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Depois de tanta luta, ficou o amor
A trajetória de Tainara Dutra, a jovem que mobilizou a região na maior corrente de solidariedade dos últimos anos
Por Cleiton Zimer
Depois de uma longa e incansável luta pela vida, Tainara Catiele Dutra se despediu deixando marcas profundas na região. A notícia de seu falecimento chegou à comunidade na noite de quinta-feira, 1º de janeiro de 2026, encerrando uma trajetória marcada por coragem, resistência e uma mobilização coletiva que uniu diferentes setores em torno da esperança.
Mãe de uma menina de três anos, Tainara viveu seus últimos meses dividida entre hospitais, tratamentos agressivos e o desejo simples de continuar presente na vida da filha. A maternidade foi, desde o início, uma das forças que a manteve em pé. Mesmo quando o corpo já dava sinais claros de exaustão, ela seguia falando em continuar. “Eu só quero viver, quero que dê tudo certo”, disse em uma das entrevistas concedidas durante o tratamento.
O diagnóstico que mudou tudo
A história de Tainara com a doença começou em agosto de 2024, quando foi diagnosticada com câncer de mama HER2 positivo. Na época, ainda amamentava a filha pequena e levava uma rotina comum de trabalho e família. O diagnóstico interrompeu planos, mas não tirou dela a disposição para enfrentar o que viria pela frente.
Ela iniciou rapidamente sessões de quimioterapia, passando por ciclos intensos e efeitos adversos. Ainda assim, seguiu firme, amparada pela família, por profissionais de saúde e pelo apoio nutricional que ajudou a sustentar o tratamento.
Quando o tratamento não responde
Em fevereiro de 2025, Tainara passou por uma mastectomia total da mama direita com esvaziamento axilar. O resultado da biópsia trouxe um impacto duro: dos linfonodos retirados, grande parte estava comprometida, e o câncer havia se mostrado mais agressivo do que o esperado.
Pouco tempo depois, veio a recidiva rápida. Novos caroços surgiram na cicatriz cirúrgica e uma nova cirurgia precisou ser feita com urgência, seguida de radioterapia. A partir dali, a luta entrou em outra fase, ainda mais exigente, física e emocionalmente.
Medicamentos caros e uma corrida contra o tempo
Com a evolução da doença para um estágio metastático, o tratamento passou a exigir medicamentos de alto custo, não fornecidos pelo Sistema Único de Saúde. Primeiro, o Trastuzumabe Entansina (Kadcyla), com ciclos sucessivos e valores elevados. Mais adiante, já em outubro de 2025, com o agravamento do quadro e a confirmação de metástase cerebral, foi necessário iniciar o Enhertu (Trastuzumabe Deruxtecana), com aplicações que custavam cerca de R$ 96 mil cada.
Internada, inclusive em UTI, Tainara enfrentou convulsões, dores intensas e procedimentos contínuos. Mesmo assim, mantinha clareza ao falar sobre a urgência do tratamento. “Eu não tenho tempo. Já iniciei essa medicação e não posso interromper o ciclo. O que estiver ao meu alcance para vencer esse câncer, eu vou fazer”, afirmou ao pedir apoio para dar continuidade às doses.
Uma cidade inteira ao redor de uma jovem
Diante da impossibilidade de aguardar decisões judiciais, a família recorreu à solidariedade. E ela veio de muitas formas. Vieram vaquinhas virtuais, bingos beneficentes, galetos solidários, shows, rifas e doações espontâneas. Grupos organizados, equipes esportivas, artistas, comerciantes e moradores comuns se mobilizaram ao longo de 2025, mostrando que Tainara não estava sozinha.
A cada ação, a cada evento, a cada contribuição, Dois Irmãos reafirmava que aquela luta não era apenas individual. Era coletiva.
Eternizar o que realmente importa
No meio da dor, Tainara ainda encontrou espaço para criar. Ao lado da mãe, Daiane Both, nasceu a Eternize Cestas, um pequeno empreendimento familiar que uniu cuidado, afeto e criatividade. Entre consultas e períodos de recuperação, Tainara cuidava das artes, das ideias e do contato com clientes. A mãe assumia a montagem das cestas, caixas e presentes artesanais.
Mais do que um negócio, o projeto se tornou um símbolo silencioso daquilo que elas buscavam fazer: transformar um momento difícil em algo que pudesse levar significado, carinho e memória a outras pessoas.
Gratidão até o fim
Ao longo de toda a trajetória, Tainara nunca deixou de agradecer. A cada gesto de apoio, fazia questão de reconhecer a comunidade, a família, os amigos e os profissionais de saúde. Falava com lucidez sobre a gravidade da doença, mas também com esperança. Em diferentes momentos, repetia que acreditava que tudo daria certo, sustentada pelo apoio de quem caminhou ao seu lado.
O que fica
Tainara Catiele Dutra deixa os pais Luciano Dutra e Daiane Both Dutra, o padrasto Jones Nevis, o esposo Douglas da Luz, a filha Heloisa da Luz, os irmãos Sofia e Daniel, os avós Ieda e Nelson, além de demais familiares e amigos. Os atos fúnebres ocorreram na Capela 1 da Funerária Dois Irmãos, com cerimônia de despedida e posterior cremação.
A história de Tainara não termina com sua partida. Ela segue viva na filha que deixa, nas pessoas que mobilizou e nos gestos de solidariedade que despertou. Fica o exemplo de uma jovem que, mesmo diante da maior das batalhas, escolheu lutar com dignidade, amor e coragem — e uniu uma comunidade inteira ao redor disso.
