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Nova Petrópolis: a emocionante carta da mãe que nunca mais veria o filho

09/05/2020 - 11h31min

Atualizada em 09/05/2020 - 12h36min

Este é um Dia das Mães em que muitas famílias da região não poderão se reunir em função da pandemia. Espera-se que seja algo excepcional, que mudará em alguns meses. Mas o que diria uma mãe idosa, separada do filho por milhares de quilômetros, ciente de que o reencontro seria impossível?

Situações dramáticas deste tipo são comuns no passado da colonização em Nova Petrópolis. Uma das mais conhecidas é a carta de Maria Anna Jahnel enviada ao filho Heinrich. A carta e outros materiais estão expostos no museu familiar da Pousada Verde Paraíso, em Nove Colônias. O estabelecimento pertence a descendentes de Heinrich.

Heinrich e o pai Eduard vieram para o Brasil em 1878. Maria Anna e outros três filhos (Marie, Franz e Josef) ficaram na Europa. A família morava no território da Boêmia, da atual República Tcheca. Foi uma separação definitiva, só amenizada por cartas e fotos.

Traduzida para o português há algumas décadas, uma das últimas cartas enviadas por Anna Maria ao filho expõe toda a tristeza da mãe. Confira (com pequenas adequações):

O original da carta enviada por Maria Anna para Heinrich (crédito: Reprodução/Pousada Verde Paraíso)

Carta de Maria Anna para Heinrich

Querido filho Heinrich e esposa

A tua carta eu recebi com muita alegria, e quando eu a li, vi que ia receber tantas fotografias, dai você pode imaginar a emoção. Daí veio a Marie correndo e disse: Mãe, uma carta do nosso Heinrich! Eu estava no momento muito triste e desiludida, mas daí a tristeza tinha sumido. Isto foi na quinta quando veio a carta e domingo já veio o pacote com as fotos.
Isto não só era alegria pra nós, mas todos os que te conheciam e se alegraram e perguntaram de você e se admiraram da sua família. Nas vestes não tem tanta diferença lá e aqui. O vizinho Konrad Bauer ficou tão contente quando a Marie foi lá correndo contar que veio uma carta de você Heinrich.
Querido Heinrich, agora eu tenho que contar da última carta. As duas cartas se encontraram no caminho, eu esperei a tua e tu a minha. Eu recebi as fotografias da tua querida filha Maria e dos dois filhos dela, Otto e Ida. Eu fico feliz com isto.
E eu chamo muitas vezes você aqui comigo em pensamento. Isto ainda me dá ânimo de viver se eu leio de novo as cartas e olho as fotos.
Agora eu tenho que te perguntar, o teu filho Kal foi morar tão longe de você, o que ele trabalha?
Eu recebi todas as cartas que tu escreveu meu filho, da primeira até a última. Querido filho Heinrich, tudo pode ficar desanimado e com saudade esperando a nossa carta. Quando eu recebi a tua 1a carta eu pensei que tu nunca ias ficar lá. Isto nos assustou muito.
Já eram 25 anos que tínhamos casado, e quando vocês foram embora, eu tinha dívidas para pagar. E assim se passaram 8 anos. Depois trabalhei mais 16 anos quando fiquei cansada. Mesmo assim consegui pagar tudo, mesmo sozinha.
Na próxima carta tu vai receber fotos da filha do Franz, a Berta, que se casou em outubro. Ela foi morar em Wöhrsdorf bei Haida. O marido dela trabalha na fábrica de vidro e o teu irmão Josef também. O Emil também estava aqui no casamento. Ele tem um cargo mais alto agora. O último treino com arma foi em setembro. Ele tem uma filha de dois anos. O Josef só tem uma filha Emilie e ela tem um filho Bruno. Marie, a pequenininha, só tem o Hugo, que tem 8 anos.
Querido filho Heinrich, agora que te escrevi umas coisas da nossa família, eu posso imaginar que tu talvez não podes entender muitas coisas, porque já passam tantos anos que tu nos deixaste. Tu talvez deves te lembrar quando tu estavas aqui eu já tinha muita dor no braço. Por causa disso eu estou tremendo tanto, quase impossível escrever e é difícil colocar no papel tudo o que eu tenho para te dizer.
Eu sempre me desejo, ao menos uma vez, falar pessoalmente, mas isto nunca, só na eternidade. Tu podes acreditar, que tu vais dormir comigo e levantar comigo em pensamento. E se eu um dia não estiver mais aqui, a Marie e o Josef vão informar de tudo.

Da sua eterna mãe, Maria Anna Jahnel