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Hervalense que mora na Itália relata situação do país e faz alerta aos brasileiros

31/03/2020 - 17h00min

Atualizada em 31/03/2020 - 17h07min

Natural de Santa Maria do Herval, Lisane mora na Itália e está acompanhando de perto a situação pelo qual o país está passando (FOTO: arquivo pessoal)

Itália / Santa Maria do Herval – “O coronavirus é coisa séria, muito contagioso; não o subestimem”, alerta Maria Lisane Schuh. Ela, que é natural de Santa Maria do Herval, mora na Itália há algum tempo e viu de perto a pandemia assolar o país, causando milhares de mortes em pouco tempo.

Ela mora na cidade de Bologna, que fica entre Milão e Florença. É uma cidade universitária e um centro econômico importante. “As universidades, assim como as escolas, estão fazendo as atividades online. Aqui não tivemos tantos contágios e os cidadãos estão muito cientes que a situação é crítica e grave neste momento; todos estão se empenhando, respeitando as normativas do governo”, disse ela.

Em entrevista feita via e-mail, Lisane conta que ela, junto com sua família, adotou as normas de higiene aconselhadas pelo Ministério da Saúde local. “Estamos em casa, não saímos para nada a não ser ao supermercado e evitamos de ir com frequência. Quem volta do supermercado deixa os sapatos fora de casa, tira toda a roupa e coloca diretamente para lavar – pois o vírus pode ficar em tecidos por muito tempo – e logo tomamos banho”, destaca.

Além disso, outros cuidados importantes também são seguidos à risca, como higienizar constantemente os computadores e celulares assim como bolsa e manilhas de portas. “Temos também o cuidado de higienizar as mãos depois de apertar botões de elevadores e após usar carinhos de supermercados. A nossa rotina se resume em smartworking e nos ocupamos do nosso filho que estuda de casa”, completa.

Lisane mora com a família na cidade de Bologna, que fica entre Milão e Florença (FOTO: arquivo pessoal)

Situação grave

Lisane explica que a situação atual da Itália e, sucessivamente, em toda a Europa e provavelmente no resto do mundo, do ponto de vista econômico e social, é tida como a mais grave depois da Segunda Guerra Mundial. “As atividades produtivas e comercias foram fechadas com exceção daquelas ligadas ao setor alimentício e sanitário e continuará assim, provavelmente, por mais um mês”, conta.

Ela destaca que o momento atual é grave e muito delicado. “Ainda não conseguimos conter o contagio do vírus. O número de contagiados ainda está crescendo, têm pessoas positivas que estão contagiando outras muitas vezes sem saber pois ou não apresentam sintomas, ou os sintomas são leves”.

Falta de médicos

Assim como já está sendo noticiado, Lisane afirma que o sistema sanitário está no seu limite. “Faltam médicos e enfermeiros. Além disso todos os médicos aposentados foram convidados para tornarem à ativa”, explica.

 

População continuou com vida normal

Na Itália, o governo que inicialmente havia fechado as escolas no dia 25 de fevereiro foi obrigado a adotar medidas mais severas pois a população continuou a manter praticamente uma vida normal nas duas primeiras semanas. “Visto que isto levou a um elevado número de contagiados, o governo foi obrigado a adotar medidas mais drásticas, colocando o país em lockdown horizontal.

Quando a entrevista foi feita, no dia 28 de março, a Itália contabilizava 86 mil contagiados e mais de 9 mil mortos. Dentre as vítimas fatais, estavam 44 médicos. “Se continuar assim, daqui a pouco irão faltar leitos nas UTIs.  O governo está fazendo de tudo para recuperar estruturas hospitaleiras e fornecer novos leitos para os contagiados; não está medindo esforços para conter  a epidemia, adotando medidas sempre mais severas como a última do dia 24 de março, na qual a multa para quem é positivo e não respeita a quarentena  será de 400 a 5000 euros e prisão de 1 a 5 anos”, conta Lisane.

Até o final do dia de ontem, 30, a Itália contabilizava 11.591 mortos pelo Covid-19, além de 101.739 casos.

