Diálogo e apoio ainda são as melhores formas de prevenção (Créditos: Felipe Faleiro)

Região – Difícil, repleto de tabus, porém, necessário. Falar sobre o suicídio requer mais do que apenas palavras, mas sim um trabalho emocional de valorização. O ato de encerrar a própria vida por conta própria, afinal, é visto por muitos como a última alternativa diante de uma situação considerada sem volta por quem o pratica.

Esta terça-feira, 10, é o Dia Mundial de Prevenção ao Suicídio. Uma data que muito mais conscientiza sobre a importância do salvamento de vidas, mas que também causa reflexão sobre as pessoas do entorno. Algumas questões de relevância neste sentido: é possível evitá-lo? O que fazer diante dos males extremos da alma que levam para este caminho?

“Falar é a melhor solução. Abordar o assunto faz com que a pessoa que está sofrendo se sinta acolhida e compreendida. Conversar sobre suicídio não estimula a pessoa a cometer o ato, pelo contrário, é uma forma de ajudar, prestar apoio e demonstrar que você está disponível para ela”, comenta a psiquiatra Ana Zanchet, que trabalha com o tema em Novo Hamburgo.

Impactos

A cada morte, conforme Ana, pelo menos seis pessoas são impactadas diretamente, eliminando um pensamento recorrente de que “os outros vão ser mais felizes sem mim” ou “eu sou um peso para os outros”. São frases, que, dependendo do contexto, soam como alertas, assim como “eu sou um perdedor” e “eu não aguento mais”.

As causas do suicídio variam de pessoa para pessoa, porém, há predisposições que podem influenciar um pensamento suicida em potencial. Entre eles, o uso de álcool ou drogas, histórico de perdas recentes e o isolamento social. “O fator de risco também aumenta em pessoas com transtornos mentais e histórico familiar de suicídio”, comenta a psiquiatra.

O suicídio pede ações urgentes, pois o problema ocorre a nível global. O preconceito também é outro fator que dificulta uma abordagem mais direta em relação ao assunto. “O estigma faz com que o adoecimento seja visto como fraqueza e impede as pessoas de buscarem ajuda”, comenta Ana.

Novo guia mostra formas de abordar o tema para jovens

No final de agosto, o governo do Estado lançou o Guia Intersetorial de Prevenção do Comportamento Suicida em Crianças e Adolescentes. O lançamento ocorreu junto à programação do Setembro Amarelo, mês de conscientização sobre o assunto. A publicação foi organizada pelo Comitê Estadual de Promoção da Vida e Prevenção do Suicídio do Estado do RS, criada em 2016.

A obra, disponível gratuitamente na Internet, é apoiada por Ministério Público, Cruz Vermelha, Centro de Valorização da Vida (CVV), Brigada Militar, Polícia Civil, Corpo de Bombeiros e Prefeituras, entre outros. Ela tem como principal objetivo orientar trabalhadores de órgãos a lidar com o problema nesta faixa etária.

“Nos demos conta de um aumento de casos de lesões autoprovocadas, mas estes números também são pela sensibilização maior dos profissionais em trabalhar para que haja estes dados epidemiológicos”, afirma a coordenadora do Comitê e especialista em Saúde do Centro Estadual de Vigilância em Saúde (Cevs/RS), Andréia Volkmer.

De acordo com ela, os adolescentes costumam repetir comportamentos de outros jovens, e as redes sociais auxiliam neste processo. O desafio, neste caso, é utilizar estas ferramentas para desenvolver, cada vez mais, ações de promoção da vida.

“O problema do suicídio existe no RS há décadas. Mas nosso maior recurso é o diálogo, e ele sempre será a melhor saída. As pessoas podem ler o guia e se preparar para trabalhar com os jovens, para que eles possam, no fim, contar o que está acontecendo. Temos que saber escutar e ser pessoas de confiança para que eles possam nos falar”, diz Andreia.