Na Amazônia brasileira, o petróleo alimenta sonhos e temores

23 de setembro de 2026

O cacique indígena Wagner Karipuna observa, preocupado, o rio que atravessa sua aldeia na floresta amazônica, no extremo norte do Brasil: teme uma “desgraça imensa” caso ocorra uma maré negra de petróleo.

A aldeia Mangá fica a cerca de 20 quilômetros do centro de Oiapoque, uma cidade fronteiriça com a Guiana Francesa que vive um momento de efervescência desde que, há um ano, a gigante Petrobras iniciou ali sua exploração offshore.

A comoção aumentou depois que a petrolífera estatal brasileira anunciou em agosto ter identificado a presença de hidrocarbonetos em seu primeiro poço, a 175 km da costa. Não muito longe dali, a Guiana e o Suriname exploram há anos vastas reservas.

O presidente de esquerda Luiz Inácio Lula da Silva, que busca a reeleição em outubro, deslocou-se imediatamente ao local e celebrou esse petróleo como um “passaporte para o futuro”.

Para chegar a Oiapoque é preciso percorrer cerca de 600 km desde Macapá, capital do estado do Amapá, parte deles por uma estrada de terra vermelha com pontes de madeira.

Muitas ruas não têm calçadas e são ladeadas por prédios baixos com fachadas frequentemente deterioradas.

– “Decepcionado” com Lula –

Embora muitos moradores de Oiapoque demonstrem entusiasmo ao imaginar benefícios econômicos, Wagner Karipuna parece preocupado.

“Se ocorrer um derramamento, com certeza isso vai nos afetar. A água não tem fronteira”, afirma o cacique, de 57 anos.

Ele se imagina vivendo um pesadelo: manchas de petróleo arrastadas pela maré até o rio Curipi, que banha sua aldeia de 1800 habitantes.

A Petrobras afirma que suas análises “não indicam a probabilidade” de que o petróleo “chegue ao litoral em caso de derramamento”.

“É um risco de baixa probabilidade, mas de consequências potencialmente altas”, sustenta.

Wagner Karipuna diz estar “decepcionado” com Lula, que se apresenta como defensor do meio ambiente e dos povos originários.

Para o atual presidente, o dinheiro do petróleo permitirá financiar a transição energética.

O cacique diz que “já se sente o impacto”, ao se referir ao “barulho de helicópteros e de aviões todos os dias”, que afasta a fauna.

Suas preocupações são compartilhadas por Joelso Mendonça, vice-presidente de um grupo de cerca de 400 pescadores tradicionais da região.

“Se houver um derramamento, ninguém vai querer comprar peixe de uma área afetada pelo petróleo”, teme esse homem de 50 anos, que ajusta sua rede em uma cabana sobre estacas às margens do rio.

Quanto ao tráfego aéreo, a empresa diz ter feito “ajustes” após reuniões com os líderes indígenas.

– “Começar do zero” –

Se para alguns o petróleo parece uma maldição, para Jacqueline Cadete é uma “señal de Deus”.

Essa pastora evangélica de 45 anos mudou-se desde o final de 2025 para um dos novos bairros de Oiapoque.

Diz estar atraída pelas “oportunidades” ligadas ao petróleo, depois de ter morado muito tempo fora do Brasil, na Guiana Francesa e na França.

Segundo um estudo do Observatório Nacional da Indústria, no Amapá poderiam ser criados mais de 50.000 empregos.

E as roy alties que a Petrobras deverá pagar às administrações locais representarão um montante considerável.

A presidente da empresa, Magda Chambriard, anunciou, no entanto, em agosto que a produção não deve começar antes de “seis ou sete anos”.

Enquanto isso, o prefeito Inácio Monteiro Maciel declara-se “muito otimista” quanto ao futuro, embora admita que terá que “praticamente começar tudo do zero” em termos de infraestrutura e políticas sociais.

Mais da metade dos cerca de 28.000 habitantes registrados no censo de 2022 recebe o Bolsa Família, subsídio destinado às famílias mais pobres.

Mas a cidade tem registrado um afluxo de novos moradores nos últimos anos, que se “intensificou” desde que a Petrobras iniciou sua perfuração, diz o prefeito.

Segundo suas estimativas, entre 40.000 e 45.000 pessoas já vivem em Oiapoque.

– Novo Dubai? –

O prefeito também menciona a “especulação imobiliária” que obriga várias famílias a deixar o centro da cidade para se estabelecerem nos novos bairros periféricos.

Em um bairro batizado de Nova Conquista, Thais Pereira de Souza, 32 anos, vive em uma casa minúscula com teto de chapa, sem água nem energia elétrica, ao lado do marido, de seus dois filhos e da nora grávida.

Eles se amontoam em um quarto com dois colchões e duas redes, depois de não conseguir mais “pagar o aluguel” do apartamento no centro.

Ela espera que “a vida melhore” graças ao petróleo.

Lilma Campos, presidente da Associação Comercial e Industrial de Oiapoque (ACOI), prevê uma “mudança radical” mas prefere manter os pés no chão.

“Só porque encontraram petróleo, circula a ideia de que isso vai ser o novo Dubai. Não sabemos se isso realmente vai ocorrer”

Augusto Almeida

Sou jornalista e apaixonado por entender as histórias por trás dos acontecimentos. No Jornal O Diário, acompanho as principais notícias do Brasil e do mundo, com atenção especial aos temas que ganham destaque, geram debate e ajudam a explicar as mudanças do nosso dia a dia.