BRASÍLIA.— a quatro semanas das eleições, o epicentro da política brasileira não está nos atos de campanha, mas na Praça dos Três Poderes. Dois juízes do Supremo Tribunal Federal (STF) se acusam mutuamente de condutas delituosas, o procurador-geral da República pede anular uma investigação da Polícia Federal (PF) e o presidente do STF tenta conter uma fratura que salpica o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e seu principal adversário, o senador Flávio Bolsonaro.
O detonante são as derivações do caso Banco Master, a instituição liquidada em novembro de 2025 cujo ex-dono, Daniel Vorcaro, está preso pelo maior golpe bancário da história brasileira e entrelaçou uma rede de contatos que alcança juízes, autoridades e dirigentes de todo o arco político.
“É uma crise que não é de direita, nem de esquerda, nem de centro: é uma crise do sistema político brasileiro como um todo, e gera um impacto considerável no humor do eleitor”, disse à LA NACION Murilo Medeiros, politólogo da Universidade de Brasília.
Nesta semana, o juiz André Mendonça –designado por Bolsonaro e relator do caso desde fevereiro– levantou o segredo de um relatório da PF de 218 páginas sobre mensagens encontradas no celular do banqueiro. O documento mostra que Vorcaro perguntou ao juiz Alexandre de Moraes se deveria deixar o país dois dias antes de sua detenção e pediu interceder junto ao procurador-geral, Paulo Gonet, e ao chefe da PF, Andrei Rodrigues.
A PF também detectou que borradores de contratos no valor de 131 milhões de reais (cerca de 25 milhões de dólares) entre empresas de Vorcaro e o escritório da esposa do juiz, Viviane Barci de Moraes, foram modificados antes da assinatura por um usuário identificado como “Ministro Alexandre de Moraes”.
O juiz que ficou no centro da tempestade não é qualquer um. Moraes, considerado por muitos o mais poderoso do Brasil, conduziu os processos referente à tentativa de golpe de 8 de janeiro de 2023 e foi o relator da causa que terminou com a condenação de Jair Bolsonaro a 27 anos de prisão. Para o bolsonarismo é seu inimigo principal — Javier Milei o chamou de “lixo careca” em um ato de campanha de Flávio em São Paulo —, mas as questionamentos por abuso de autoridade e concentração de poder em seu gabinete chegam também do mundo jurídico e não apenas da ultradireita.
As mensagens reveladas nesta semana mostram um trato frequente, em que o banqueiro pedia a Moraes conselhos e informações. As respostas não permanecem: grande parte da conversa utilizava a visualização única do WhatsApp. Moraes nega irregularidades e sustenta que os relatórios de seu colega devem ser analisados à luz das regras processuais.
Mas a resposta dele não foi declarativa. O juiz pediu ao presidente do tribunal, Edson Fachin, que se investigue Mendonça por improbidade administrativa, abuso de autoridade e crime de responsabilidade. Acusa-o de romper a imparcialidade judicial para favorecer “determinados grupos políticos”. Ele se apoiou em relatórios de inteligência que ele próprio encomendou à PF e que seus críticos qualificam como apócrifos, porque não estão assinados.
Moraes não foi o único a reagir: a PGR pediu a extinção do procedimento aberto por Mendonça e questionou como se obtiveram essas informações. Gonet tem interesse próprio no andamento: ele também aparece citado nas mensagens de Vorcaro, e o Conselho Superior do Ministério Público abriu nesta semana um procedimento para analisar essas citações.
Arsenal eleitoral
O que está em jogo excede os protagonistas. “Mendonça concentra praticamente todo o arsenal eleitoral do país”, alertou Medeiros, que apontou que além do Master, ele tem sob sua relatoria as investigações de desvios no Instituto Nacional do Seguro Social e o caso que envolve corrupção e tráfico de influência de Lulinha, o filho do presidente.
Fachin tentou acalmar o fogo, no meio da crise interna. Abriu um procedimento próprio na presidência e concentrou ali os dois frontes: as acusações contra Moraes e as que este formulou contra Mendonça. Concedeu cinco dias para os envolvidos se explicarem e endureceu o tom: nenhuma autoridade está acima da Constituição, disse, e a resposta será “firme, proporcional e rigorosa”. “Não haverá precipitação, mas também não omissão”.
