Mar das Pampas: como conseguiu ser indicado como um dos melhores vilarejos do mundo

24 de setembro de 2026

Quem já deixou para trás a linha reta da rodovia 11 para mergulhar no acesso a Mar de las Pampas experimenta uma suave descompressão física. É uma mudança de frequência. De repente, a rigidez do asfalto e a lógica da grade urbana desaparecem. As ruas daqui são de areia, sinuosas, sobem e descem ao ritmo da topografia original das dunas. Não há semáforos, não há pressa, não há calçadas de concreto. Este traçado errante não foi um capricho de paisagistas, mas uma promessa fundacional dos pioneiros: esperar o crescimento dos pinheiros antes de se atrever a abrir passagem pelas trilhas. Neste canto, a natureza sempre teve a palavra dominante.

A teimosia coletiva de preservar a escala humana acabou de receber uma visão de escala global. A Secretaria de Turismo da Nação escolheu a localidade como uma das oito vilas argentinas que representarão o país perante o júri do Turismo da ONU para obter o selo Melhores Aldeias Turísticas. A iniciativa das Nações Unidas evita os luxos padronizados do turismo tradicional; busca reconhecer destinos com menos de 15 mil habitantes que cuidem de sua identidade, adotem um estilo de vida respeitoso com o ambiente e protejam sua biodiversidade.

Mas na aldeia, a notícia não se vive com a distância dos despachos oficiais. “Isso não é um prêmio nem uma competição com outros lugares”, esclarece uma das moradoras que participou do processo desde o primeiro dia. “Nós o sentimos mais como uma validação de uma forma de trabalhar de forma positiva”, de uma identidade que escolhemos cuidar todos os dias, quando as luzes do verão se apagam e ficamos nós com a floresta.

Nos bastidores de Mar de las Pampas houve o calor do que se tece à mão. A faísca foi acesa por um vizinho que levou a proposta à comunidade. A partir de então, a ideia começou a se espalhar de boca em boca, de casa em casa, convocando reuniões informais. As salas de estar começaram a ficar pequenas e foi preciso passar a reuniões em locais e bares que a comunidade propunha.

Quem participou lembra que foi uma das iniciativas que, de maneira mais rápida e uniforme, conseguiu a aceitação de toda a comunidade; não houve discussões eternas nem fissuras ao defender o território comum. Àquele impulso cívico, depois, somou-se a equipe técnica da Secretaria de Turismo de Villa Gesell para ajudar a transferir essa cotidiano para um documento de quase cem páginas cheio de mapas, fotos e registros.

Mas a verdadeira bússola esteve em vasculhar a memória coletiva do povo. Aos encontros começaram a chegar pastas cheias de recortes de jornais velhos, fotos de época e documentos históricos que resgatavam o passado da aldeia. Ao revisar esses papéis, a conclusão foi unânime: o eixo central, o conceito de “viver sem pressa”, não era uma invenção recente nem um slogan de marketing de verão. “Não começamos do zero, isso já estava feito”, repetem os vizinhos. Só era preciso organizar o material, dar forma e recuperar aquele caminho que os pioneiros já haviam traçado.

Hoje, viver sem pressa não é apenas uma declaração de intenções; foi declarado Patrimônio Cultural Imaterial do município. Funciona como um pacto existencial que convida a ensaiar um andar lento, sintonizado com o pulso das marés e o ranger das agulhas dos pinheiros sob os pés. É a busca por uma vida mais humana, onde o tempo deixa de ser uma tirania produtiva para se transformar em um espaço de contemplação.

Guardiões da linha costeira

O que este recanto de bosque defende frente ao mar? A resposta se desdobra em uma sólida rede de patrimônios naturais que os marpampeanos protegem frente às lógicas de desenvolvimento imobiliário tradicional. Em termos ecológicos, a localidade funciona como um escudo verde essencial: limita-se diretamente com as paisagens agrestes da Reserva Natural Municipal Faro Querandí e sustenta uma faixa litorânea estritamente protegida destinada a conservar intacto o ecossistema das dunas costeiras.

Manter este fronte costeiro livre de cimento é, talvez, a grande vitória silenciosa do povo. Ao contrário de outros balneários da província que nivelaram suas praias e construíram avenidas costeiras ou paredões sobre a areia, Mar de las Pampas preservou seus médanos vivos e intactos. Essas imensas formações funcionam como uma barreira de defesa natural contra as sudestadas e a erosão do oceano, mas também cumprem um papel vital e muito menos visível: atuam como um gigantesco filtro que recebe a água da chuva e alimenta diretamente as napas freáticas, o único recurso hídrico do qual a comunidade se abastece.

Entender que a praia não é um espaço a pavimentar, mas um organismo vivo que precisa se mover, mudar de forma e respirar ao ritmo do vento, é o coração da postura ambiental da aldeia. Para o visitante, o impacto dessa decisão é imediato: chegar ao mar não implica atravessar uma rua, mas caminhar entre a areia selvagem, subindo e descendo as dunas.

Para que a mística do lugar não se desvanecer diante do avanço do cimento, o setor privado e o Estado precisaram concordar com regras de jogo muito claras. A atividade comercial está regida por ordenanças pioneiras, como a norma 1958, que impõe exigências de integração paisagística e arquitetônica estritas para que os comércios gastronômicos e espaços de passeio jamais concorram visualmente com a altura e a densidade do bosque. Comércios e hotéis têm a obrigação de se adaptar ao entorno, priorizando materiais como madeira e pedra, e respeitando a localização de cada árvore. A premissa é que a arquitetura seja um convidado silencioso e respeitoso, nunca um invasor.

Assim, chega às portas da ONU para testemunhar que outra forma de entender o turismo e o desenvolvimento é possível. O selo das Nações Unidas poderia consolidar um farol na costa da província de Buenos Aires; mas no coração de seus vizinhos, o verdadeiro triunfo já se respira toda tarde, quando o sol se pôs atrás dos pinheiros e o tempo parece parar.

Augusto Almeida

Sou jornalista e apaixonado por entender as histórias por trás dos acontecimentos. No Jornal O Diário, acompanho as principais notícias do Brasil e do mundo, com atenção especial aos temas que ganham destaque, geram debate e ajudam a explicar as mudanças do nosso dia a dia.