Com a jornada de trabalho como bandeira, Lula busca recuperar terreno diante de Flávio Bolsonaro

14 de outubro de 2026

São Paulo – O presidente brasileiro, Luiz Inácio Lula da Silva, liderou neste domingo uma mobilização multitudinária na emblemática Avenida Paulista, em São Paulo, para defender a redução da jornada de trabalho e buscar impulso rumo ao segundo turno marcado para 25 de outubro, no qual enfrentará o senador de direita Flávio Bolsonaro, que ficou em primeiro lugar na votação de 4 de outubro.

Uma maré de manifestantes, entre bandeiras vermelhas do Partido dos Trabalhadores (PT), cartazes em defesa dos direitos trabalhistas e palavras de ordem contra o bolsonarismo, acompanhou o presidente por uma das principais artérias da maior cidade do país. Não havia estimativas independentes disponíveis sobre o número de participantes.

A duas semanas do segundo turno, Lula aposta em transformar a melhoria das condições de trabalho em um eixo central de sua campanha, na tentativa de reverter a vantagem obtida por seu adversário no primeiro turno. O presidente ficou em segundo lugar com 45,16% dos votos válidos, frente aos 47,03% de Flávio Bolsonaro, filho do ex-presidente Jair Bolsonaro.

“Bolsonaro tem que dizer se é a favor de que os trabalhadores descansem mais ou de que continuem trabalhando mais”, desafiou Lula antes de subir em um caminhão de som de onde falou para seus apoiadores.

O mandatário referia-se ao projeto conhecido como o fim da escala de trabalho 6×1, que estabelece seis dias de trabalho por um de descanso. A proposta que o governo defende prevê garantir dois dias de descanso remunerado por semana e reduzir de 44 para 40 horas o teto da jornada semanal, sem cortar salários.

O Senado prevê votar a iniciativa na quarta-feira, que já avançou na Câmara dos Deputados. No entanto, ainda não está assegurado que a base governista obtenha os apoios necessários para aprovа-la. Lula afirmou que o Partido Liberal (PL), a força de seu adversário, deverá deixar claro se apoia a reforma ou se opõe a ela.

“Flávio Bolsonaro classificou a proposta como ‘oportunista’ e sustentou que Lula busca obter retorno eleitoral com uma medida que, segundo o seu argumento, poderia ter promovido antes durante seu mandato. O senador defende uma alternativa baseada em maior flexibilidade nos acordos entre trabalhadores e empregadores.”

A campanha do presidente confia que o debate sobre a jornada de trabalho lhe permita conectar-se com os setores populares e os trabalhadores que expressam preocupação com a perda do poder aquisitivo, apesar de o desemprego estar em níveis historicamente baixos.

“Estou aqui para lutar pelos direitos que conquistamos e para que não haja retrocesso”, disse Robert Eduardo, trabalhador de uma empresa de serviços de saúde que participou da marcha.

O desafio de mobilizar os ausentes

Além de defender sua agenda social, Lula pediu a seus seguidores que redobrem os esforços para convencer os eleitores que não participaram do primeiro turno, quando a abstenção atingiu seu nível mais alto em décadas.

“Temos uma grande responsabilidade. Quase 30 milhões de pessoas não votaram”, afirmou o presidente diante da multidão, em um apelo dirigido especialmente aos jovens e aos brasileiros com mais de 70 anos, para quem o voto é opcional.

O ato contou com a presença do vice-presidente Geraldo Alckmin, do ex-ministro da Fazenda Fernando Haddad, da ex-ministra Marina Silva e outros dirigentes da coalizão oficialista. Também participaram os governadores da Bahia, Ceará e Piauí, os três reeleitos na primeira rodada, aos quais Lula pediu que intensifiquem o diálogo com os votantes.

São Paulo representa uma das principais preocupações da campanha governista. Lula obteve naquele estado quase um milhão de votos a menos do que nas eleições presidenciais de 2022, um recuo que seus colaboradores buscam compensar com o apoio de Alckmin, ex-governador de São Paulo, e de dirigentes com influência entre os setores moderados.

Por sua vez, o mandatário tentou responder a outra das principais preocupações do eleitorado: a segurança pública. “Para a classe trabalhadora, para a comunidade, para o território, proteção; para os criminosos, a prisão”, afirmou, e prometeu que, se for reeleito, o governo federal terá uma participação mais direta no combate ao crime.

Lula também antecipou que buscará impulsionar uma transformação tecnológica do país e reforçar as políticas de educação e desenvolvimento durante um eventual quarto mandato.

Cruce com a Justiça Eleitoral

A jornada também ficou marcada por uma disputa sobre a campanha digital. Lula criticou a decisão do presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Kassio Nunes Marques, de ordenar a suspensão do canal de WhatsApp “Exército de Lula”, que tem mais de três milhões de assinantes e é coordenado pelo deputado André Janones.

A equipe de Flávio Bolsonaro havia solicitado a medida, alegando que o canal utilizava mecanismos para amplificar conteúdos falsos e discursos de ódio. Nunes Marques justificou inicialmente a decisão pela difusão maciça e coordenada de publicações que o tribunal havia considerado falsas.

“Me parece absurdo”, respondeu Lula, que acusou a Justiça Eleitoral de adotar decisões parciais contra sua candidatura. No entanto, a ordem foi posteriormente suspensa e o canal voltou a ficar disponível.

Enquanto o presidente buscou mostrar capacidade de mobilização nas ruas, Flávio Bolsonaro desenvolveu sua própria agenda em São Paulo, com reuniões com prefeitos, vereadores e o governador Tarcísio de Freitas para consolidar apoios políticos e prometer mais recursos federais para combater a criminalidade.

Augusto Almeida

Sou jornalista e apaixonado por entender as histórias por trás dos acontecimentos. No Jornal O Diário, acompanho as principais notícias do Brasil e do mundo, com atenção especial aos temas que ganham destaque, geram debate e ajudam a explicar as mudanças do nosso dia a dia.