No Brasil, a frustração com o custo de vida mina as chances de reeleição de Lula

30 de setembro de 2026

* O candidato Flávio Bolsonaro culpou o presidente Lula pelo elevado custo de vida

* Economistas afirmam que os anos de altas nos preços afetam os eleitores, apesar da recente queda da inflação

* Tanto o desemprego quanto a dívida das famílias situam-se perto de níveis recordes

A longa pressão sobre os orçamentos familiares levou esse homem de 39 anos a opor-se à candidatura do presidente de esquerda, Luiz Inácio Lula da Silva, para um quarto mandato nas eleições do próximo mês. Zacarioto afirma que Lula é o único candidato ao qual sabe que não votará, embora reconheça que o presidente “fez coisas boas” durante seu primeiro mandato, na década de 2000.

“Alguém que ganha o salário mínimo não tem como seguir adiante”, afirmou.

Lula, de 80 anos, pede paciência aos eleitores, ao mesmo tempo em que destaca o desemprego em níveis históricos, a redução da desigualdade e a moderação da inflação nos últimos meses para argumentar que a economia está melhor do que parece.

Mas a frustração de Zacarioto reflete um desafio que tem assombrado governantes ao redor do mundo desde a pandemia: convencer os eleitores de que a melhoria dos indicadores econômicos é importante, quando muitos continuam se sentindo oprimidos por anos de preços elevados.

“Sei que a situação ainda não é ideal, mas garanto que a inflação ficará sob controle”, prometeu Lula em um recente anúncio de campanha, afirmando que sabia o que era não chegar ao fim do mês.

Há meses, as pesquisas mostram um empate técnico entre Lula e o senador Flávio Bolsonaro, filho do ex-presidente de direita Jair Bolsonaro, a quem foi proibido de concorrer após ser condenado por uma tentativa de golpe de Estado.

As pesquisas sugerem que a economia é uma das principais razões pelas quais Lula tem tido dificuldade em manter-se à frente do senador Bolsonaro.

Quase metade dos brasileiros afirma que a economia piorou no último ano, segundo uma pesquisa da Quaest publicada em setembro, em comparação com apenas 19% que afirmam que a economia melhorou.

O senador Bolsonaro transformou em eixo central de sua campanha a preocupação de que os salários já não dão para o mesmo que antes, frequentemente comparando os preços atuais nos supermercados com os da época em que seu pai era presidente.

A campanha de Lula contra-atacou com uma página denominada “Mercado das mentiras” para contestar essas afirmações. Além disso, apresentou uma denúncia ao Tribunal Superior Eleitoral, que supervisiona as eleições no Brasil, acusando a campanha do senador de mentir sobre os preços.

A “VIBECESSION” CHEGA AO BRASIL

Especialistas afirmam que o debate sobre o custo de vida revela uma lacuna entre as melhorias nas medidas trabalhistas e de combate à inflação e o que muitos lares vivenciam no dia a dia.

“Todos os grandes números indicam que este foi um bom governo”, afirmou Thomas Traumann, analista político e autor. “O fato é que a gente comum simplesmente não concorda com isso”.

Traumann traçou comparações com as dificuldades enfrentadas pelo presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, em 2024 para superar a desconexão percebida entre dados macroeconômicos positivos e o sentimento negativo dos consumidores, um fenômeno para o qual a comentarista econômica Kyla Scanlon cunhou o neologismo “vibecession”.

“O Governo tem realizações que pode destacar, mas os eleitores se perguntam em que medida esses avanços chegaram às suas próprias casas”, afirmou Felipe Nunes, fundador e diretor-executivo da empresa de pesquisas Quaest. “Os eleitores julgam a economia com base em sua capacidade de pagar as contas, consumir bens e serviços e alcançar seus objetivos pessoais”.

Os preços dos alimentos e o aumento da carga da dívida ajudam a explicar por que muitas famílias mal perceberam uma melhoria em seu poder de compra após a pandemia.

Embora a inflação de alimentos tenha desacelerado consideravelmente —e até os preços caíram entre junho e agosto—, anos de fortes altas nos preços continuam pressionando os orçamentos familiares, já que os preços permanecem muito acima dos níveis pré-pandemia.

Ao mesmo tempo, o serviço da dívida das famílias, excluídas as hipotecas, atingiu um recorde de 26,6% da renda em junho, segundo dados do banco central, já que as fintechs de rápido crescimento ofereciam crédito fácil a taxas de juros elevadas e o auge das apostas online absorveu bilhões de reais da renda das famílias, levando muitas famílias a uma situação de dificuldade financeira.

Essa carga foi agravada pela taxa de juros básica do Brasil, de 13,75%, uma das mais altas do mundo em termos reais, que o Banco Central tem começado a reduzir gradualmente sem perder de vista a inflação.

“Se analisarmos os dados do mercado de trabalho, os indicadores de pobreza e a expansão da classe média, observa-se um cenário de avanços significativos nos últimos anos”, afirmou Marcelo Neri, economista da Fundação Getulio Vargas. “Mas quando se leva em conta a inflação acumulada dos alimentos, as taxas de juros e as apostas online, o resultado é, digamos, um empate com muitos gols marcados por ambos os lados”.

ELEITORES CÉPTICOS

Lula tem tentado reagir.

A duas semanas da primeira volta, Lula apresentou medidas que pareciam destinadas a aumentar a renda disponível, incluindo um aumento de 15% em um programa emblemático de bem-estar social, que entrará em vigor antes da segunda volta das eleições, no final de outubro. Também anunciou um decreto que proíbe apostas online a partir de 6 de outubro.

Mas as pesquisas sugerem que as medidas ainda não tiveram um impacto significativo na opinião dos eleitores.

Voltando ao mercado, Carlos Alves da Silva trabalha há 15 anos no posto de frutas e verduras Barraca do Juca, cujas paredes estão cobertas por cartazes da telenovela dos anos noventa que foi gravada lá. Ele afirma que não vai sobreviver até 2028 se Lula vencer.

“É apenas uma questão de se endividar e lutar para quitar a dívida no mês seguinte”, afirma Alves, que apoia o senador Bolsonaro.

Os candidatos têm tentado traçar um caminho a seguir.

O senador Bolsonaro baseia sua campanha na redução dos custos alimentares por meio de cortes fiscais, melhores ligações de transporte, a ampliação do armazenamento de grãos e maior produção nacional de fertilizantes. Lula aposta no aumento da produção agrícola, reservas governamentais de alimentos e na expansão do crédito rural.

Mas essas propostas ainda não repercutiram entre muitos brasileiros.

Conceição Melquíades, visitante do mercado vinda de Manaus que enfrenta dificuldades para lidar com o aumento das tarifas de energia elétrica e dos alimentos, afirmou que não viu nenhuma “proposta real” por parte dos candidatos.

“No final, não vai mudar muita coisa”.

(Relatório de Brendan O’Boyle e Lais Morais em São Paulo e de Marcela Ayres em Brasília; redação de Brendan O’Boyle; edição de Manuela Andreoni e Aurora Ellis. Editado em espanhol por Natalia Ramos)

Augusto Almeida

Sou jornalista e apaixonado por entender as histórias por trás dos acontecimentos. No Jornal O Diário, acompanho as principais notícias do Brasil e do mundo, com atenção especial aos temas que ganham destaque, geram debate e ajudam a explicar as mudanças do nosso dia a dia.