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Da desistência ao topo do mundo, Marlei Willers viveu um ano decisivo
Após abandonar uma maratona no início do ano, a atleta de 47 anos revê métodos, enfrenta limites do corpo e encerra a temporada consagrada campeã mundial master em Nova York
Por Cleiton Zimer
O ano de 2025 começou com lágrimas. Em plena New Balance 42K, nas ruas de Porto Alegre, Marlei Eunice Willers – a Preta – precisou parar no quilômetro 24. Pela primeira vez na carreira, abandonou uma maratona. O corpo não respondeu. E, naquele momento, não havia escolha.
“Ali eu entendi que estava tentando sustentar uma Marlei que já não existia mais. E que estava tudo bem”, diz. A frase carrega o peso de quem sempre foi sinônimo de resistência. Mas também marca o início de um processo que, meses depois, levaria a atleta de Morro Reuter ao topo do mundo, em Nova York.
Quando o corpo diz não
A desistência não foi apenas um episódio isolado. Aos 47 anos, Marlei vivia um momento diferente. O acúmulo de anos de treinamento intenso, as mudanças hormonais e as exigências físicas começaram a cobrar seu preço. “Eu precisei aceitar que não dava conta de tudo. Que eu não precisava dar conta de tudo”, afirma.
Até ali, ela ainda tentava sustentar a mesma atleta de 2023, ano em que venceu a Maratona Internacional de Porto Alegre e viveu um dos auges da carreira. Mas aquela versão já não existia. Insistir nela significava ir contra o próprio corpo — e contra si mesma.
Reconstruir dói — mas é necessário
A partir dali, veio o silêncio. Menos exposição, menos cobrança externa, mais escuta interna. Marlei mudou a filosofia de treinamento, reduziu volume, buscou mais qualidade, passou a descansar mais e a respeitar sinais que antes eram ignorados.
“Às vezes, o mais difícil não é abrir mão do que dói. É abrir mão do que é bom. Pessoas, oportunidades, situações. Nem sempre a gente é compreendido. Mas o propósito precisa falar mais alto”, reflete.
Houve domingos frustrados, treinos que não saíram como planejado, voltas para casa cheias de questionamentos. Mas nunca houve desânimo. “Mesmo cansada, mesmo insegura, eu nunca deixei de gostar do que eu fazia. Cada dia era mais um passo, mesmo que pequeno.”
Nova York já era um presente
Quando decidiu correr a Maratona de Nova York, Marlei não carregava a obrigação de um grande resultado. Estar ali já era, por si só, uma conquista. A meta era realista: correr em torno de 2h50, dentro do que havia conseguido construir naquele novo momento.
“Quem compete sabe o quanto custa baixar segundos. Eu queria fazer uma prova honesta, dentro da minha realidade”, conta. O resultado seria consequência — nunca obsessão.
O dia em que tudo se alinhou
Mas Nova York reservava algo raro. No dia da prova, o clima colaborou, o corpo respondeu e a mente esteve no lugar certo. Marlei cruzou a linha de chegada com 2h41min58s, foi a melhor brasileira da maratona e se consagrou campeã mundial master, na categoria acima dos 40 anos. No geral, terminou como a 18ª brasileira entre dezenas de milhares de mulheres.
“Foi um daqueles dias em que tudo encaixa. Como aconteceu comigo em Porto Alegre, em 2023. Não é algo que se planeja. É estar pronta quando a oportunidade aparece.”
O título que valida o caminho
Mais do que um troféu, a conquista em Nova York representou a validação de um processo difícil. Um ano de ajustes, renúncias e amadurecimento. “Quanto mais você cresce, mais precisa se conectar consigo mesma. O mundo externo confunde, tira o foco”, diz.
Ao olhar para trás, Marlei não enxerga apenas pódios. Enxerga coragem. Coragem de abrir mão de estabilidade, de enfrentar preconceitos — no esporte, no interior, como mulher — e, principalmente, de se permitir mudar. “A gente cresce ouvindo que tudo tem um tempo certo. Mas o tempo é o nosso.”
O que permanece depois da chegada
Com quase 100 provas disputadas e presença em pódio em cerca de 90% delas, Marlei entende que seu papel vai além dos resultados. Segue envolvida em treinões gratuitos, ações comunitárias e projetos que aproximam pessoas do esporte. “O esporte muda a forma como a gente se enxerga. Dá coragem para mudar hábitos, sair de lugares que machucam.”
Agora, enquanto organiza o calendário de 2026 e avalia novas provas internacionais, ela treina em ritmo mais leve, mas com a mesma disciplina de sempre. “Disciplina liberta”, repete. Acordar cedo, fazer a própria parte, sustentar escolhas.
O ano que começou com uma desistência terminou com uma consagração mundial. No meio do caminho, ficaram dores, dúvidas e reconstruções. Em Nova York, Marlei não celebrou apenas um título. Celebrou a certeza de que respeitar o próprio tempo também é uma forma legítima de vencer.
