“Agradeço a generosidade de vocês e a forma como lutaram em defesa da democracia”, declarou pouco depois de conhecer o resultado, em uma São Paulo que já estava em festa.
A reação dos mercados foi bem diferente: a bolsa caiu quase 17%, o que levou à suspensão das operações.
Algo assim não ocorria desde 2020, durante a pandemia de covid-19.
A moeda brasileira também se afundou: o dólar disparou 12,04%, atingindo 5,597 reais. Além disso, o índice de risco país subiu 27%, um movimento que poderia encarecer o acesso do Brasil ao financiamento externo.
Analistas consideram que se trata de um “ajuste de posições” diante da grande surpresa eleitoral e não de um problema estrutural. De todo modo, Lula estaria avaliando designar seu vicepresidente, o moderado Geraldo Alckmin, para chefiar o Ministério da Economia, a fim de enviar um sinal tranquilizador à Faria Lima, o distrito financeiro de São Paulo.
A vitória da última grande figura da esquerda mundial foi extraordinária: Lula derrotou amplamente no segundo turno o candidato trumpista Flávio Bolsonaro e se confirmou pela quarta vez como presidente do Brasil. O resultado definitivo lhe concedeu 51,74% dos votos, frente aos 48,2% de seu rival, uma diferença consideravelmente superior ao empate técnico previsto antes das eleições.
No entanto, Bolsonaro não reconheceu a derrota e anunciou que solicitará a anulação das eleições. Em seu entender, a votação esteve viciada pela decisão de um juiz de estender por duas horas o horário de fechamento dos centros eleitorais, uma medida que ele mesmo também havia solicitado. Sua postura, que questiona a legitimidade do resultado, parece isolada no momento: o presidente do Tribunal Superior Eleitoral, designado por seu pai, ratificou a validade das eleições.
Tudo indica que se trata de uma iniciativa destinada ao fracasso, também pela diferença obtida por Lula.
O presidente eleito freou também o avanço da direita trumpista na América Latina. Depois de admitir que nunca teve um smartphone, também conseguiu impor-se à Meta e às suas interferências na campanha eleitoral. Sua vitória representa uma boa notícia para a comunidade LGBT, os direitos das minorias e dos povos indígenas, bem como para as políticas ambientais destinadas a proteger a Amazônia.
A vitória também é histórica por suas características: nunca antes um candidato havia ganho uma eleição presidencial no Brasil após ter perdido no primeiro turno. Também ninguém havia obtido tantos votos, mais de 64 milhões.
Por trás da vitória deste veterano marco do progressismo mundial esteve, sem dúvida, o forte aumento da participação eleitoral. A abstenção caiu dois pontos percentuais, um sinal de que Lula também conquistou o apoio de cidadãos que não haviam votado no primeiro turno, mas mudaram de ideia, possivelmente por temor de que outro Bolsonaro chegasse à presidência. Assim, o Brasil, o país com a maior população católica do mundo, não ficará pela primeira vez sob a liderança de um presidente evangélico.
A virada também foi resultado da mobilização popular, tanto nas ruas quanto nas redes sociais. Graças ao aporte de seu “exército” digital e à promoção de reformas sociais, como a semana de trabalho reduzida, Lula conseguiu reverter uma situação que parecia praticamente desesperadora: a noite do primeiro turno havia ficado cerca de dois milhões de votos atrás de seu adversário.
Bolsonaro estava convencido de que iria vencer e esperava somar os nove milhões de votos obtidos pelos candidatos eliminados no primeiro turno, todos da centro-direita. Mas, mais uma vez, o veterano líder derrotou outro Bolsonaro, depois de ter vencido Jair anteriormente.
Agora deverá governar um país com um Congresso dominado pela direita e cumprir as promessas de sua campanha eleitoral.
Também sabe que não terá outro mandato presidencial e que terá que lidar com a sucessão política.
Milhões de brasileiros tingiram de vermelho as praias de Copacabana, no Rio de Janeiro, e a avenida Paulista, em São Paulo, com suas camisetas, como se o Brasil tivesse vencido a sua sexta Copa do Mundo de futebol. Felizes e orgulhosos, fizeram com os dedos a letra “L”, símbolo de seu líder.