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Aniversários

Registrando a vida e histórias de famílias através das lentes em Santa Maria do Herval

11/05/2020 - 18h45min

Aos 80 anos Querino já não é mais fotógrafo e, vivendo na antiga casa da família, passa seus dias lendo (FOTO: Cleiton Zimer)

Santa Maria do Herval – Durante mais de 30 anos Querino Wobeto eternizou momentos de muitos moradores de Santa Maria do Herval e da região. Com sua antiga máquina fotográfica Ricoh, fez fotos de diversos casamentos, eventos religiosos, festas e, até mesmo, alguns batizados. Além disso, ia nas casas fazer fotos de famílias e de crianças. “Primeira foto de criança que tirei colorida eram as filhas do Arno Morschel. Eram pequenos “toquinhos”; estavam sentadas em uma cadeira”, recorda ele.

Querino foi inovador, sendo um dos primeiros fotógrafos do município a fazer fotos coloridas, antes, somente preto e branco.

Na cozinha da sua casa, Querino mostra uma antiga foto de quando era mais novo (FOTO: Cleiton Zimer)

Filho de José e Ana Amália Wobeto, ele nasceu em 12 de novembro de 1939 na localidade de Padre Eterno Alto e, hoje, com 80 anos, mora sozinho na antiga casa em estilo enxaimel – que tem mais de 100 anos – na qual cresceu junto com mais 10 irmãos, seu pai e sua mãe. Querino já se casou, mas não teve filhos; é o mais novo da família, e somente ele e mais um irmão, que é jesuíta, estão vivos.

Sentado na mesa da cozinha, Querino conta a sua história. Explica que ele, assim como todos os irmãos nasceram em casa, com auxílio da parteira Eva Zimmer. Trabalhavam na roça, plantando e colhendo as mais variadas culturas.

Registro antigo de família toda reunida; Querino é o mais novo, está no centro, perto do pai José e da mãe Ana (FOTO: arquivo pessoal)

Querino não concluiu o Ginásio da época e foi estudar para ser irmão jesuíta em São Leopoldo durante dois anos. Não se formou e, em 1960 aos 19 anos, retornou para casa. Logo em seguida, foi para o 19º Regimento de Infantaria de São Leopoldo. “Eu não precisava, mas quis ir no Serviço Militar, porque é uma experiência única”, contou.

Logo ao entrar para o exército, Querino foi campeão no lançamento de granada, atingindo os 66 metros e, com isso, em setembro daquele ano seu capitão enviou-o para o Rio de Janeiro para participar de um torneio da modalidade. “Meu braço estava machucado então não ganhei. Quem venceu foi o sargento Oliveira que jogou 61 metros e eu atingi 59 metros”, contou. Na época, Rio de Janeiro ainda era a Capital do Brasil e, dessa forma, Querino lembra que ele e seus colegas tiveram que se apresentar no gabinete do então presidente Juscelino Kubitschek. “Foi um momento muito importante”, contou.

Ele ficou no Rio durante duas semanas, conheceu o Maracanã que estava em construção onde assistiu a duas partidas de futebol, ais quais considera inesquecíveis pois, até então, nunca tinha visto um jogo em um estádio.

Querino em frente ao Pão de Açúcar em sua ida ao Rio de Janeiro para participar do torneio de lançamento de granada (FOTO: arquivo pessoal)

Recordações que marcaram e estão eternizadas para sempre

Quando retornou do Rio de Janeiro Querino voltou para casa. “Era para ficar no quartel, mas, naquela época, os pais achavam que não era bom ficar longe”, contou, dizendo que retomou seu trabalho na roça em Alto Padre Eterno e, em seguida, se mudou para Campo Bom para trabalhar em indústrias de calçados nas quais ficou por quase cinco anos.

Em 1965 retornou novamente para casa e seguiu na agricultura e, nesse ano, começou a tirar fotos. “Lembro-me que minha mãe precisava de uma foto 3X4, e pensei que podia fazer isso; peguei uma máquina emprestada e fiz. Deu muito certo”, disse ele.