O PT na mira
Para o Partido dos Trabalhadores (PT), a crise não poderia chegar em pior momento, reconheceram à LA NACION fontes da campanha oficialista. Boa parte do eleitorado identifica Moraes como o escudo institucional do mandatário, e o temor do governo é que o choque entre juízes reacione o sentimento “anti-STF” na sociedade.
A associação do Executivo com o juiz tem várias frentes. Moraes presidia o Tribunal Superior Eleitoral que declarou inelegível Bolsonaro em 2023, e Lula transformou a suspensão das sanções que Washington lhe impôs em 2025 a Moraes e outras autoridades em uma condição de sua negociação com Donald Trump.
Diante dessa crise, Lula rompeu o silêncio com um vídeo gravado em seu gabinete. Chamou o enredo do Master de “o maior roubo da história do Brasil” e pediu investigações “sem blindagem para ninguém, caia quem caia”.
A crise estourou na véspera do ato mais importante do calendário bolsonarista: a mobilização que Flávio convocou para segunda-feira, feriado de 7 de setembro, na Avenida Paulista, em São Paulo, com uma nova consigna: “Fora Lula, Fora Moraes”.
“Vai ser um sinal de alerta, mas também um medidor da capacidade desse discurso antiinstituições de gerar movimento político”, afirmou Creomar de Souza, sócio-fundador da consultoria Dharma em Brasília.
As pesquisas
Segundo o Datafolha divulgado nesta semana, Lula mantém vantagem no primeiro turno (38% a 33%), mas o segundo turno mostra empate técnico: 46% a 44%, dentro da margem de erro. A sondagem também registrou a ascensão do médico e escritor Augusto Cury, que subiu de 2% para 8%. O trabalho de campo ocorreu antes de Moraes contra-atacar.
“Os dados ainda não capturam toda a intensidade do momento”, alertou De Souza. Antes do estouro, Flávio vinha perdendo fôlego frente a Cury.
Sua hipótese aponta para um segmento específico, o eleitor evangélico moderado, que rejeita Lula mas também não se entusiasma com Flávio. Na sexta-feira, Mendonça gravou um vídeo que não se dirigiu aos brasileiros em geral, mas aos seus “irmãos e irmãs” da igreja, para agradecer as orações e o apoio recebido.
“Não agradece a todos os cidadãos: agradece aos seus irmãos da igreja, e isso cria um vínculo de pertencimento”, interpretou De Souza. Aí está o custo real para Lula nesta crise, em um eleitorado que tem dificuldade de alcançar e que, se votar em Cury, tenderia a se inclinar por Flávio em um eventual segundo turno no dia 25 de outubro, apesar de o barro atingir os dois polos.
Em maio, The Intercept divulgou um áudio em que Flávio cobra de Vorcaro as parcelas atrasadas de uma doação de 24 milhões de dólares para produzir Dark Horse, o filme biográfico sobre seu pai. Para De Souza, aí está a vantagem real do opositor, e não é direta. Enquanto o país discute o Supremo, não discute esse áudio.
“Esta eleição também será uma disputa sobre o equilíbrio entre os poderes”, afirmou Medeiros, em relação à crise atual. Se o STF não enfrentar uma reforma mínima, avisou, “as urnas vão fazê-lo” promovendo candidatos que defendam a destituição de juízes.
Por dentro, porém, a saída mais provável não é o castigo mas a contenção. Concentrar os dois processos nas mãos do presidente da corte é, para De Souza, o máximo que o tribunal pode oferecer hoje. “Alcança? Provavelmente não. É possível? Provavelmente sim”, resumiu.
A quatro semanas da primeira rodada, o Brasil votará em meio ao que já se define como uma crise sem precedentes na história da República, com o árbitro para dirimir as diferenças do sistema tornando-se parte. O que começou como uma investigação sobre um banco quebrado pode terminar inclinando uma eleição.