Lula e Flávio Bolsonaro lançam exércitos digitais para conquistar o voto no Brasil

4 de outubro de 2026

Diante de uma disputa eleitoral acirrada, o presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva e seu adversário Flávio Bolsonaro lançaram exércitos digitais de voluntários para conquistar os eleitores pela internet, em uma escala sem precedentes no país sul-americano.

O presidente de esquerda e o senador de direita, empatados nas pesquisas para as eleições de 4 de outubro, lançaram, em tom belicoso, essas iniciativas de mobilização que mostram como as campanhas se deslocam cada vez mais das ruas para as redes sociais.

«Chegou a cavalaria. Venha fazer parte deste exército que vai mudar a história do nosso país», convidou Gustavo Gayer, um deputado aliado de Flávio Bolsonaro, ao apresentar a plataforma Direita Já (Derecha Ya).

A iniciativa lançada em julho consiste em uma página na web e em grupos de WhatsApp nos quais simpatizantes recebem diariamente “munição visual” para compartilhar em suas próprias redes.

Os usuários podem escolher os formatos que melhor se adequem à sua rede social preferida e conteúdos classificados em diferentes categorias.

A principal leva o título “Críticas ao PT”, o Partido dos Trabalhadores de Lula, com cerca de 200 publicações prontas para usar, sobre temas como a insegurança, o alto custo dos alimentos ou suspeitas de corrupção do governo.

Um único vídeo, que destaca inconsistências em algumas declarações do presidente, foi replicado por mais de 500 apoiadores, constatou a AFP.

A plataforma afirma ter gerado mais de 50 milhões de interações.

– Lutar “a partir do celular” –

Buscando um quarto mandato aos 80 anos, Lula também recorreu às suas próprias estratégias de recrutamento de voluntários.

“Vamos lutar do computador, do celular”, pediu em uma transmissão ao vivo com seus seguidores em setembro.

Através de grupos de WhatsApp, mais de 140.000 pessoas recebem “missões” diárias para reforçar a mensagem do presidente e compartilhar publicações que promovem as propostas do governo.

O objetivo de Lula é recuperar terreno nesse campo de batalha frente à direita, que costuma liderar nas redes, explicou o ministro da Secretaria-Geral da Presidência, Guilherme Boulos, no lançamento da iniciativa em junho.

“É preciso ter a humildade de reconhecê-lo. Frequentemente, nas disputas nas redes, eles têm saído ganhando”, afirmou em junho, no lançamento da iniciativa.

A estratégia reflete uma mudança no modelo tradicional de campanha, explica Arthur Ituassu, professor de Comunicação Política da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro.

Se antes o objetivo principal era “conseguir mais tempo de exposição na televisão”, hoje “as redes sociais são fundamentais”, afirma.

E acrescenta: “A mobilização busca alcançar o eleitor indeciso, que é quem vai decidir de fato a eleição”.

A tendência também se observa em campanhas mais modestas, como a do conservador Renan Santos.

Este lançou um aplicativo em que os seguidores ganham pontos e competem por posições em um ranking ao compartilhar seus conteúdos.

“Faço isso porque quero contribuir para a mudança do país”, explicou à AFP João Victor, um estudante universitário de 25 anos, que atualmente ocupa o primeiro lugar no ranking.

– “Nada de errado” –

A AFP tentou falar com simpatizantes de Lula e de Flávio Bolsonaro, mas eles não responderam ou se negaram a comentar alegando que não estavam fazendo “nada de errado”.

Ambos candidatos apresentaram denúncias ao Tribunal Superior Eleitoral, acusando-se mutuamente de usar essas iniciativas para contornar as normas e fomentar ataques online coordenados. O tribunal analisa atualmente as denúncias.

Ao serem consultadas pela AFP, as campanhas de Lula e Bolsonaro asseguraram que respeitam a lei eleitoral.

Nahomi Helena de Santana, advogada especializada em direito eleitoral, afirmou que a mobilização digital organizada poderia ser considerada ilegal se existisse uma “vantagem econômica” em troca das publicações ou se o conteúdo incluísse desinformação ou difamação.

Propagar esse tipo de conteúdo através de uma “rede organizada” poderia acarretar sanções severas, aponta a especialista.

Augusto Almeida

Sou jornalista e apaixonado por entender as histórias por trás dos acontecimentos. No Jornal O Diário, acompanho as principais notícias do Brasil e do mundo, com atenção especial aos temas que ganham destaque, geram debate e ajudam a explicar as mudanças do nosso dia a dia.