Mendiolaza: o destino da serra onde a gastronomia é saboreada sem pressa

8 de setembro de 2026

A a poucos quilômetros da cidade de Córdoba, a paisagem se enche de montanhas, ar puro da serra e riachos. Mas alguns destinos, além de sua riqueza natural, acrescentaram propostas que ampliam a experiência do visitante.

Mendiolaza, a cerca de 40 minutos, foi uma área de descanso e veraneio de famílias cordobesas no século XX. Muitas a escolhiam para construir casas de fim de semana pela tranquilidade e pela proximidade. Com o passar do tempo, começou a crescer exponencialmente e deixou de ser uma vila rural para tornar-se uma cidade.

Hoje estima-se que a população ultrapassa os 20.000 habitantes, sendo um dos lugares das Serras Chicas mais escolhidos pelos cordobeses para morar. Junto a isso também começou a se consolidar como um destino gastronômico. Em algumas quadras convivem casas de chá, cozinhas a lenha, restaurantes tradicionais e novos projetos que convidam a escapar para um almoço ou uma noite sem se afastar muito de Córdoba.

Apesar de seu crescimento exponencial, Mendiolaza tem algo especial: andar por suas ruas ainda transmite a sensação de estar no meio das serras. “Eu acho que mantemos um pouco daquela alma de povo e que gostamos disso de que aqui as distâncias são curtas”, conta Paloma Santillan, a alma por trás da Moma, uma pastelaria e casa de chá que funciona no centro histórico.

Entrar neste lugar é como chegar em casa depois de várias horas em pleno julho: as janelas enormes que deixam entrar o sol, as paredes brancas de tijolos, a cozinha à vista e um aroma de forno aceso que te abraça. Na Moma tudo é artesanal: desde as reduções que vão nos bolos até as geleias que acompanham o pão caseiro. Os croissants estalam na primeira mordida, rolos de canela se desmancham na boca e os sanduíches chegam à mesa com o tostado no ponto.

“Eu estava na escola quando surgiu este projeto. Tinha muito tempo livre e meu hobby sempre foi cozinhar”, explica. Algumas das receitas estão escritas em itálico, à mão pela avó, outras se inspiraram no primeiro livro de culinária que o pai lhe deu aos 8 anos e várias mais devem ter resultado das milhares de preparações que Ramiro Grunwaldt, seu namorado e sócio, experimentou. Ele cuida de todo o bastidores da confeitaria: desde fechar com fornecedores para melhorar a matéria-prima até encontrar novos clientes atacadistas.

A história de Paloma é especial, assim como o lugar onde funciona seu projeto. Trata-se de uma casa antiga de 1923 que foi reformada pela mãe dela com o objetivo de criar um espaço de encontro para Mendiolaza. “Quando começamos a obra, a premissa foi resguardar o teto, as paredes e transformar o pátio em um espaço de encontro”, explica Laura Aguilar e detalha que a figueira que está no local é a que deu o nome ao lugar. No Espaço La Higuera não funciona apenas a Moma, mas também um armazém natural e uma loja de roupas de design.

Um lugar com cozinha a lenha e noites de karaokê

A cerca de 700 metros deste lugar, caminhando por ruelas de terra, chega-se à Pedernal Estancia de Fuegos, outro dos projetos que estão revitalizando Mendiolaza. Trata-se de um restaurante de fogos que oferece pratos abundantes com um toque gourmet e que funciona em uma casa antiga que costumava pertencer a uma das famílias mais importantes da província.

“A primeira vez que passei pela frente foi em 2024 e, desde então, imaginei aquele lugar para poder realizar meu sonho de empreender com um restaurante”, conta Carlos Reina, mais conhecido como Charli, que decidiu deixar seu emprego estável em um banco aos 40 anos para se lançar no desafio de ter o próprio negócio.

Pedernal, antes de ser restaurante, se chamou “Verde esperança” e foi a casa de uma família onde aconteciam grandes encontros entre artistas, reuniões de família e até encontros de pólo de todo o país. Esse espírito de convocar e reunir é o mesmo que hoje se mantém no restaurante, que ao meio-dia recebe famílias que gostam do parque e das brincadeiras para crianças. O fogo está sempre presente. Há carnes na brasa, peixes, vegetais e massas que passam pelo forno de barro, pelo disco ou pela grelha.

