Brasil: Lula e Bolsonaro trocam insultos, mas nenhum nocaute

22 de outubro de 2026

Os ataques mais duros chegarão na sexta-feira, no último confronto entre os dois candidatos na Globo TV. Resta saber se a estratégia para conquistar os últimos indecisos será a mesma: uma confrontação direta, por vezes quase violenta.

No debate de domingo, Lula, que completará 81 anos na próxima semana, resistiu às investidas de seu adversário. Vestido com um terno escuro e uma gravata com as cores da bandeira brasileira, o presidente mostrou-se apaixonado e enérgico, embora talvez menos preciso em suas intervenções. Desse modo, evitou o temido efeito Biden, em referência ao deterioramento que atingiu a imagem pública do ex-presidente norte-americano Joe Biden.

Flávio Bolsonaro, 36 anos mais jovem, apareceu com um terno azul-claro e sem gravata. Mostrou-se mais frio, direto, decidido e provocador, chegando a tocar na arrogância e na falta de cortesia. Sua estratégia consistiu em evitar responder às perguntas de seu adversário e irritá-lo enquanto caminhava atrás dele, abrindo os braços e fazendo gestos com o dedo.

Foi uma tática que Donald Trump já havia utilizado com sucesso no segundo debate televisivo da campanha presidencial dos Estados Unidos de 2016, realizado em 9 de outubro em St. Louis, quando caminhou e permaneceu repetidamente atrás de Hillary Clinton enquanto ela respondia às perguntas.

O estúdio do canal privado de televisão de São Paulo transformou-se rapidamente em ringue. “Aproxime-se”, disse Bolsonaro ao presidente que deixava o cargo. “Não me aproximo de um miliciano”, respondeu Lula, aludindo às acusações de vínculos de seu adversário com grupos armados do Rio de Janeiro. “Melhor assim, pelo menos não me rouba a carteira”, retrucou Bolsonaro.

Por quase duas horas, o confronto evidenciou as profundas diferenças políticas entre os candidatos, desde a segurança até a economia, bem como a hostilidade pessoal aberta que os separa.

O debate começou com acusações cruzadas de corrupção.

Bolsonaro atacou Lula ao mencionar o filho dele, conhecido como Lulinha, investigado em três processos por suposta corrupção. O presidente respondeu relembrando os conhecidos vínculos da família Bolsonaro com o banqueiro Vorcaro, preso por falência. Também atacou Eduardo Bolsonaro, irmão de Flávio, a quem acusou de ter “fugido para os Estados Unidos para conspirar contra o Brasil”.

Um dos intercâmbios mais difundidos pelas contas progressistas nas redes sociais girou em torno do voto dos presos. “Você já se perguntou por que 73% dos presos votam em você?”, atacou Flávio. “Eu gostaria que votassem em mim 100%. Também quero o voto do seu pai. Jair, vote em mim: você o conhece, sabe que sou melhor que seu filho”, respondeu Lula, em referência ao ex-presidente Jair Bolsonaro.

Os insultos continuaram. “Se há um palhaço, não sou eu”, disse Lula enquanto seu adversário o provocava por trás com gestos de desprezo.

“Defendes os terroristas. O Brasil vai te aposentar”, lançou o candidato opositor, alinhado com Trump.

“Você nunca subiu a um ônibus, nunca trabalhou um único dia na sua vida. Desafio você a mostrar suas contas bancárias; eu estou disposto a mostrar as minhas”, respondeu Lula.

A economia foi outro dos principais eixos de confronto. Lula perguntou a Flávio se, caso chegasse ao poder, revogaria a reforma que estabelece uma semana de trabalho mais curta. O candidato opositor não respondeu e voltou a acusar o governo de ter descontrolado as contas públicas.

“Somos um país endividado até o pescoço. O simples fato de eu ter vencido a primeira rodada fez as taxas caírem 2% e a Bolsa subir”, afirmou Bolsonaro.

Lula contra-atacou ao perguntar se adotaria o modelo da “serra elétrica” do presidente argentino, Javier Milei, cujo país historicamente não goza de grande simpatia entre os brasileiros.

“Lá as pessoas passam fome”, insistiu Lula.

“E que modelo você quer seguir?”, replicou seu adversário. “O modelo Lula, no qual a economia cresce e que permitiu colocar em prática o maior programa de inclusão social da história deste país”, respondeu o presidente.

Os analistas descreveram um público descontente com os insultos e um debate sem um vencedor claro. Enquanto isso, a campanha recomeça para entrar em sua fase final, com ambos os candidatos buscando o último voto indeciso.

Augusto Almeida

Sou jornalista e apaixonado por entender as histórias por trás dos acontecimentos. No Jornal O Diário, acompanho as principais notícias do Brasil e do mundo, com atenção especial aos temas que ganham destaque, geram debate e ajudam a explicar as mudanças do nosso dia a dia.