Nilson comemora o gol com Edu Lima e Diego Aguirre Arivaldo Chaves / Agencia RBS

O domingo escaldante de 12 de fevereiro de 1989 seria histórico para o futebol gaúcho seja lá o que dissesse o campo. O Gre-Nal daquele dia decidiria o finalista do Brasileirão do ano anterior (que havia se iniciado em setembro e parado em janeiro). O vencedor estaria classificado à Libertadores, que começaria dias depois.

Pelo ambiente em Porto Alegre, pela grandeza do clássico, pela importância da partida, foi chamado, antes mesmo de começar, de “Gre-Nal do Século”, principalmente pelos cronistas Paulo Sant’Ana e Lauro Quadros. Só que o mais incrível é que o Beira-Rio mostrou uma partida ainda maior do que o nome sugeria, há exatos 30 anos.

Possivelmente, das 156 vitórias do Inter nos confrontos com o maior rival, nenhuma foi tão improvável como esta, a 116ª. Se pensar que até os 16 minutos do segundo tempo o time perdia por 1 a 0 e tinha 10 jogadores contra um adversário qualificado, experiente e vencedor, que já era tetracampeão estadual e não perdia o clássico havia 12 encontros, a tendência, de fato, apontava para a classificação do Grêmio, que já havia eliminado o Flamengo no Maracanã na fase anterior.

Mas a etapa final daquele jogo, que mais tarde inspirou o escritor gremista Michel Laub a produzir um romance (Segundo Tempo) com o clássico de pano de fundo, mostrou um Inter enlouquecido.

— Passamos por muitas coisas depois disso. A Libertadores, o Mundial… Mas nada supera aquele segundo tempo. Eu nunca tinha visto uma coisa dessas acontecer — suspira Abel Braga, o técnico colorado naquele 12 de fevereiro.

Mas, para contar o que houve naquele segundo tempo, é preciso lembrar o que passou no primeiro.

“Foi minha maior vitória no Inter. Ganhar aquele Gre-Nal, do jeito que foi, marcou muito. Se não fui campeão, ao menos tive essa alegria. Ainda recebi a Bola de Ouro do campeonato.”
TAFFAREL
Goleiro do Inter

Depois do 0 a 0 na partida de ida, o Inter jogava aquele Gre-Nal com a vantagem de empatar no tempo normal e na prorrogação para ir à final, já que sua campanha era melhor no campeonato. Mas o Grêmio, desde o início, se mostrava melhor. Já havia acertado a trave, perdido gol sem goleiro e, aos 25 minutos, transformou a superioridade em vantagem, em um chute cruzado de Marcos Vinícius que superou Taffarel.

— Acho que eu estava mal posicionado. Poderia ter defendido se me posicionasse mais para o meio. Na hora, perdendo, pensei: “Pô, não ganhei nenhum título e agora ainda vou perder o Gre-Nal” — recorda o ex-goleiro do Inter e da Seleção.

Para piorar a situação, Casemiro acertou o zagueiro uruguaio Trasante, que havia provocado os jogadores colorados. O árbitro Arnaldo Cezar Coelho não teve dúvida: cartão vermelho para o lateral-esquerdo do Inter.

“Tinha passado pelo Grêmio e aquilo podia parecer que tinha sido de propósito, estar na gaveta. Precisava mexer com a torcida, confiava no nosso grupo.”
CASEMIRO
Lateral do Inter

— Não tinha cometido nenhuma falta no jogo, mas o Arnaldo me expulsou direto. Acho que foi mais pela encenação do Trasante, ele simulou uma entrada maior do que foi. Fui por cima da bola porque achei que ele viria de sola, fiz a falta, mas era para cartão amarelo — analisa Casemiro, que completa:

— Mas quando vinha saindo, precisava mexer com a torcida, mostrar que estava defendendo a camisa do Inter, que o jogo não estava perdido.

Arnaldo garante que a expulsão foi justa. Segundo ele, antes da partida, não se sentia pressionado, apesar de saber o tamanho do Gre-Nal.

Foi uma honra ter feito esse jogo, me orgulho em saber que a memória do maior Gre-Nal tem a minha voz.”
LUIZ ALFREDO
Narrador da partida pela Globo

— Fui de táxi até um restaurante na Tristeza e depois para o Beira-Rio. Como era domingo, ficava mais tranquilo. Dia de semana que era brabo, com aquele Sala de Redação. O programa era só recado e provocação. A pressão era braba — diverte-se o ex-árbitro.

