Região
Iraniano que foi agredido por grupo de pessoas concede entrevista exclusiva ao Diário e fala em xenofobia
por Cândido Nascimento
São José do Hortêncio – Natural de Kaaraj, Irã, Vahid Rahimi, 37 anos, é naturalizado brasileiro. Após a festa da Virada do Ano no Ginásio Municipal Clóvis Luis Schaefer, ele sofreu uma brutal agressão por um grupo de pessoas na Avenida do Parque (rua 44) quando já voltava para casa. Ontem ele concedeu uma entrevista exclusiva na sua residência, relatando a violência que sofreu e que, graças a ação de um desconhecido, não morreu. Ele atribui a agressão ao fato dele ser de outro país (xenofobia).
Vahid teve alta na quarta-feira à tarde, após ficar sete dias internado, inicialmente no Hospital São José, de Ivoti e depois no Moinhos de Vento, de Porto Alegre. Ele foi trazido para casa por André Robinson (Spelin), caminhoneiro que viu quando três carros pararam e correu para socorrer a vítima. No memento que o até então desconhecido (agora amigo) chegou, Vahid soltava sangue pela boca e estava com o rosto inchado de tanto apanhar de várias pessoas, algumas que conhece do cotidiano. Ele gravou um vídeo que está nas mãos da polícia.
UM POUCO DA SUA HISTÓRIA
Ele nasceu em Kaarai, que hoje é uma Região Metropolitana com mais 4 milhões de habitantes. O pai tinha uma padaria, mas é falecido. No Irã residem a mãe e quatro irmãs, cunhados, sobrinhos e outros familiares, de maioria muçulmano. “Mas eu não sigo a religião muçulmana relata o morador. Nessa cidade ele estudou Engenharia da Computação, na Universidade de Azad. Também trabalha com Turismo.
Em 2019 conheceu a esposa Eliete Guimarães, com quem casou em 2020, período da pandemia, este foi o ano em que veio morar no Brasil, e hoje ela leva o seu sobrenome. Eliete já tinha uma filha, Emanuelle, Guimarães, 26 anos, formada em Publicidade e Propagando e estuda Medicina em São Paulo. Foi a jovem quem teve que vir para Porto Alegre exclusivamente para cuidar do seu padrasto, a quem chama carinhosamente de pai, pois a mãe estava viajando para um curso de aperfeiçoamento. Eliete é Coordenadora Pedagógica no Instituto Estadual Alfredo Oscar Kiefer (IAOK), e veio primeiro, após ser aprovada em um concurso público. Vahid veio depois. O casal está há cerca de 8 meses no Município, tendo recebido ajuda dos vizinhos, pois chegou sem nada para morar aqui.
“FUI SALVO POR ELE”
“Se o André (Spelin) não tivesse aparecido, eu estaria morto agora, não teria sobrevivido às agressões. Cheguei a me livrar do grupo e fui para dentro de um carro, mas fui arrastado para fora de novo”, diz ele, enquanto a enteada mostrava as manchas de sangue que ainda permaneciam no chão no acesso à casa.
Vahid com a enteada
OS FATOS
Vahid foi agredido por um grupo de pessoas, todos conhecidos moradores da cidade, na madrugada do Ano Novo, na Avenida do Parque (antiga rua 44) já quando voltava para casa. A Festa da Virada aconteceu no Ginásio Municipal e lá no local houve um desentendimento da vítima com um grupo de pessoas, inclusive mulheres. Apesar de ter bebido, assim como os demais, ele disse que perguntaram onde estava a sua mulher e quando mostarava o telefone já foi agredido por trás. A Polícia Civil do Município deverá ouvir todos os envolvidos nas agressões até o final da semana que vem.
A polícia trata como a possibilidade de ser um crime grave, mas ainda são necessárias as devidas investigações. Não é possível tipicar a pena ainda. Primeiro serão ouvidas as cerca de 15 pessoas do grupo, uma a uma.
As imagens obtidas pela polícia em três pontos da via o homem foi abandonado ferido em plena avenida, ficando atirado no chão e sangrando pela boca, momento em que o caminhoneiro chegou para acudi-lo.
NAS REDES
A enteada de Vahid Emanuelle, que lamentou através das redes sociais a brutalidade da agressão, várias pessoas comentaram os fatos nas redes sociais. O clima é de insegurança da família, mas Vahid diz que ama o Município e que não pretende se mudar, e acredita que sofreu xenofobia, mas que essas pessoas vão responder por seus atos.
PREFEITA
“Estamos acompanhando com atenção desde o dia dos fatos. A gente deu o suporte à vítima, a qual desejamos uma recuperação rápida e plena. Que a Polícia Civil, que está à frente das investigações, seja conclusiva quanto às circunstâncias desse triste e lamentável episódio. São José do Hortêncio é um município pacato e tranquilo e que respeita a todos. Um fato como esse não condiz em nada com o que somos”, declarou a prefeita Ester Dill Koch.