Alison dos Santos, o atleta que superou suas cicatrizes

6 de setembro de 2026

Quando Alison dos Santos, nesta quinta-feira, pulverizou em Zurique o recorde mundial dos 400 metros com barreiras (45,80), ganhou notoriedade no atletismo ainda antes de completar vinte anos e o público pensava que ele era mais velho. O motivo: cicatrizes muito visíveis na cabeça.

Muitos o confundiram no início com um caso de alopecia precoce e por isso a sua juventude surpreendia muita gente, até que se soube a sua história: com apenas dez meses de vida, um acidente doméstico com óleo fervente o manteve meses hospitalizado.

Nascido em São Joaquim da Barra, a pouco mais de 300 quilômetros de São Paulo, Alison dos Santos cresceu com os pais, Sueli e Gerson, mas passava também muito tempo na casa da avó Geli, onde ocorreu o episódio que mudou a vida dele.

A avó Geli estava a ferver óleo para fritar peixe e um descuido foi aproveitado pelo pequeno Alison para agarrar a panela com a torpeza da sua tenra idade. A avó tentou impedi-lo e os dois ficaram feridos com queimaduras de grande gravidade, que os mantiveram hospitalizados por muito tempo.

Foi internado no hospital de Barretos, onde Alison comemorou o seu primeiro aniversário.

Ainda criança, as sequelas do acidente, na forma de cicatrizes muito visíveis no couro cabeludo e com a ausência de cabelo em parte da cabeça, lhe provocaram um problema de timidez extrema e até de bullying.

Ele quase sempre era visto com um boné amarelo e buscou abrigo no judô, numa sala de esportes local, onde se sentia protegido.

“Eu amava aquilo, de verdade. Mas minha família não é rica, então era difícil”, contou mais tarde ao site World Athletics, explicando como praticar judô custava dinheiro aos seus pais.

– Novos amigos –

Como solução alternativa e com a ajuda de um amigo, Alexandre Inocêncio, o atletismo surgiu na cena e o ajudou a se mostrar mais e a tornar-se mais sociável.

“Esse ambiente, a amizade e o amor que encontrei naquela comunidade do atletismo são o que me ajudaram a superar tudo. Acredito que me salvou”, avaliou recentemente o próprio Alison dos Santos no podcast “Ready, Set, Go”.

Os frutos não demoraram a chegar e os resultados logo passaram a ser promissores.

No Mundial Sub-18 de 2017, no Quênia, ficou em quinto nos 400 metros com barreiras e um ano depois, no Sub-20 da Finlândia, já conquistou o bronze.

No Mundial absoluto de Doha já foi finalista nesta prova exigente e, após a pausa de competições causada pela pandemia, surgiu como um nome indispensável nos rankings e nas listas de favoritos.

Nos Jogos de Tóquio, conquistou o bronze com um tempo impressionante de 46,72 aos 21 anos, numa corrida histórica em que o norueguês Karsten Warholm bateu o recorde mundial (45,94), que permaneceu em vigor até esta quinta-feira.

Alison dos Santos teve 2022 como o ano da confirmação, vencendo no circuito da Liga Diamante e, sobretudo, sagrando-se campeão mundial (46,29) em Eugene (Estados Unidos).

– “Mais brasileiro” –

Mas uma lesão durante o treino em São Paulo mudou o rumo no início de 2023 e o tirou do trono, ao ter que passar por cirurgia para tratar o seu menisco lateral da perna direita.

O ano de 2024 foi o retorno dele à linha de frente, com mais uma medalha de bronze olímpica, desta vez em Paris, e em 2025 foi prata no Mundial de Tóquio, numa corrida na qual chegou a ouro por alguns momentos, antes de Rai Benjamin ser recalificado pelo júri.

O ano de 2026 tem sido o da confirmação definitiva dele, caso alguém ainda tenha dúvidas.

Na melhor forma física de sua vida, tem acumulado vitórias sobre Warholm na Liga Diamante.

No último domingo, em Chorzów (Polônia), surpreendeu o mundo ao vencer o norueguês com um visual novo, com o cabelo mais longo.

“Estou ficando mais velho e quero experimentar coisas diferentes”, disse após a prova, assegurando ter um objetivo: “Mostrar mais meu lado brasileiro e que a galera se divirta”.

Poucos dias depois, ele apareceu em Zurique com o cabelo preso em tranças e conseguiu divertir o público da melhor maneira, com um recorde mundial descomunal (45,80).

Augusto Almeida

Sou jornalista e apaixonado por entender as histórias por trás dos acontecimentos. No Jornal O Diário, acompanho as principais notícias do Brasil e do mundo, com atenção especial aos temas que ganham destaque, geram debate e ajudam a explicar as mudanças do nosso dia a dia.