Os principais candidatos à presidência do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva e Flávio Bolsonaro, vão tentar convencer os eleitores a partir de sexta-feira por meio de anúncios gratuitos em canais de televisão e emissoras de rádio, que continuam desempenhando um papel fundamental na campanha, apesar do crescimento das redes sociais, segundo especialistas.
Mesmo em um país tão conectado à internet quanto o Brasil, os anúncios na televisão e no rádio continuam a definir o tema de conversa e podem influenciar os eleitores, já que chegam a cantos remotos do país.
Dado que o presidente Lula —que busca um quarto mandato não consecutivo— está atualmente empatado nas pesquisas com o senador Flávio Bolsonaro, filho do ex-presidente Jair Bolsonaro, o consultor político independente e ex-ministro brasileiro Thomas Traumann prevê que os anúncios serão extremamente beligerantes.
“Acredito que a campanha será mais suja do que a de 2022, e 2022 já foi uma das mais sujas da história brasileira”, afirmou Traumann, ao se referir à última eleição presidencial, quando Lula derrotou o ex-presidente Jair Bolsonaro —que atualmente cumpre uma sentença de 27 anos de prisão por tentativa de golpe de Estado— por uma margem mais estreita desde o retorno do Brasil à democracia em 1985.
Os anúncios de campanha na televisão e no rádio são um indicativo da proximidade das eleições, e colocam a disputa em primeiro plano na mente dos brasileiros.
Maria Izabel Pecanha, uma professora aposentada de história de 84 anos do Rio de Janeiro, comenta que muitos eleitores como ela não vão prestar atenção aos anúncios nas redes sociais e, em vez disso, vão assistir aos de rádio e televisão, como tem feito desde a década de 1950.
“Gosto de vê-los para me entusiasmar, para me irritar, para pensar em como os atores políticos do Brasil se apresentam. Sempre é muito instrutivo”, comentou Pecanha por telefone. “Já vi os de hoje e pretendo continuar assim até o final da campanha; é como ver um pouco da história se desenrolar”.
Diferentemente do que ocorre nos EUA, os anúncios de campanha no Brasil não possuem custo para os partidos, e o tempo no ar é distribuído de acordo com o tamanho da coalizão e a representação na Câmara dos Deputados.
A gratuidade dos anúncios “defende o princípio democrático de igualdade de tratamento, e significa que a quantidade de tempo que cada partido recebe não ficará determinada pelo poder econômico de cada partido”, afirmou Bruno Pompeu, professor de comunicação e publicidade na Universidade de São Paulo.
Com o passar dos anos, o tom, o estilo e a natureza desses espaços evoluíram. João Ricardo Matta, professor de negócios na Fundação Getulio Vargas, um centro de estudos e universidade, afirmou que o crescimento das redes sociais e seu jargão mais informal provavelmente influenciarão os anúncios de campanha nas plataformas mais tradicionais.
“Serão menos artificiais, mais naturais, com aparência de algo feito em casa”, comentou Matta, que também espera que fundos que tradicionalmente se destinavam à produção de anúncios de televisão e rádio sejam transferidos para materiais de campanha em redes sociais.
Antes da primeira rodada de votação em 4 de outubro, as emissoras devem reservar 14 minutos por dia para quase 1.000 anúncios de 30 segundos, além de blocos de 12 minutos e 30 segundos exclusivamente para os candidatos à presidência.
Desses blocos, Lula e os partidos aliados terão 5 minutos e 31 segundos, enquanto o partido do senador Flávio Bolsonaro ficará com 4 minutos e 20 segundos. O tempo restante será dividido entre outros dois partidos.
Que Flávio Bolsonaro tenha menos tempo que Lula ilustra que ele tem enfrentado dificuldades para angariar o apoio de outros partidos, afirmou Traumann, ao contrário de seu pai, que venceu em 2018.
Caso haja segundo turno, previsto para 25 de outubro, os dois candidatos remanescentes terão a mesma quantidade de tempo.
O jornalista da Associated Press, Mauricio Savarese, contribuiu para este despacho a partir de São Paulo.