 

Campanha “Milão não Para”

“Com certeza a preocupação com o impacto econômico causa medo e incerteza; aqui não foi diferente. Uma parte importante da economia Italiana é baseada no turismo e o governo pensou primeiro  nas consequências econômicas”, disse ela, explicando que no país a epidemia teve dois epicentros: um na região de Veneto e o outro na Lombardia (região de Milão). “Na região de Veneto adotaram medidas preventivas como isolar a cidade e fazer testes num grande número de pessoas para identificar às positivas ao vírus que não apresentavam sintomas e, assim, conseguiram conter o contagio”.

Mas em relação à região de Milão, Lisane conta que não foram adotadas as mesmas medidas. Ao contrário, foi feita uma campanha que teve como nome ‘Milao não para’, incentivando as pessoas a manterem uma vida social normal”, disse, destacando que assim o vírus acabou se espalhando para outras regiões e, estas, sucessivamente foram definidas como zona vermelha – que há muitos contágios e no qual há controle para entrar e sair.

Dessa forma, Lisane atribui  ao fato do vírus ter sido subestimado e de não terem fechado o comercio imediatamente e mantido a população em casa na zona definida vermelha, como a “grande causa da propagação do vírus que, no início era em algumas regiões, agora se proliferou  em todo o pais”, ressalta.

Preocupação dos italianos era a mesma dos brasileiro

Hoje, há no Brasil uma divisão de opiniões, na qual, inclusive, existem discordâncias entre governos municipais, estaduais e o presidente Jair Bolsonaro: de um lado estão os que defendem a reabertura do comércio e das indústrias, preocupados com a economia; do outro, os que temem que, se isso acontecer, a epidemia se alastre ainda mais.

Lisane conta que os italianos, assim como o mundo, subestimaram completamente o vírus. “Nas primeiras semanas do fechamento das escolas as pessoas estavam preocupadas com as consequências econômicas. Se dizia que se tratava de uma gripe e que somente as pessoas mais idosas e com sistema imunológico comprometido eram a faixa de risco”, afirma, explicando que este tipo de informação levou a população a pensar que ficar em casa não era necessário. “Foi exatamente naquele período que o vírus se proliferou. Agora se sabe que ao menos 20% das pessoas que contraíram o vírus irão precisar de atendimento em UTI. A primeira pessoa diagnosticada aqui na Itália se trata de uma pessoa superesportiva que, inclusive, por frequentar academias e ter tido uma vida social ativa, proliferou muito o vírus”, explicou.

E depois? 

“Hoje se sabe que tudo poderia ter sido diferente se ações mais drásticas e eficazes tivessem sido tomadas no início da epidemia e, com certeza, o governo tem consciência disso.  Aqui na Itália se sabia muito pouco sobre o coronavírus, chegavam a nós somente as notícias da China e do grande número de contagiados na Coreia do Sul. Se sabia que tinha capacidade de contagiar uma população inteira ao mesmo tempo e se isso acontecesse o sistema sanitário entraria em colapso”, explica.

No Brasil 

Questionada se teme que o mesmo possa acontecer no Brasil, Lisane destaca que “sim, assim como pode acontecer e está acontecendo em outros países do mundo. Me preocupa e angustía muito pois o sistema sanitário brasileiro não tem condições de enfrentar uma epidemia com estas proporções”, lamenta ela.

Mensagem aos brasileiros

Lisane reitera as orientações que já estão sendo feitas pelo Ministério da Saúde brasileiro, e pede que as pessoas sejam solidárias e apoie associações que estão se empenhando no combate ao vírus. “Agora precisamos pensar em conter o contagio. Leiam, informem-se e aconselhem-se através das redes sociais. Apoiem o seu prefeito e governador e os incentivem a continuar adotando as medidas de reclusão sempre que estas tenham como objetivo o controle do contágio de uma região ou estado. Estas, por sua vez, deveriam ser acompanhadas de medidas, como controle de quem entra nesta região ou estado por via terrestre ou aérea, pois o vírus pode ser trazido novamente de um outro estado onde talvez não teve reclusão e por pessoas que vieram do exterior”, destaca, enfatizando que essas ações são muito importantes e talvez decisivas para conter a proliferação do vírus.