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Após incêndio, futuro da Casa Herrmann em Ivoti ainda é incerto

20/01/2026 - 08h00min

Edificação após incêndio ocorrido em novembro de 2025 | Crédito Érick Maia

Em novembro a casa Herrmann, localizada na avenida Presidente Lucena, bairro Bom Jardim, passou por um incêndio. Hoje, mais de dois meses depois, pouco se sabe sobre os próximos passos da casa construída com a técnica enxaimel. Segundo o delegado de Polícia, Fábio Motta Lopes, a situação segue sendo investigada e ainda não se sabe se o incêndio foi criminoso ou acidental. “Houve a solicitação de perícia, mas ainda não recebemos o resultado. Também estamos apurando com os Bombeiros a causa do incêndio”, afirmou o delegado

Em nota, a família proprietária da Casa Herrmann manifestou sua profunda tristeza e consternação diante da perda de um patrimônio que possui enorme valor histórico e afetivo. “A casa guardava objetos e memórias de grande significado para a nossa família. Mais do que um prédio centenário, tratava-se de um espaço carregado de história e identidade, tanto para nós quanto para a comunidade. Os próximos passos exigem um laudo técnico especializado para avaliar a possibilidade de preservação e restauração de partes da estrutura, caso isso seja viável. Independentemente do que for possível fazer, consideramos importante a preservação da memória dessa casa e da história que ela representa, para que não se perca aquilo que vai muito além das paredes. Reconhecemos e agradecemos a solidariedade daqueles que compartilham dessa visão e que já contribuíram nesse sentido. Se existir a possibilidade de algum tipo de preservação da construção e de materiais ou objetos, toda e qualquer ajuda bem intencionada será apreciada” destacou a família.

A filha do falecido proprietário Paulo Ricardo Herrmann, Ana Paula Herrmann, informou que a família está em busca de profissionais que possam realizar uma avaliação técnica para posteriormente considerar as possibilidades com relação ao prédio. “O cenário ideal seria a preservação da casa, ao menos parcialmente, e eventualmente de materiais e objetos relevantes. Os próximos passos serão tomados após a devida autorização das instâncias municipais competentes”, afirmou.

Consternação

O arquiteto e presidente do Conselho Municipal do Patrimônio Histórico e Cultural de Ivoti, Daniel Wagner, também lamentou o ocorrido e manifestou sua solidariedade. “Lamento profundamente o sinistro na Casa Herrmann e manifesto minha solidariedade à família diante dos danos sofridos neste patrimônio de valor inestimável. Por se tratar de um imóvel classificado pelo Inventário Municipal como nível 1 de preservação, o de maior relevância, saliento que devemos aguardar com rigor a conclusão pericial das instâncias investigativas competentes. O Conselho permanecerá vigilante para, no momento jurídico adequado, analisar os laudos e projetos de recuperação que deverão ser apresentados, priorizando sempre que as diretrizes de proteção histórica sejam atendidas”, disse.

O documentário idealizado pela Sociedade Ivotiense de Estudos Humanísticos (SIEHU), Um olhar afetivo sobre o Enxaimel de Ivoti, tem um depoimento marcante de Elcy Herrmann em frente a casa. A coordenadora da SIEHU, Andrea Schneck, destacou que, como educadora patrimonial, tem se envolvido em vários projetos dinâmicos e criativos que tem potencializado reflexões e ações em prol do patrimônio material e imaterial de Ivoti. “Graças a esses registros temos documentado parte da história da Casa Herrmann, inclusive com depoimentos da antiga proprietária, dona Elcy. Dessa forma contribuímos para que a memória da casa destruída parcialmente pelo incêndio permaneça viva na comunidade. Através do que produzimos seguiremos sensibilizando e conscientizando moradores e visitantes de Ivoti para preservação da sua história, tecendo um elo entre tempos, lugares e gerações”, disse. A SIEHU já publicou oito livros históricos, seis deles, educativos.

Patrimônio histórico

Não se tem registro do ano em que o imóvel foi construído, mas segundo informações registradas nos arquivos do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico do Estado (IPHAE), ela tem características das construções do final do século XIX. Por volta de 1952 a casa foi comprada pelos pais de Elcy Herrmann, Carlos Alberto e Amália Delfina Dillenburg, mas antes disso já teria pertencido à família Dienstmann e à família Bauermann.

Segundo informações registradas nos arquivos do IPHAE, além de moradia, a Casa Herrmann já foi um salão de bailes e uma fábrica de botas. Na época fabril o local produzia botas sanfonadas, chinelos e tamancos.

Nos fundos da casa, em outra construção ficava a cozinha, como era a característica das moradias mais antigas, e no mesmo terreno ainda existia uma edificação que foi demolida. Nessa edificação, feita de pedras e argamassa de barro, funcionou uma ourivesaria e relojoaria.

A proprietária, hoje falecida, Elcy Herrmann durante gravação de documentário | Crédito: Arquivos SIEHU

Casa Herrmann durante a gravação do documentário da SIEHU | Créditos: Arquivos SIEHU

Nível 1 de preservação

Um levantamento realizado em 2022 no município de Ivoti atualizou o inventário de 1992 e registrou que o município tem 125 prédios preservados e 43 demolidos ou descaracterizados. No mesmo relatório, foram incluídos mais 53 novos prédios, a maioria construídos como enxaimel.

– 72 imóveis na parte principal da cidade

– 28 imóveis na Picada 48 alta

– 21 imóveis na Picada Feijão

– 20 imóveis na Picada 48 baixa

– 17 imóveis na Feitoria Nova

– 15 imóveis na Nova Vila

– 5 imóveis na Colônia Japonesa

Nesse inventário, a Casa Herrmann aparecia como nível 1 de preservação, ou seja, em nível de proteção máximo. Os critérios para essa qualificação avaliam o imóvel na questão de importância histórica, social e arquitetônica e caracterizam edificações mais sensíveis a modificações, além de ser prioritário para receber incentivos fiscais e de tombamento municipal, entre outros tópicos.

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