Algum tempo depois comprou a sua própria máquina Ricoh em Porto Alegre. “A clientela começou vindo aos poucos. O primeiro casamento que eu fiz foi do Aljemiro Broilo em Gramado”, recorda. Conta que naquele casamento usava um flash com pilha mais antigo e, por isso, entre uma foto e outra precisava esperar para carregar. “Quando o Padre Manéia deu a comunhão para a noiva, ele me olhou e viu que o flash ainda não estava carregado. Ele esperou até que estivesse e, só então, entregou a comunhão para que eu pudesse registrar”, relembra.

Com 80 anos, seu Querino lembra de várias histórias marcantes. Uma delas também foi o casamento perdido: a cerimônia estava marcada para às 18h mas, por algum motivo foi adiada em duas horas e, como na época a comunicação não era tão fácil o fotógrafo não foi avisado. “Quando eu ia ir para Gramado, na Igreja São Pedro, os noivos estavam voltando e contaram o que aconteceu; aí aluguei uma Kombi para as testemunhas e os noivos coloquei no meu carro, fomos até a Igreja de novo e o Padre Lídio permitiu que fosse feita uma simulação da cerimônia só para fazer o registro”, lembra ele com alegria. “Nunca vou esquecer do Padre Lídio”.

Parte da inspiração para tirar fotos veio do seu irmão mais velho, o Alfredo, que já faleceu. Ele era fotógrafo e aprendeu o ofício com Pedro Muck, que vinha de Novo Hamburgo tirar fotos da colônia. Alfredo ia de cavalo ou mula até as famílias, utilizando uma máquina de fole com tripé. “Naquela época as crianças tinham medo de fazer fotos, pois se dizia “Bild ab neme”, e eles achavam que era “mit neme”, explica Querino. Traduzindo do Hunsrik, as crianças entendiam que eles vinham para levar as crianças junto, afinal, tirar fotografia era algo raro.

A antiga Ricoh

Hoje a antiga máquina fotográfica Ricoh que Querino usava está guardada no Museu Municipal de Herval, onde faz parte do acervo histórico. Em suas memórias, ele lembra que comprou a máquina em Porto Alegre e, desde então, a utilizou para vários eventos. Foi a sua primeira máquina profissional.

Ele conta que os primeiros filmes vinham com 20 fotos e, posteriormente, 36. “Era um verdadeiro desafio, tinha que trocar o filme volta e meia. As vezes contava e trocava antes, para não correr o risco de perder alguma pose ou algum momento importante de um evento”, disse.

A primeira máquina de Querino está guardada no Museu de Herval (FOTO: Cleiton Zimer)

Querino também teve outra máquina que vendeu recentemente. Ele conta que sempre ia sozinho tirar fotos, e, para revelar, enviava para o estúdio Foto Roma em São Leopoldo. “Era tudo muito diferente do que é hoje em dia, era mais difícil”, disse. Ele conta que viveu experiências muito bonitas, mas que hoje não sente saudade do tempo que era fotógrafo. “Deixei no passado”, disse.

Vereador mais votado na primeira legislatura

Ao falar com diversas famílias da região Querino é logo lembrado como o fotógrafo que fez o registro dos casamentos ou de vários outros eventos. Apesar de não estar mais trabalhando no ofício, as histórias que ele registrou, os momentos marcantes que eternizou estão guardados nos álbuns de muitas pessoas e se tornaram parte significativa na vida delas. Dessa forma, seu Querino fez parte dos momentos mais especiais de muita gente.

Querino recebendo o certificado de vereador do juiz (FOTO: arquivo pessoal)

Mas, além disso, ele também fez parte de um marco histórico para Santa Maria do Herval, sendo o vereador mais votado da primeira legislatura do município, no período de 1989 a 1992).
“Saí eleito na mesa nove em Alto Padre Eterno, o resto era lucro”, relembra ele, que ainda guarda, emoldurado, o seu certificado.

Ele legislou junto com Benno Knorst, Hilária Bócoli, Hugo Schneider, João Schaumloeffel, Laurillo Kunst, Remo Ritter, Rodrigo Fritzen e Sebaldo Dilkin.