Em coletivos que seguiam para o bairro portenho de Retiro, neste domingo destacavam-se as chamativas camisetas amarelas com verde da seleção do Brasil. Nas cafeterias e restaurantes da região, o português se impunha por momentos sobre o espanhol.
Na rua Cerrito, nº 1300, milhares de brasileiros radicados em Buenos Aires votaram na embaixada do Brasil, em uma eleição que se previa acirrada: Luiz Inácio Lula da Silva busca seu quarto mandato, enquanto Flávio Bolsonaro, senador pelo Rio de Janeiro, quer continuar o legado de seu pai e ex-presidente Jair Bolsonaro, hoje preso por tentativa de golpe de Estado em 2022.
Cerca de 11.800 pessoas estavam habilitadas para votar nesta sede consular. Nos consulados de Paso de los Libres, Puerto Iguazú, Mendoza e Córdoba, o número de eleitores habilitados era bem menor: 41, 62, 236 e 926, respectivamente, confirmaram à LA NACION fontes diplomáticas.
Logo após as 19h, o Tribunal Eleitoral revelou que, em Buenos Aires, Lula venceu com 66% dos votos; Bolsonaro, por sua vez, obteve 27%.
Embora durante a tarde reinasse a ordem e a calma, pela manhã houve momentos de tensão quando simpatizantes de ambos os candidatos entoaram cantos. Além disso, a Polícia da Cidade deteve uma pessoa por “atentado e resistência à autoridade” em frente à embaixada. Os agentes intervieram diante da presença de pessoas que realizavam venda ambulante sem autorização e houve o confisco de bens. Foi nesse contexto que prenderam um homem por resistir à apreensão da mercadoria dos vendedores.
Ao longo da rua Cerrito, dezenas de barreiras organizavam a fila de eleitores que chegavam lentamente à porta da embaixada. A preferência por Lula era fortemente marcada na sede portenha: a maioria dos que aguardavam à tarde vestia, no mínimo, uma peça vermelha, símbolo dos simpatizantes do Partido dos Trabalhadores (PT).
“Quero que Lula continue com essas políticas públicas, ele pensa na educação, em manter as crianças na escola e investe nos planos de saúde pública”, disse à LA NACION Beatriz Carvallo, estudante de Medicina da Universidade Nacional de José C. Paz. Veio para a Argentina há cinco anos, vindo do Rio de Janeiro. “Espero que vença já no primeiro turno”, pediu.
Juliana Coelho Germán, de 29 anos, também estuda Medicina, uma carreira extremamente popular entre os brasileiros que emigram para a Argentina. “Tenho um pouco de medo [de que Bolsonaro vença]”, afirma a jovem nascida em Bauru, e limita-se a dizer sobre sua preferência: “Tenho a expectativa de seguir com o rumo que as coisas estão tomando”.
“Lula é povo”, insiste, por sua vez, Apoena Becquer, de 41 anos, empresária, enquanto faz fila para votar. “Aumentou a qualidade de vida dos brasileiros, ampliou as universidades e os centros de saúde. Eu acredito que Bolsonaro representa uma extrema direita que eu não apoio”, sustenta.
Felipe Fernándes Do Prado tem 30 anos, é de Minas Gerais e vive em Buenos Aires há nove anos. “Há muita gente que vota no Lula, mas eu votei no Renan Santos (Partido Missão) porque foi quem mais me convenceu; a pessoa deveria votar na que apresenta as melhores propostas. O governo deveria ser um gestor dos recursos do país e não um ideólogo”, diz, apontando contra Lula e Bolsonaro. Chamou Bolsonaro de “imbecil”.
E continua: “Há uma polarização alimentada há muitos anos pelo medo. Esses dois grupos extremistas alimentaram a ideia de que a esquerda é a Venezuela e que a direita é fascista, e é tudo mentira. Jair Bolsonaro tinha uma boa atitude no começo, quis fazer coisas boas, mas foi pressionado até que começou a cometer erros”.
Os eleitores de Lula, distinguidos por suas roupas vermelhas, contrastam com a ausência de qualquer elemento distintivo para demonstrar simpatia a Bolsonaro e a outros partidos. O restante optou por trajes neutros. “Votei no Flávio, mas prefiro não falar”, diz em voz baixa João S, que trabalha em tecnologia.
“Aqui todo mundo vota no Lula, mas eu não o quero e por isso votei em Bolsonaro. O governo de seu pai foi muito bom, aumentou a renda dos brasileiros. Não sei como governaria o filho dele, mas se vencer o Lula vamos ser a Venezuela”, assegura Lucas C., um advogado de 50 anos que reside na zona norte há 15 anos; veio ao país por motivos de trabalho.
“Hoje, com minha irmã, não votamos porque nossos pais vieram nos visitar diretamente do Brasil. Nós moramos em Rosario e dezenas de combis vieram a Buenos Aires para trazer estudantes brasileiros para votar”, disse à LA NACION Maria Victoria Campos (25), estudante de Medicina da Universidade Nacional de Rosario, radicada na Argentina há cinco anos.
Não é a primeira vez que predomina a preferência por Lula entre os brasileiros que vivem na Argentina. Nas eleições de 2022, o líder do PT arrasou com 63% dos votos, frente aos 29% que reuniu Jair Bolsonaro, que na época buscava a reeleição.
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Embora haja 11 candidatos adicionais à presidência, Lula e Bolsonaro são os favoritos. Embora ambos concentrem as preferências do eleitorado, nenhum deles conta com o suficiente caudal de votos para vencer em primeira rodada, segundo as últimas pesquisas. A segunda rodada estava prevista para o domingo 25 de outubro.