À noite, casais e grupos de amigos desfrutam de uma proposta que vai muito além dos sabores. “Temos muitas ideias como bandas ao vivo, jantares show, jantares temáticos, cafés da manhã e merendas com atividades recreativas que queremos ir incorporando”, diz. Uma vez por mês convidam La Ducha, uma banda que combina música ao vivo e karaokê onde o público se torna parte do espetáculo.

O projeto já tem sete meses e já se tornou um lugar muito procurado para almoçar ou jantar nas Serras Chicas. “Acho que não escolhemos Mendiolaza para este empreendimento; Mendiolaza nos escolheu. É uma cidade, mas continua mantendo o calor e a beleza de uma vila. É o lugar perfeito para escapar para uma caminhada nos fins de semana, apreciar o ar de suas serras, bem perto de Córdoba”, finaliza.

O clássico que abriu o caminho e hoje continua vigente

Muito antes de Mendiolaza começar a soar como destino gastronômico, havia um lugar que já reunia famílias ao redor do forno de barro e da grelha. Calasanz, localizado em uma das esquinas mais conhecidas do centro histórico, tem mais de 23 anos com as portas abertas de forma ininterrupta e faz parte da essência gastronômica.

Trata-se de um espaço de cozinha crioula que abriu suas portas em uma casa antiga que antes era armazém de secos e molhados e casa de família. Também é uma nova etapa de um projeto gastronômico que já funcionava no mesmo lugar chamado Raíz. “Quando esta casa começou a funcionar como restaurante, a gastronomia da região ainda era algo inexplorado”, explica Milagros Agüero, que hoje está por trás do projeto junto com seu parceiro Gonzalo Castellanos.

No início, os protagonistas da cozinha eram o forno de barro, a grelha e os sabores tradicionais argentinos. Também as batatas em creme, um clássico desta esquina de Mendiolaza, servidas em uma travessa de barro bem quente: o pão caseiro recém-assado, as empanadas e as panquecas gratinadas. Hoje seguem sendo os mesmos, mas com um plus: um vínculo com as pessoas que pôde permanecer e cuidar por mais de 20 anos.

“Ao longo desses anos vimos a proposta gastronômica da região crescer muito. Cada vez há mais qualidade, mais variedade e mais gente que escolhe vir às Serras Chicas para desfrutar de um bom restaurante. Nós tentamos contribuir para esse crescimento mantendo uma proposta baseada no fogo, no forno de barro e numa cozinha que respeita a tradição, mas que também busca evoluir”, acrescenta Milagros.

Talvez uma das razões pelas quais cada vez mais pessoas escolhem Mendiolaza para uma escapada gastronômica seja o ritmo que o destino propõe. Quem chega aqui tem um único objetivo: escolher um lugar para comer e deixar o tempo passar. Desfrutar de cada prato, estender a sobremesa e, uma vez terminado o ritual, voltar para casa.

“Acho que o grande diferencial é que ainda é um lugar onde se pode vir para desfrutar sem a pressa da cidade, com um entorno serrano muito cuidado e uma sensação de tranquilidade que se percebe assim que você chega. Isso também influencia a gastronomia. As pessoas chegam com outra predisposição: tiram o tempo para compartilhar uma mesa, conversar e desfrutar de uma refeição sem olhar para o relógio”, finaliza.

Em Mendiolaza, a gastronomia parece ter encontrado o mesmo ritmo das serras que a cercam. Entre fornos de barro, pátios sombreados, cozinhas a fogo e casas recuperadas, o destino construiu uma identidade própria que convida a fazer algo cada vez mais difícil: viajar alguns poucos quilômetros, sentar-se à mesa e esquecer o relógio por um tempo.

Augusto Almeida

Sou jornalista e apaixonado por entender as histórias por trás dos acontecimentos. No Jornal O Diário, acompanho as principais notícias do Brasil e do mundo, com atenção especial aos temas que ganham destaque, geram debate e ajudam a explicar as mudanças do nosso dia a dia.