Lula apresentará na Assembleia Geral da ONU o que defenderá pelo Brasil e pelo mundo, caso permaneça no poder

21 de setembro de 2026

O presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, prepara-se para o que será sua última grande aparição em um evento internacional antes do primeiro turno das eleições presidenciais brasileiras, no domingo, 4 de outubro. O discurso do chefe de Estado brasileiro, que, como é tradição na Assembleia Geral das Nações Unidas, abrirá o encontro, está sendo preparado há semanas e deverá, segundo apurou a LA NACION junto a fontes oficiais, focalizar temas centrais das agendas internacional e nacional de seu governo, hoje inseparáveis. A saber: a defesa da soberania, da democracia, o combate ao crime organizado, a mudança climática e a necessidade de enfrentar com mais ênfase e eficácia os grandes conflitos globais, sobretudo as guerras na Ucrânia e no Oriente Médio.

Lula falará por volta de vinte minutos e dirá ao mundo o que ele entende que este deve observar com mais atenção neste momento. Assim, apresentará também o que se poderia esperar de seu quarto governo caso consiga a vitória nas urnas. O presidente do Brasil enviará mensagens sem citar nomes. Um dos principais destinatários, mas não o único, será o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, com quem Lula pode voltar a cruzar-se no prédio das Nações Unidas, já que o republicano será o segundo a discursar.

Não está prevista uma reunião bilateral entre ambos, mas pode ocorrer um breve encontro nos corredores das Nações Unidas, como aconteceu no ano passado. Aquele rápido cumprimento, relatado por Trump em seu discurso, Lula conseguiu acalmar as águas de tensões diplomáticas que persistem até hoje. Foi uma breve pausa.

O mundo que Lula descreverá nas Nações Unidas vive momentos de extrema tensão. O presidente criticará, confirmou a LA NACION, as tentativas de tutelar outros países por parte das grandes potências; tutelar e interferir em temas domésticos. É o que o Palácio do Planalto sustenta que a Casa Branca vem tentando fazer com o Brasil desde que Trump retornou ao poder.

Os exemplos são abundantes quando o tema surge em conversas com fontes oficiais brasileiras: a aplicação de tarifas comerciais acima da média em relação a outros países; a defesa de dirigentes políticos como o ex-presidente Jair Bolsonaro, condenado a 27 anos e três meses de prisão pelo Supremo Tribunal Federal (STF) por ter sido considerado culpado de liderar uma tentativa de golpe de Estado em 8 de janeiro de 2023; a tentativa de eliminar mecanismos financeiros amplamente utilizados no país, como o PIX; e as constantes críticas à política de segurança do Brasil, sobretudo na luta contra organizações criminosas que os Estados Unidos, neste ano, passaram a classificar como terroristas, como o Comando Vermelho (CV) e o Primeiro Comando da Capital (PCC).

Na semana passada, Trump enviou ao Congresso sua avaliação anual sobre as nações com maior trânsito e produção de drogas ilícitas. O documento provocou tensões com o México e no Brasil foi recebido com muita irritação. A presidente mexicana, Cláudia Sheinbaum, rejeitou veementemente as avaliações unilaterais do relatório norte-americano e exigiu a Washington que preste contas de forma recíproca, publicando o que seu próprio governo faz dentro dos Estados Unidos para deter a lavagem de dinheiro, a distribuição interna e o maciço contrabando ilegal de armas para o sul.

Em Brasília, os assessores internacionais de Lula consideram surpreendente a maneira como o Brasil e o México foram criticados, enquanto a Venezuela de Delcy Rodríguez sequer foi mencionada. O Departamento de Estado afirma no relatório que o Brasil não fez o suficiente para enfrentar o PCC e o CV, e não diz nem uma palavra sobre o crime organizado na Venezuela, país que até o ataque militar americano de 3 de janeiro deste ano era considerado um Estado nas mãos do crime organizado.

Agora, sob a tutela americana, a Venezuela é considerada uma nação que não integra a lista daquelas que “fracassaram de forma demonstrável” na luta contra o narcotráfico. Lula não ficará calado nas Nações Unidas.

