um descuido foi aproveitado pelo pequeno Alison para agarrar a panela com a torpeza da sua tenra idade. A avó tentou impedi-lo e os dois ficaram feridos com queimaduras de grande gravidade, que os mantiveram hospitalizados por muito tempo.
Foi internado no hospital de Barretos, onde Alison comemorou o seu primeiro aniversário.
Ainda criança, as sequelas do acidente, na forma de cicatrizes muito visíveis no couro cabeludo e com a ausência de cabelo em parte da cabeça, lhe provocaram um problema de timidez extrema e até de bullying.
Ele quase sempre era visto com um boné amarelo e buscou abrigo no judô, numa sala de esportes local, onde se sentia protegido.
“Eu amava aquilo, de verdade. Mas minha família não é rica, então era difícil”, contou mais tarde ao site World Athletics, explicando como praticar judô custava dinheiro aos seus pais.
– Novos amigos –
Como solução alternativa e com a ajuda de um amigo, Alexandre Inocêncio, o atletismo surgiu na cena e o ajudou a se mostrar mais e a tornar-se mais sociável.
“Esse ambiente, a amizade e o amor que encontrei naquela comunidade do atletismo são o que me ajudaram a superar tudo. Acredito que me salvou”, avaliou recentemente o próprio Alison dos Santos no podcast “Ready, Set, Go”.
Os frutos não demoraram a chegar e os resultados logo passaram a ser promissores.
No Mundial Sub-18 de 2017, no Quênia, ficou em quinto nos 400 metros com barreiras e um ano depois, no Sub-20 da Finlândia, já conquistou o bronze.
No Mundial absoluto de Doha já foi finalista nesta prova exigente e, após a pausa de competições causada pela pandemia, surgiu como um nome indispensável nos rankings e nas listas de favoritos.
Nos Jogos de Tóquio, conquistou o bronze com um tempo impressionante de 46,72 aos 21 anos, numa corrida histórica em que o norueguês Karsten Warholm bateu o recorde mundial (45,94), que permaneceu em vigor até esta quinta-feira.
Alison dos Santos teve 2022 como o ano da confirmação, vencendo no circuito da Liga Diamante e, sobretudo, sagrando-se campeão mundial (46,29) em Eugene (Estados Unidos).
– “Mais brasileiro” –
Mas uma lesão durante o treino em São Paulo mudou o rumo no início de 2023 e o tirou do trono, ao ter que passar por cirurgia para tratar o seu menisco lateral da perna direita.
O ano de 2024 foi o retorno dele à linha de frente, com mais uma medalha de bronze olímpica, desta vez em Paris, e em 2025 foi prata no Mundial de Tóquio, numa corrida na qual chegou a ouro por alguns momentos, antes de Rai Benjamin ser recalificado pelo júri.
O ano de 2026 tem sido o da confirmação definitiva dele, caso alguém ainda tenha dúvidas.
Na melhor forma física de sua vida, tem acumulado vitórias sobre Warholm na Liga Diamante.
No último domingo, em Chorzów (Polônia), surpreendeu o mundo ao vencer o norueguês com um visual novo, com o cabelo mais longo.
“Estou ficando mais velho e quero experimentar coisas diferentes”, disse após a prova, assegurando ter um objetivo: “Mostrar mais meu lado brasileiro e que a galera se divirta”.
Poucos dias depois, ele apareceu em Zurique com o cabelo preso em tranças e conseguiu divertir o público da melhor maneira, com um recorde mundial descomunal (45,80).