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O pequeno Joaquim preserva a cultura local falando o Hunsrik em Santa Maria do Herval

16/03/2021 - 09h52min

O pequeno Joaquim, de seis anos, preserva a cultura e é incentivado pela família a falar o Hunsrik (FOTO .: Cleiton Zimer)

Por Cleiton Zimer

Santa Maria do Herval – O pequeno Joaquim Schuck completou seis anos há poucos dias. Em fevereiro deu início ao seu segundo ano na escola, porém, diante da pandemia, pouco sabe sobre as aulas presenciais e passou a maior parte do tempo estudando remotamente. Em 2020 estava na Educação Infantil e, no início desse ano, começou no Fundamental, frequentando a escola por um período. Os professores da Maurício Cardoso se surpreenderam com o menino que fala o Hunsrik fluentemente, sendo um raro exemplo da continuidade cultural na nova geração. Mas não é só isso: o carisma e a simpatia de Joaquim são únicos e é impossível não se encantar conversando com ele.

Ele mora no interior do município, na localidade de Padre Eterno Baixo, junto com sua mãe Viviane e seu pai Rivelino Schuck. O pai trabalha em uma fábrica de calçados e, a mãe, se divide entre o trabalho caseiro e atividades em outras propriedades. Dessa forma, o pequeno passa a maior parte do tempo com seu avô Irineu Wingert, 66 anos; juntos eles vivem muitas aventuras. Brincam, vão para a roça, cozinham e por aí vai. Um é parceiro do outro.

Agora, novamente, está tendo aulas via internet. Adotando todos os cuidados cabíveis fomos conhecê-lo. Ao notar a chegada da reportagem, de longe ele já vinha saltitando, alegre, com a sua camisa do Grêmio. Joaquim estava ciente da visita e já havia planejado um roteiro pela propriedade para mostrar tudo. Claro, sempre falando em Hunsrik.

Mostrado a propriedade


Joaquim mostra a propriedade e diz ajudar na colheita de tomates (FOTO .: Cleiton Zimer)

Começou contando que acordou cedo naquele dia. Foi direto para o galpão mostrar seus bois, porcos, galinhas, patos e tudo mais. Disse que às vezes ajuda a tratar os bichos e até fez o repórter colher pasto com uma foice para mostrar como eles comem. “Tu mucht das mahe”, disse, o que significa: “tu precisa fazer isso”, pois ele não pode pegar em um objeto afiado nessa idade.

Pasto feito, bichos alimentados, Joaquim já com os chinelinhos cheios de barro foi subindo uma estrada de roça para mostrar um pouco da plantação da família. “Das is sou ingreme fa subire”, disse, misturando o Hunsrik com o português, tentando dizer que o local é muito íngreme para subir. Mesmo assim, foi mostrar a produção de tomates, milho, batata, mandioca. “Ich helfe ima di tomate sufa”, disse, explicando que “sempre ajuda a procurar os tomates maduros”. Conta que vez ou outra aparece um sapo. “Ich houle di und schmaise di naus”, contou, afirmando que pega os sapos e joga eles para fora.

Joaquim ao lado do seu cão “mebe”, com o qual brinca muito (FOTO .: Cleiton Zimer)

Uma carreta para o avô

Joaquim mostra suas atividades da escola (FOTO .: Cleiton Zimer)

Questionado sobre o que quer para o futuro, inocentemente, mas com carinho, disse que quando crescer comprará uma nova carreta agrícola para o avô. “Ich dun dem vovo ein nai karet kofa”. Esse é seu sonho, pois nutre um amor incondicional por seu querido “vô Neu”.

Ao voltar da roça, ainda foi mostrar os gatinhos que ficam no galpão. Meio ariscos, eles fugiram. Depois disso fez questão de falar da sua escola e mostrar seus “trabalhinhos”, como ele diz. Explicou seus desenhos, onde representou toda a família; escreveu seu nome e marcou números em atividades de matemática. Afirma que gosta de estudar, mas, também, assistir desenhos animados no YouTube, dentre eles, o Pica Pau.

Assim é sua rotina diária. Entre os estudos, diversão e o vínculo com a família ele vive no interior e, desde pequeno, aprende a valorizar suas origens, perpetuando a cultura na qual a região se edificou.

Mantendo a tradição e

se adaptando ao novo

Joaquim, seu avô Irineu e sua mãe Viviane (FOTO .: Cleiton Zimer)

A mãe Viviane conta que, em casa, o filho é orientado a falar somente em Hunsrik e que, na escola, também recebe incentivo para falar o idioma. “Agora ele está estudando em casa de novo, está sendo um pouco mais fácil. Mas, no ano passado era complicado porque ele não estava acostumado a usar o celular”, disse, explicando que o filho não pode usar o aparelho, a não ser, para estudar.

Ela conta que, no ano passado, Joaquim também enfrentou dificuldades na creche por falar somente o Hunsrik, mas, depois, passou a se adaptar e até começou a responder as perguntas dos professores no idioma, fomentando a identidade cultural, o que foi incentivado por eles. “Teve uma vez que ele chegou em casa e, quando caiu uma bolacha, ele disse ‘caiu’. Eu corrigi ele e disse que quando ele estava em casa era “runaquefal”.

A mãe conta que desde então o pequeno soube distinguir entre preservar o aprendizado em Hunsrik e, ao mesmo tempo, aprender e desenvolver o português. “Hoje, quando alguém da família fala português em casa ele nos corrige, dizendo que temos que falar em alemão”, brinca Viviane, falando com orgulho do seu filho.

“Nossa origem”

O avô Irineu está diariamente com o netinho. Para ele, é gratificante tê-lo em sua companhia. “Ele vai junto comigo na roça e enquanto eu trabalho ele fica por perto, brincando e conversando comigo”. Irineu acredita ser importante que as crianças continuem falando o Hunsrik. “Porquê o alemão vai acabar, essa é a última geração”, lamentou, dizendo que “o português vem com o tempo, na escola, mas o alemão está se perdendo. Os pais sabem pouco e os filhos menos ainda. Mas nós gostaríamos de manter a nossa origem”.

*Confira, em breve, a reportagem em vídeo com o pequeno Joaquim no site e Facebook do Diário.

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