Estendendo Pontes

Restabelecer as relações com os Estados Unidos é uma das principais prioridades do presidente brasileiro, caso ele conquiste um quarto mandato. Mais que uma prioridade, é um enorme desafio. Não está claro como esse objetivo poderia ser alcançado, mas é claro que se partirá de uma base sólida de defesa da soberania nacional.

Em Brasília, fontes diplomáticas reconhecem que o vínculo com o governo de Trump foi e continua sendo uma dor de cabeça que precisa ser enfrentada com novas estratégias de aproximação. Até agora, o governo de Lula não conseguiu estabelecer pontes eficientes em Washington e, em caso de vitória nas eleições, deverá repensar a relação. Espera-se uma mudança de embaixador, provavelmente acompanhada de uma substituição no Ministério das Relações Exteriores (Itamaraty).

Na capital brasileira é conhecido o desejo do chanceler Mauro Vieira de permanecer em seu cargo, mas fontes próximas a Lula afirmam que a tendência do presidente seria mudar a chefia do Itamaraty. As dificuldades no relacionamento com os Estados Unidos explicariam, se ocorrer, grande parte dessa decisão eventual.

E se Flávio Bolsonaro vencer as eleições? Esse cenário é cada vez mais citado em Brasília e gera preocupação no Itamaraty pela possibilidade de que seu irmão, Eduardo Bolsonaro, venha a ser o futuro chanceler do Brasil.

O ex-deputado foi condenado a 4 anos e 2 meses de prisão pelo crime de coerção no curso de um processo judicial. O STF definiu por unanimidade que o ex-parlamentar utilizou sua influência internacional para pressionar, ameaçar e tentar desestabilizar a Justiça brasileira com o objetivo de frear a condenação de seu pai. Este será um problema que Flávio Bolsonaro terá de enfrentar caso deseje, se vencer, atender aos desejos do irmão de nomeá-lo chanceler.

Existem outras opções na mesa consideradas por fontes do universo bolsonarista como mais “racionais e menos ideológicas”. Uma delas é a senadora Tereza Cristina (PP), que foi ministra da Agricultura durante o governo Bolsonaro. A senadora é bem vista até mesmo dentro do Itamaraty, onde seu nome inspira alívio entre a maioria dos diplomatas.

Há um debate interno, isso é claro, mas também é evidente que recompor a relação com os Estados Unidos seria mais fácil se Flávio Bolsonaro vencer. A dúvida reside no grau de submissão que um segundo governo da família Bolsonaro manteria em relação a Washington. Em um contexto no qual a Casa Branca voltou a tratar a América Latina como seu pátio dos fundos, sem rodeios, o Brasil é a joia da coroa.

Depois de recuperar a Colômbia com a vitória de Abelardo de la Espriella, dominar a Venezuela e ter fortes aliados na Argentina, Chile, Peru, Equador e Paraguai, se Trump recuperar influência no Brasil será um xeque-mate, mesmo que alguns dos presidentes de direita hoje no poder não tenham com o presidente americano um alinhamento automático e incondicional como o que exibe o presidente Javier Milei.

Que modelo Flávio Bolsonaro seguiria? A campanha dele afirma que não haverá “submissão”, que o candidato aprendeu com os erros do governo de seu pai e que teria uma política externa “pragmática e muito centrada em temas como comércio e investimentos”. Fala-se de boas relações com a China, a Índia, países asiáticos e com “todos que queiram manter relações com o Brasil”. Contudo, trata-se da família Bolsonaro e, para muitos, ainda é difícil imaginar uma guinada pragmática que exclua todo elemento ideológico, sobretudo na relação com os Estados Unidos.

Nas Nações Unidas, Lula apresentará ao Brasil e ao mundo a defesa que fará se permanecer no poder. Mas o futuro é incerto por estas bandas e tudo pode mudar em poucas semanas. Washington e o mundo observam o Brasil, cuja eleição presidencial terá repercussão global.

Augusto Almeida

Sou jornalista e apaixonado por entender as histórias por trás dos acontecimentos. No Jornal O Diário, acompanho as principais notícias do Brasil e do mundo, com atenção especial aos temas que ganham destaque, geram debate e ajudam a explicar as mudanças do nosso dia a dia.