Na Amazônia, povos indígenas votam em Lula e se preocupam com o El Niño

6 de outubro de 2026

“É importante escolher um candidato que defenda a natureza”, diz o chefe da comunidade indígena amazônica de Três Unidos, Waldemir da Silva, para explicar seu voto em Lula nas eleições presidenciais brasileiras.

Situado às margens do Rio Negro, um dos principais afluentes do Amazonas, seu povo de 120 habitantes da tribo Kambeba tem sofrido muito nas últimas semanas com a fumaça dos incêndios florestais.

E Silva teme que a situação piore com o fenômeno El Niño, que se anuncia particularmente severo neste ano no Brasil.

Do seu lado, Tatiane Costa, de 38 anos, está preocupada com a filha, que estuda em Manaus, a maior metrópole amazônica, que no mês passado ficou coberta por vários dias por uma nuvem de fumaça densa.

“Ela me ligou para dizer que queria voltar à aldeia porque havia inalado muita fumaça”, relata.

No domingo, os habitantes da comunidade Três Unidos tiveram que percorrer dez minutos de barco para votar em um povoado vizinho.

No trajeto, vários formaram a letra “L” com a mão para mostrar seu apoio ao candidato à presidência Luiz Inácio Lula da Silva diante de seu rival conservador, Flávio Bolsonaro.

– “Força do Jaguar” –

Na véspera das eleições, Waldemir da Silva organizou um ritual, com cantos, danças e maracas, para dar ao Lula, de esquerda, “a coragem e a força do jaguar”.

Lula conta com amplo apoio dos povos indígenas. No início de seu terceiro mandato, em 2023, criou o Ministério dos Povos Indígenas.

Também retomou a delimitação de reservas indígenas, interrompida durante o mandato de seu predecessor de ultradireita Jair Bolsonaro (2019-2022), pai de Flávio Bolsonaro.

Durante o governo de Jair Bolsonaro, a desmatamento aumentou fortemente na Amazônia.

Seu filho prometeu contê-lo, embora seu apoio ao agronegócio gere dúvidas sobre seu cumprimento.

A família Bolsonaro “é uma ameaça para mim e para minha família”, afirma Tatiane Costa.

“Os povos indígenas sofrem muito com os impactos ambientais”, diz Tainara da Costa Cruz, de 22 anos, que decidiu votar em Lula porque “defende nosso território e a natureza”.

– Iguanas carbonizadas –

Vistas do céu, as nuvens de fumaça arrastadas pelo vento ocultam grandes extensões de vegetação verde-esmeralda em chamas.

No chão, os bombeiros travam uma batalha ferrenha para apagar os numerosos focos com mangueiras. Cinzas e animais mortos, entre eles duas iguanas carbonizadas, cobrem o terreno.

O estado do Amazonas, cuja capital é Manaus, foi afetado por mais de 3.700 focos de incêndio em setembro, quase quatro vezes mais do que no mesmo mês de 2025, de acordo com imagens de satélite do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais.

Em 2024, o El Niño já havia provocado uma seca e incêndios florestais excepcionais no Brasil.

O governo brasileiro anunciou em julho um fundo de cerca de 330 milhões de euros para prevenir os estragos causados por esse fenômeno climático.

“O Brasil nunca tinha se preparado tanto para enfrentar o El Niño. Ainda não sabemos se vamos conseguir, pois ainda não sabemos qual será a magnitude dele, mas nunca tínhamos trabalhado com tanta rapidez para evitar que a população sofra”, declarou Lula no mês passado.

Augusto Almeida

Sou jornalista e apaixonado por entender as histórias por trás dos acontecimentos. No Jornal O Diário, acompanho as principais notícias do Brasil e do mundo, com atenção especial aos temas que ganham destaque, geram debate e ajudam a explicar as mudanças do nosso dia a dia.