Ao fim da primeira etapa, Abel enlouqueceu no vestiário. Cobrou os jogadores asperamente. Enquanto eles esfriavam a cabeça, chamou Casemiro, que tomava banho. De toalha na cintura, o lateral viu o treinador dizer aos comandados:

“Esse dia foi inesquecível. Vai passar 100 anos e ainda vamos lembrar desse jogo.”
NILSON
Centroavante do Inter

— Se não virar o jogo, a carreira desse rapaz acabou. Vocês gostam dele, né? Então vão lá e resolvam.

Quando todos se preparavam para voltar ao campo, Abel surpreendeu e informou que haveria uma substituição. O volante Leomir daria lugar ao centroavante Diego Aguirre.

— Na hora pensei: “O Abel pirou, vamos tomar uma goleada”. Então ele avisou o Edu de que teria de correr por todo o lado esquerdo. Depois, me chamou e falou para ser meia, deixando o Diego no ataque. Na verdade, eu era mesmo meia. Virei centroavante no Inter — diz Nilson, o herói colorado da tarde, trazido meses antes do XV de Jaú como o melhor meia do Paulistão.

O Grêmio havia deixado de matar o jogo, em uma cabeçada de Cuca, sozinho, na área. A partir dali, o Inter cresceu. Edu fez a jogada pela esquerda e sofreu uma falta. Ele mesmo cobrou, e Nilson, no meio da defesa, saltou para empatar. Dez minutos depois, já dono do jogo e diante de um adversário assustado, veio a virada. Luiz Carlos Winck cobra uma falta no travessão, o rebote é afastado pela defesa do Grêmio e sai para a lateral. A cobrança rápida encontra Maurício na ponta direita. Ele se livra da marcação e bate cruzado. Nilson, na pequena área, só empurra para dentro.

“Tem gente que diz que só torcedor sofre, que jogador perde e vai embora. Eu não. Sofro até hoje por causa desse jogo. Por causa do passe para trás que não dei, da cabeçada que errei.”
CUCA
Meia do Grêmio

— Nilson não perdoa, mata! — são as primeiras palavras que diz o narrador Luiz Alfredo de Almeida, locutor da partida para a Rede Globo, ao ser questionado sobre o jogo, repetindo a expressão que usou em 1989: — Veio naturalmente. Foi uma honra ter feito essa partida, até pela história do meu pai no Rio Grande do Sul (o narrador José Geraldo de Almeida trabalhou na Rede Difusora nos anos 1970).

O Grêmio ainda pressionou no final, mas encontrou em Taffarel um muro. Quando não parou no goleiro, errou de alvo. O Inter administrou a vantagem e explodiu em festa poucas vezes vista no Beira-Rio.

“Acho que fui bem, porque pude sair pelo terminal de passageiros do aeroporto. Alguma vezes, precisei ser escondido na parte de cargas.”
ARNALDO CEZAR COELHO
Árbitro do Gre-Nal

— Foi uma das maiores dores da minha vida, porque tinha feito gol contra o Flamengo e tinha visto em um jornal que o (Sebastião) Lazaroni me convocaria para a Seleção. Ele estava no estádio para ver o jogo. Depois, não me chamou. Tive duas chances de fazer o

2 a 0 e liquidar o jogo. A gente iria ganhar um Monza como bicho pela vitória. Tinha até reservado o meu — lembrou ao SporTV o atual técnico Cuca, meia do Grêmio de Rubens Minelli.

Depois da vitória no clássico, o Inter perderia a decisão do campeonato, em um surpreendente título do Bahia. Mas, incrivelmente, 30 anos depois, a alegria pela vitória no clássico é mais lembrada do que a frustração pelo vice. A razão, talvez, esteja nas palavras de Abel:

— Nunca houve um Gre-Nal como aquele.

Ficha técnica

Internacional 2 a 1 Grêmio

  • Local: Estádio Beira-Rio
  • Árbitro: Arnaldo Cézar Coelho
  • Internacional: Taffarel; Luis Carlos Winck, Aguirregaray, Nenê e Casemiro; Norberto, Leomir (Diego Aguirre), Luis Carlos Martins e Mauricio (Norton); Nilson e Edu Lima. Técnico: Abel Braga
  • Grêmio: Mazaropi; Alfinete, Trasante, Luis Eduardo e Airton; Bonamigo, Cuca, Cristóvão e Jorginho (Reinaldo Xavier); Marcos Vinicius e Jorge Veras (Serginho).              Técnico: Rubens Minelli
  • Gols: Marcos Vinicius (Grêmio), aos 26 minutos do primeiro tempo; Nilson (Internacional), aos 16 e aos 26 minutos do segundo tempo.
  • Público: 78.083
Fonte: Gaúcha ZH